Sobras

    “Diz-se que quem é feliz no amor
    No jogo é infeliz
    Mas de quem faz do amor
    Um jogo o que é que se diz
    Eu não sei jogar e ela é a rainha
    Como poderei pensar que ela é minha?”
    (Caetano Veloso – Dama do Cassino)

Palavras se desfazem como chuva, em percursos costurados pelo tempo. Derretem violentamente entre o silêncio e os suspiros próprios de cólera. Há pouco instante, tudo era paz. Fios invisíveis a demonstrar a ternura exposta em olhos cansados de esperar. As frases caem de alturas imensuráveis e explodem rompendo a noite fria. Cortam o breu em imagens de luzes dançantes no espaço infindo de nós dois.

Pensamentos imperfeitos como tempestades tropicais clareiam as névoas deixadas pelo passado fragmentado e caminhos interrompidos. Espectros de vidas que se bifurcam em labirintos difusos. Rotas em colisão. Um milhão de sóis a iluminar a face mais sombria do universo. Todos os lados escuros da lua são regidos pelas suas retinas a me fotografar. Início e fim interruptos; que clamam sempre por mais: incansavelmente!

Sobre corpos desfeitos, a maquiagem fria e borrada expõe em versos profundos a quietude de seu exílio. Do lado de fora, longas jornadas em vão. Em minha cabeça, um Minotauro se aloja entre o Dédalo d’alma e a solidão das grandes metrópoles. Sem Teseu e o fio condutor para achar a saída, vago pelas peripécias típicas dos distraídos para a vida. Esqueço os dias de calmaria e miro-me aos pensamentos sobre tormentas e desalentos. Voe como quem deve partir e regresse ao lado dos puros de coração.

A queda de Ícaro: o mergulho raso ao céu aberto e o horizonte infinito. O devaneio de aventurar-se. O risco de cair e o medo de se arriscar. A carne e o osso. Ondas de tristeza encharcada de eufórica alegria divergem e convergem em partes; a me possuir, torturar e proteger. A alma e seus mistérios. A metafísica do amor. A alquimia dos sonhos. A virtualidade do ser. Saídas de emergência em todos dos cantos.

Enquanto feras andam soltas, você me hipnotiza em cada gesto inculto. Feridas e chagas desfeitas em pétalas de rosas a tatuar a pele. Certas consternações não se sentem apenas com o coração. Dores expostas em vitrines vulgares, sob a sombra semi-iluminada do consumo desenfreado e desinibido de pudores. Preso a uma cela, tento fugir e cair em suas garras. Astros distraídos ofuscam constelações.

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