Histórias estranhas

Um salto no escuro grito da madrugada silenciosa. Como se não fosse impossível viver do sonho. O insano desejo de voar de peito aberto para o novo destino em vão. Preciso desabafar sobre as mais sombrias lembranças esquecidas no travesseiro antes do cair da noite. Sobre as mil noites no sertão, lampejos de euforias em sombras de desejos reprimidos. Noite chegou e outra vez esqueço o sutil detalhe que sou mortal. Morro todos os dias em frente aos seus olhos castanhos. Espero no fundo da noite, no fundo do copo, no fundo dos olhos… tomar suas mãos. Você desconhece o futuro que trago tatuado na derme.

Mesmo no escuro da noite e no silêncio das vozes opacas, não me sinto sozinho. Fujo das esquinas vazias para um outro lugar indefinido. No claro do dia novo, encontrarei seus traumas e pecados desfeitos sobre ao criado-mudo. Silêncio nos corredores. A vida se cansa das despedidas de corações solitários. Você se esquece das palavras ditas e das madrugadas entregues à meditação e à desesperança. Discorro em histórias estranhas, os relatos esquecidos ao som do mar e luz de um céu profundamente sombrio.

Desejo ser herói para salvar-me de meus medos torturantes. Cada relato, um novo amanhecer tingindo em papéis adormecidos e amarelados pelo tempo. Caem as folhas, os desejos, as palavras, os dias… nada permanece igual aos olhos cândidos e incompreensíveis. A vida imita a arte não representada: o teatro das ilusões perdidas. Papeis picados e aplausos calorosos. O final era fatal a cada filme rodado em sua retina. A tirania dos oprimidos; a estranha coragem dos desenganados. Sobre a mesa, dois terços de uma fé esquecida e o que a poeira encobriu de utopia envelhecida.

Sujos de sal, navegávamos em tormentas tempestades de esperanças. Sofro, sacrossanto, esperando por um dia de sol vindouro. Eu sempre quis decifrar seus passos, peco pelo excesso de esmero e polidez. Sobra luz sobre o cais de paixões. Cada memória, pequenos universos que se despedem da vida. Vigília de pastores descrentes a iluminar as trevas. Vendemos saúde, mas nos entupimos de remédios para ficarmos mais jovens. Palavras envelhecidas de um menestrel a caminhar enlouquecido, barba embranquecida, pelas ruas cinzas das ruínas da cidade em ebulição. A explicação que nunca procurei se esconde debaixo do temporal. Seus olhos iluminam a minha face mais escura.

Espero-te em um esquina qualquer em busca de algo que sabes mas não queres perceber. Relato em histórias sem finais o começo de um capítulo obscuro. Passavam-se os anos e nada permanecia em nós. Eu tinha bruxas impregnadas em meu lado esquerdo. A explicação que sei, se há, se foi pelo ar. Sem fim. Um novo ponto final a cada relato repetido. Enlouquecido. Exclamação? Eu invento rotas e espaço para te ver correndo ao curto trajeto de meus braços.

Escrevo com palavras repetidas as normas inexatas que orquestram seus sonhos delirantes. Nada mais adivinho. Era ingênuo sonhar e provar que ainda sou um menino. Ainda sonho a sua volta e os perigos que me roubam o sono de desejar estar contigo. Insisto em proclamar o oposto do que vivo. Nada mais acredito. Sou corajoso, mas muitas vezes deixei o medo tomar contar de meus passos. Ainda temo o escuro, mas desafio a breu com as luzes acessas no corredor e um oração que repito, sem fé, pelo exercício herdado de minha mãe. Não sei o dia de amanhã, porém acordo esperançoso antes mesmo do sol nascer.

Durmo com medo do futuro e esqueço as preocupações ao ouvir o som de flautas. Eu esqueço de cantar meus dias em euforias. Nada mais alivio. Nós, filhos de uma geração que morria ou mataria por um ideal, somos incapazes de se emocionar com a humanidade. Mudar o mundo, jamais. Nossa gênese não quer sonhar. Preciso te provar que ainda sou um menino envelhecido. Não durmo sem sua voz a protestar em forma de hino.

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1 Response to “Histórias estranhas”


  1. 1 Gustavo maio 22, 2009 às 7:21 pm

    Como diz o Dr. Drauzio Varela:

    “No mundo atual está se investindo cinco vezes mais em remédios para virilidade masculina e silicone para mulheres do que na cura do Mal de Alzheimer.
    Daqui a alguns anos teremos velhas de seios grandes e velhos de pinto duro, mas que não se lembrarão para que servem.”


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