Arquivo para maio \27\UTC 2009

Em leve satélite

O telefone a tocar sem a mínima esperança de ouvir sua voz do outro lado da linha. A vida passa rápido demais. Fecho os olhos e parece que foi ontem. Ao mesmo tempo, tantos encontros e desencontros, beijos e despedidas, gritos e sussurros… tantas coisas ocorreram desde então. Há quem chame de acaso, outros de ironia do destino; fato é que não creio na existência de tais redes invisíveis a controlar nossos passos. Existem a lua e a maré, mas também há remédios para dormir. Retrato instantâneo de um cotidiano não vivido; flores deixadas sobre o túmulo e o medo de reinventar o futuro remoto. Uma cápsula do tempo guardada no fragmentado (in)consciente coletivo. A bifurcação dos sentimentos. Janela da alma em formas homeopática. Por ondas via satélite, enxergamos um mundo formatado pela tábua-rasa do senso comum. Incomum abrir os olhos e analisar a realidade opaca que nos cerca. A vida sem freio, sem pressa, sem sonho, sem expectativa e alegria nos prega um sorriso irônico. Pelos cantos de olhares sombrios, via-se o resto de esperanças perdidas escoarem pelo ralo. Numa dança macabra, a realidade misturava-se com escombros de uma noite de insônia e sentimentos desfeitos.

Deixo a cama sabendo que terei um longo dia sem poesias, flores ou alguém a me esperar. Corro contra o relógio para me alimentar na hora certa, ser pontual aos compromissos, não esquecer de pagar as despensas mensais e lembrar de datas que não me remetem a nada. Luto, diariamente, contra o gigante medo no intuito de manter a cabeça ereta, a coluna reta e o coração o mais tranquilo possível. Cogito: entre o ébrio e o inexato, o sombrio e o inacabado, o abatido e o derrotado. Para saber o que se passa ao meu redor, ligo a TV e esqueço das preocupações pertinentes sobre meu relato. À taba de índio pós-catequizado pelo moderno desejo da companhia midiática. Cabos de fibra ótica e sistemas complexos de transmissões digitais vomitadas, friamente, entre o fetiche tecnológico e a solidão mediada. Do outro lado do mundo, sequer sabe de minhas angustias e lamentações.

Sobem as cortinas e um novo mundo desce pelos desfiladeiros da inconsciência. Tenho a chave do jogo na palma das mãos. Incapaz, deixo escorrer como areia ao vento os meus desejos e esperanças. Caem folhas, despedem da vida no ápice de seus impulsos. Acompanho pelo calendário deixado, involuntariamente, sobre a mesa o correr acelerado dos dias maquinais. Revir a areia da ampulheta escorrer, face sombria, pelo largo orifício. Cada dia, um ensaio dramático para o último ato, a última cena, a última fala. O adeus definitivo ensaiado a exaustão diária. Guiado pela sequência de diferentes naipes e cores, deixo o destino jogar as cartas. Não por acaso, faz as maiores apostas; é detentor do melhor carteado e controla a banca. Num desatino cruel e desenfreado, vence quem sabe mentir com o rosto alvo da verdade.

Esconde entre os dentes um amor definitivamente abandonado. Um anjo solto escreveu em minhas mãos: sairá a salvo, sem vida; mas não terá nada para citar. Desta janela, sozinha, olhar as luzes da cidade lhe traz calma. Sorria quando o choro era a única vontade que sua alma emitia. Fez-se uma dor cicatrizada em alto-relevo em seu coração. Pelos anúncios luminosos da orla da praia, seu olhar sem brilho segue em busca de algo inclassificável. Desatino e dor sem cessar. A rigor, o passo seguinte se confunde com o caminhar do passado. Segue em frente sem saber a próxima jogada. Dados a rolarem sobre os degraus dos destinos que se cruzam no tempo. Amanhã, repetirá os mesmos temores e acalantos antes do sol nascer. Que o satélite seja breve.

Histórias estranhas

Um salto no escuro grito da madrugada silenciosa. Como se não fosse impossível viver do sonho. O insano desejo de voar de peito aberto para o novo destino em vão. Preciso desabafar sobre as mais sombrias lembranças esquecidas no travesseiro antes do cair da noite. Sobre as mil noites no sertão, lampejos de euforias em sombras de desejos reprimidos. Noite chegou e outra vez esqueço o sutil detalhe que sou mortal. Morro todos os dias em frente aos seus olhos castanhos. Espero no fundo da noite, no fundo do copo, no fundo dos olhos… tomar suas mãos. Você desconhece o futuro que trago tatuado na derme.

Mesmo no escuro da noite e no silêncio das vozes opacas, não me sinto sozinho. Fujo das esquinas vazias para um outro lugar indefinido. No claro do dia novo, encontrarei seus traumas e pecados desfeitos sobre ao criado-mudo. Silêncio nos corredores. A vida se cansa das despedidas de corações solitários. Você se esquece das palavras ditas e das madrugadas entregues à meditação e à desesperança. Discorro em histórias estranhas, os relatos esquecidos ao som do mar e luz de um céu profundamente sombrio.

Desejo ser herói para salvar-me de meus medos torturantes. Cada relato, um novo amanhecer tingindo em papéis adormecidos e amarelados pelo tempo. Caem as folhas, os desejos, as palavras, os dias… nada permanece igual aos olhos cândidos e incompreensíveis. A vida imita a arte não representada: o teatro das ilusões perdidas. Papeis picados e aplausos calorosos. O final era fatal a cada filme rodado em sua retina. A tirania dos oprimidos; a estranha coragem dos desenganados. Sobre a mesa, dois terços de uma fé esquecida e o que a poeira encobriu de utopia envelhecida.

Sujos de sal, navegávamos em tormentas tempestades de esperanças. Sofro, sacrossanto, esperando por um dia de sol vindouro. Eu sempre quis decifrar seus passos, peco pelo excesso de esmero e polidez. Sobra luz sobre o cais de paixões. Cada memória, pequenos universos que se despedem da vida. Vigília de pastores descrentes a iluminar as trevas. Vendemos saúde, mas nos entupimos de remédios para ficarmos mais jovens. Palavras envelhecidas de um menestrel a caminhar enlouquecido, barba embranquecida, pelas ruas cinzas das ruínas da cidade em ebulição. A explicação que nunca procurei se esconde debaixo do temporal. Seus olhos iluminam a minha face mais escura.

Espero-te em um esquina qualquer em busca de algo que sabes mas não queres perceber. Relato em histórias sem finais o começo de um capítulo obscuro. Passavam-se os anos e nada permanecia em nós. Eu tinha bruxas impregnadas em meu lado esquerdo. A explicação que sei, se há, se foi pelo ar. Sem fim. Um novo ponto final a cada relato repetido. Enlouquecido. Exclamação? Eu invento rotas e espaço para te ver correndo ao curto trajeto de meus braços.

Escrevo com palavras repetidas as normas inexatas que orquestram seus sonhos delirantes. Nada mais adivinho. Era ingênuo sonhar e provar que ainda sou um menino. Ainda sonho a sua volta e os perigos que me roubam o sono de desejar estar contigo. Insisto em proclamar o oposto do que vivo. Nada mais acredito. Sou corajoso, mas muitas vezes deixei o medo tomar contar de meus passos. Ainda temo o escuro, mas desafio a breu com as luzes acessas no corredor e um oração que repito, sem fé, pelo exercício herdado de minha mãe. Não sei o dia de amanhã, porém acordo esperançoso antes mesmo do sol nascer.

Durmo com medo do futuro e esqueço as preocupações ao ouvir o som de flautas. Eu esqueço de cantar meus dias em euforias. Nada mais alivio. Nós, filhos de uma geração que morria ou mataria por um ideal, somos incapazes de se emocionar com a humanidade. Mudar o mundo, jamais. Nossa gênese não quer sonhar. Preciso te provar que ainda sou um menino envelhecido. Não durmo sem sua voz a protestar em forma de hino.


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