Memórias de velhas fotografias penduradas na parede

Marcas deixadas pela ação do tempo: as velhas folhas amareladas de papéis fotográficos ainda guardam fragmentos da memória rarefeita. No escuro, suspirava pelas glórias de um passado distante. A cada gesto e sentimentos, gotas de saudades mensuradas em viagens não iniciadas e regressos ao lar. Das travessuras de infância, sorrisos misturados a uma vontade imensa de te ter em meus braços. A vida segue em linhas tortas e ruas desertas.

Observo velhas fotografias que enfeitam as paredes acinzentadas do cotidiano. Pedaços de ilusões esquecidas sobre a mesa. Quando será minha vez de esquecer passos a colidirem em um silêncio abstrato. Justamente na quietude das horas mortas que relembro quem eu fui. São tantas histórias perdidas nos labirintos da memória seletiva. Primavera chuvosa e flores de lótus a enfeitarem sua jornada de retorno ao lugar que nunca deveria ter partido. De concreto, apenas um sorriso moldurado na parede de um longo corredor.

Duzentas vezes berrei seu nome no escuro. Chama viva a queimar minhas diretrizes perdidas e encantos inalcançáveis. A cada manhã, vejo-me mais perto da despedida derradeira, do último adeus, do silêncio das estrelas. Longa estrada em direção ao nada. Caminhos difusos aos que perdem o coração. E no canto escuro do cômodo, uma lembrança a incomodar pela presença eterna. Um gosto amargo na boca e caminhos que se bifurcam num paraíso distante. Distante de ti, tudo paraste.

Passos solitários no asfalto e o céu de brigadeiros sobre cabeças desprovidas de parâmetros mínimos para seguir em frente sem titubear. Feridas abertas em jogos perdidos e uma imensa vontade de servi-se à cova dos leões. Do ponto a qual miro ao espelho, reflexos de uma auto-imagem datada de dez anos. Outrora, as cores eram mais vivas e a saudade pesava menos na alma. Toda as tonalidades do arco-íris a relembrar instantes de euforias revelados em papéis fotográficos. Cada retrato, uma volta ao passado raso; uma espécie de corredor do tempo, que me faz voltar séculos de existência.

Pensamentos nebulosos encobertos por devaneios momentâneos. Em preto e branco, vejo seu sorriso como uma onda de boa esperança. Velhas páginas amarelas e provérbios repetidos à exaustão. Sobre a cama, um terço para relembrar a fé perdida e o conturbado medo da solidão mediada. Nossas vidas tornaram-se um único caminho composto por percalços e desafios. Rezo três vezes a santos que não acredito, apenas para repetir um exercício ensinado por minha mãe. Das cavernas da religião, entrego-me à desconfiança de tudo que não se derrete no ar.

Olhares vagos postos à parede que, translúcida, mostra-me seus olhos transpostos em papel moldurado a enfeitar a casa refeita de saudade. Recordações em cada canto escuro. Do outro lado do mundo, eu olho à janela: as músicas que cantamos juntos e a incompreensão muda dos medos do passado a reinaugurarem em um futuro próximos aos olhos cândidos. Outono tem gosto de mágoas. Primavera, uma chaga aberta. A falta de memória trai os melhores momentos da vida. Vivemos em um mundo voraz, que desaparece a todo instante a magia do objeto cotidiano. Cada dia, milênios de evolução são esquecidos em nome do fetiche tecnológico. Apetrechos fabricados ao menor custo e com baixa capacidade científica a servir-se de psicologia barata para aliviar os desesperos pós-modernos. Um pequeno milagre límpido para a próxima geração, que se consumirá após 15 minutos no ar.

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2 Responses to “Memórias de velhas fotografias penduradas na parede”


  1. 1 Isa Rangel abril 23, 2009 às 5:50 pm

    Oii! Tudo bem?!

    Estava eu aqui, passeando por algumas palavras e eis que me deparo com esse seu blog maravilhoso, de textos incríveis!
    E ele já me chamou a atenção de primeiro pelo seu título: ”
    O Silêncio das Estrelas”… eu sou uma pessoa apaixonada e fascinada por elas.
    E seu texto está indescultivelmente mágico e realista, Muito bom mesmo. Parabéns.

    “…Do outro lado do mundo, eu olho à janela: as músicas que cantamos juntos e a incompreensão muda dos medos do passado a reinaugurarem em um futuro próximos aos olhos cândidos. Outono tem gosto de mágoas.”

    E eu destacaria esse trecho em especial. Quando li, reparei que tem a ver comigo e ele é muito preciso.
    Com certeza estarei por aki mais vezes.

    Até breve. Abç.. Isa*

  2. 2 jhn. abril 23, 2009 às 8:51 pm

    e aí véi .. poo .. de comeÇo meus parabens e devo admitir q Isa – ela que me recomendou tal site – naum estava enganada mesmo naum .. ehh mui bom .. palavras escritas como sempre gostei de lêr e de deleitar-me .. cara …ehh por coisas assim q me motivam a cada dia acreditar na literatura .. principalmente as desconhecidas .. parabens mais uma vez .. e .. espero ver vc no meu reacanto tabem heinn.. hehee .. abÇs.. teh mais v ..


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