Arquivo para março \27\UTC 2009

Uma canção triste

Fragmentadas cenas se repetem à exaustão. Palavras frias em voz de veludo colidem ao medo repentino de ter o que não se pode tocar. Ouço uma canção triste. Uma espécie e ópera a narrar traços de meus relatos. Sentimentos incompletos e histórias inacabadas. A vida sem freio cega para pequenos milagres cotidianos. Leva-nos para um lugar desconhecido: ao mesmo tempo em que é sombrio, saltam aos olhos a beleza latente dos encantos escondidos no misterioso. Repetidas frases, subentendidas intenções.

O segundo que antecede o medo, a paz roubada de quem desmoronou. Se tudo muda o tempo todo, mude-se para dentro de mim. Não, não é saudade em demasia; tampouco relatos ordinários confeccionados pela dor. Imagens explodem em um mundo governado por anti-heróis. Atravesso a noite interminável com algumas melodias suaves em minha cabeça. Torturantes horas em que busco o sono perdido. Entre versos perdidos e flores, rabisco no espelho nomes e palavras soltas. Não acendo a luz nem procuro me alimentar. Uma canção triste embala a falta de sorriso e o medo do pecado.

Vou perder-me no centímetro exato de seus delírios e subtrações não resolvidas. A matemática e seus mistérios; o silêncio absorto em seus lábios. Palavras não ditas e frases incompletas mostram-me em um mosaico de acontecimentos da fria realidade escondida em seus olhos castanhos. Fantasias deixadas no travesseiro ao som ensurdecedor do despertador, que rouba os melhores instantes do sonho. Mais um longo dia sem poesias e flores pelo chão. A realidade entorpece as vistas cansadas. Pego o telefone para te contar um sonho ruim. Desisto antes de discar o primeiro número. Afinal, vai valer?

Enquanto preocupo-me em saber se vai chover; num segundo de distração pego-me a pensar em você. Não que eu quero torturar-me ou encontrar um culpado. Apenas revi seus sorrisos entre outdoor antigo da avenida. Escrevo cartas repetidas e uso palavras iguais na tentativa de traduzir sentimentos contraditórios. Assim, antes do amanhecer vejo nove luas a clarear o breu. Concebo e descubro respostas; metade é mentira e a outra metade, inventada.

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Labirintos

Procuro minha mão no escuro,
encontro escombros de um dia de sono.
Pesadelo de uma noite mal dormida;
fumaças de cigarros num lugar estranho,
uma jovem, pessoas desconhecidas ao redor.
Não sei se devo seguir.
Sinto que algo está para terminar.
Cada vez mais veloz, o fim parece se aproximar.

Um terço pendurado em cima da cama;
de uma vida inteira voltada para a religião.
Procuro minha mão no escuro,
encontro escombros de uma noite de insônia.
Sinto um corpo frio ao lado.
Olho para os redor, estrelas perdidas
de um teto menos luminoso que uma camiseta em uma vitrine.
Sigo seus passos; não sei seu nome, Maria!
Uma jovem de mãos e braços vestidos;
garotos e garotas perdidos em filmes e bares.
Tudo parece fora de lugar.

Não quero me preocupar.
Deve ser tarde demais!
Olho para os lados, tudo parece estar em paz.
A mesma calmaria que não há em mim.
Matemática, confusões e algo que não esteve ao meu alcance.
Creio que devo desculpas a estranhos.
Estrelas que não brilham mais no céu da Espanha.
Olho para o lado, sinto o frio derreter meus sentidos.
Tudo está bem?
Olho para os cantos
e vejo todos perdidos em labirintos tortuosos.
Jovens garotas enganam-se como se vivecem em um contos de fadas.
Miro para os lados e tento me convencer que tudo está bem.
Sem sucesso.

Suspiro aliviado, para minha surpresa,
fico calmo pela primeira vez desde que acordei.
Assustado pelo sonho de uma morte que tive: faz duas semanas.
Sonhos vivem livres e se despedem por aí.
Sem ao menos tocarmos.
Perturba-nos alma de flores vistas nos cinemas ordinários.
Livros, lixos ou o que a mente espera de um pobre pecador.
Perdido, procuro em todos os cantos. Não posso olhar.
Seguir trajetos de um passo no escuro.
Agora sim parece o fim. Pegadas de caminhos tortuosos.
Saídas em todas as portas!

Memórias de velhas fotografias penduradas na parede

Marcas deixadas pela ação do tempo: as velhas folhas amareladas de papéis fotográficos ainda guardam fragmentos da memória rarefeita. No escuro, suspirava pelas glórias de um passado distante. A cada gesto e sentimentos, gotas de saudades mensuradas em viagens não iniciadas e regressos ao lar. Das travessuras de infância, sorrisos misturados a uma vontade imensa de te ter em meus braços. A vida segue em linhas tortas e ruas desertas.

Observo velhas fotografias que enfeitam as paredes acinzentadas do cotidiano. Pedaços de ilusões esquecidas sobre a mesa. Quando será minha vez de esquecer passos a colidirem em um silêncio abstrato. Justamente na quietude das horas mortas que relembro quem eu fui. São tantas histórias perdidas nos labirintos da memória seletiva. Primavera chuvosa e flores de lótus a enfeitarem sua jornada de retorno ao lugar que nunca deveria ter partido. De concreto, apenas um sorriso moldurado na parede de um longo corredor.

Duzentas vezes berrei seu nome no escuro. Chama viva a queimar minhas diretrizes perdidas e encantos inalcançáveis. A cada manhã, vejo-me mais perto da despedida derradeira, do último adeus, do silêncio das estrelas. Longa estrada em direção ao nada. Caminhos difusos aos que perdem o coração. E no canto escuro do cômodo, uma lembrança a incomodar pela presença eterna. Um gosto amargo na boca e caminhos que se bifurcam num paraíso distante. Distante de ti, tudo paraste.

Passos solitários no asfalto e o céu de brigadeiros sobre cabeças desprovidas de parâmetros mínimos para seguir em frente sem titubear. Feridas abertas em jogos perdidos e uma imensa vontade de servi-se à cova dos leões. Do ponto a qual miro ao espelho, reflexos de uma auto-imagem datada de dez anos. Outrora, as cores eram mais vivas e a saudade pesava menos na alma. Toda as tonalidades do arco-íris a relembrar instantes de euforias revelados em papéis fotográficos. Cada retrato, uma volta ao passado raso; uma espécie de corredor do tempo, que me faz voltar séculos de existência.

Pensamentos nebulosos encobertos por devaneios momentâneos. Em preto e branco, vejo seu sorriso como uma onda de boa esperança. Velhas páginas amarelas e provérbios repetidos à exaustão. Sobre a cama, um terço para relembrar a fé perdida e o conturbado medo da solidão mediada. Nossas vidas tornaram-se um único caminho composto por percalços e desafios. Rezo três vezes a santos que não acredito, apenas para repetir um exercício ensinado por minha mãe. Das cavernas da religião, entrego-me à desconfiança de tudo que não se derrete no ar.

Olhares vagos postos à parede que, translúcida, mostra-me seus olhos transpostos em papel moldurado a enfeitar a casa refeita de saudade. Recordações em cada canto escuro. Do outro lado do mundo, eu olho à janela: as músicas que cantamos juntos e a incompreensão muda dos medos do passado a reinaugurarem em um futuro próximos aos olhos cândidos. Outono tem gosto de mágoas. Primavera, uma chaga aberta. A falta de memória trai os melhores momentos da vida. Vivemos em um mundo voraz, que desaparece a todo instante a magia do objeto cotidiano. Cada dia, milênios de evolução são esquecidos em nome do fetiche tecnológico. Apetrechos fabricados ao menor custo e com baixa capacidade científica a servir-se de psicologia barata para aliviar os desesperos pós-modernos. Um pequeno milagre límpido para a próxima geração, que se consumirá após 15 minutos no ar.


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