Arquivo de abril \25\UTC 2009

Lutas invisíveis

Abrem-se as cortinas e um mundo novo explode diante dos olhos cândidos. Esperançosos, procuram reconstruir a partir de fragmentos um mosaico multicolor. Frases incompletas, intenções escondidas; desejos subentendidos; sorte jogada aos astros distraídos: incompletas verdades e mentiras que deixaram de acontecer.

A realidade tinge a beleza dos pequenos milagres cotidianos com cores violentas. Segundos depois, nada mais restará nos poros, na pele, na boca, na alma… no ar. Evapora-se e leva-nos a acreditar que tudo não passou de um delírio, um momento de loucura controlada. Ventos solares a varrerem as lágrimas escondidas.

Nem tudo que é fugaz perder-se nos labirintos da memória. O ar rarefeito e a imensa necessidade de reiventar o passado mesmo antes do sol nascer. Sísifo indeciso diante da colina a calcular a necessidade de seu labor. A beleza é efêmera diante de olhos desprotegidos de tudo que é simples e suave. Leve pluma solta sem direção aos sete ventos. Dentro de mim, o mundo parou. Revive agora em ti; ou no que restou de nós. Silêncio: o que me resta é observar a solidão da rua pela janela.

Vou sair para ver o céu, vou me perder nos segundos sagrados dos sonhos deixados no travesseiro. Antes mesmo do pôr-do-sol, penso em milhares de formas para me esquecer de tudo que se passou. Preso em armadilhas do tempo, creio viver hoje uma repetição de cenas nunca vistas. Para sempre essa noite na memória. Chovia, mas ninguém se importou se mudávamos tudo em nós. Uma rua deserta no meio do mundo imaginário.

Olho meus olhos cansados diante ao espelho e percebo marcas de lutas invisíveis pelo corpo. Restos de um passado presente em meus passos indecisos e gestos contraditórios. Por medo, deixo alguns sonhos entorpecidos em cima da penteadeira e saio para mais um dia de poesia morta. Sem flores pelo trajeto, observo o entardecer melancólico da cidade cinza. Cores e fantasmas que rodeiam as ruínas esquecidas são as heranças recebidas da ganância voluptuosa.

Deixo as chaves para um jovem mundo sobre os trilhos e parto por galerias desconhecidas em busca de um novo eu. Sem documentos nos bolsos, conta em banco ou carta de alforria sigo preso em minha liberdade excessiva. Como se o dia seguinte não fosse nascer, ou se não existisse mais nada para acreditar, levo meus cabelos às rajadas tropicais de um tempo inexistente. O vento beija a noite escura, em volta completa rumo ao amanhecer. Amanhã, tudo voltará ao normal.


abril 2009
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