Em leve satélite

O telefone a tocar sem a mínima esperança de ouvir sua voz do outro lado da linha. A vida passa rápido demais. Fecho os olhos e parece que foi ontem. Ao mesmo tempo, tantos encontros e desencontros, beijos e despedidas, gritos e sussurros… tantas coisas ocorreram desde então. Há quem chame de acaso, outros de ironia do destino; fato é que não creio na existência de tais redes invisíveis a controlar nossos passos. Existem a lua e a maré, mas também há remédios para dormir. Retrato instantâneo de um cotidiano não vivido; flores deixadas sobre o túmulo e o medo de reinventar o futuro remoto. Uma cápsula do tempo guardada no fragmentado (in)consciente coletivo. A bifurcação dos sentimentos. Janela da alma em formas homeopática. Por ondas via satélite, enxergamos um mundo formatado pela tábua-rasa do senso comum. Incomum abrir os olhos e analisar a realidade opaca que nos cerca. A vida sem freio, sem pressa, sem sonho, sem expectativa e alegria nos prega um sorriso irônico. Pelos cantos de olhares sombrios, via-se o resto de esperanças perdidas escoarem pelo ralo. Numa dança macabra, a realidade misturava-se com escombros de uma noite de insônia e sentimentos desfeitos.

Deixo a cama sabendo que terei um longo dia sem poesias, flores ou alguém a me esperar. Corro contra o relógio para me alimentar na hora certa, ser pontual aos compromissos, não esquecer de pagar as despensas mensais e lembrar de datas que não me remetem a nada. Luto, diariamente, contra o gigante medo no intuito de manter a cabeça ereta, a coluna reta e o coração o mais tranquilo possível. Cogito: entre o ébrio e o inexato, o sombrio e o inacabado, o abatido e o derrotado. Para saber o que se passa ao meu redor, ligo a TV e esqueço das preocupações pertinentes sobre meu relato. À taba de índio pós-catequizado pelo moderno desejo da companhia midiática. Cabos de fibra ótica e sistemas complexos de transmissões digitais vomitadas, friamente, entre o fetiche tecnológico e a solidão mediada. Do outro lado do mundo, sequer sabe de minhas angustias e lamentações.

Sobem as cortinas e um novo mundo desce pelos desfiladeiros da inconsciência. Tenho a chave do jogo na palma das mãos. Incapaz, deixo escorrer como areia ao vento os meus desejos e esperanças. Caem folhas, despedem da vida no ápice de seus impulsos. Acompanho pelo calendário deixado, involuntariamente, sobre a mesa o correr acelerado dos dias maquinais. Revir a areia da ampulheta escorrer, face sombria, pelo largo orifício. Cada dia, um ensaio dramático para o último ato, a última cena, a última fala. O adeus definitivo ensaiado a exaustão diária. Guiado pela sequência de diferentes naipes e cores, deixo o destino jogar as cartas. Não por acaso, faz as maiores apostas; é detentor do melhor carteado e controla a banca. Num desatino cruel e desenfreado, vence quem sabe mentir com o rosto alvo da verdade.

Esconde entre os dentes um amor definitivamente abandonado. Um anjo solto escreveu em minhas mãos: sairá a salvo, sem vida; mas não terá nada para citar. Desta janela, sozinha, olhar as luzes da cidade lhe traz calma. Sorria quando o choro era a única vontade que sua alma emitia. Fez-se uma dor cicatrizada em alto-relevo em seu coração. Pelos anúncios luminosos da orla da praia, seu olhar sem brilho segue em busca de algo inclassificável. Desatino e dor sem cessar. A rigor, o passo seguinte se confunde com o caminhar do passado. Segue em frente sem saber a próxima jogada. Dados a rolarem sobre os degraus dos destinos que se cruzam no tempo. Amanhã, repetirá os mesmos temores e acalantos antes do sol nascer. Que o satélite seja breve.

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1 Response to “Em leve satélite”


  1. 1 Gustavo junho 6, 2009 às 11:21 am

    Mais um belo texto, Edu!
    E aí cara, quando vai sair o livro, hehe?


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