Arquivo para junho \21\UTC 2009

Palavras não ditas

Guardei o retrato seu que mais gostava entre as páginas de um livro de contos reunidos de Murilo Rubião. Não como metáfora às questões existencialistas, apenas para me refugiar das decisões contrárias. O sorriso que me iluminava adormece, agora, entre o canto empoeirado e as antigas leituras na estante de meu quarto. O amor é isso: poeira, vestígios de sorrisos e uma imensa saudade a enfeitar o mosaico que nos cerca.

A emoção parece ter chegado ao fim. Ver-te caminhar perdeu a importância. As imagens vão se apagando da memória rarefeita. Voltas incompletas de um caleidoscópio a girar sem órbita. Fora do ar em vastas sensações esquecidas. Irônico destino fadado a seguir em linha reta quando o mundo insiste em caminhar de forma cíclica. Sol, girassol a girar…

Cada face da lua guarda um mistério. Seus olhos e palavras duras eram enigmas que tentava decifrar a cada novo ciclo lunar. Disposto a ser devorado, perdia o pouco da paz reinante de desencontros do passado. Com gosto de framboesa na boca, imagina ser dias especiais. Foram. Mas partiram. Nem o frio ou a falta de assunto foram capazes de afugentar os corpos cansados de promessas esquecidas.

Enquanto você ria, o mundo parecia parar. Problemas deixavam de existir apenas por ter as imagens de seus olhos cerrados e lábios abertos cristalizados em minhas retinas. Pego o livro que repousa sua foto, mas desisto instante antes de abrir a página certa. Ver seu sorriso puro, estampado em cores límpidas e registrado em um momento de felicidade plena, seria um golpe certeiro ao dilacerado coração ofendido. Deixo repousar na eternidade de um segundo a repentina inspiração. Seu sorriso emoldurava a corrente que envolve o amanhã.

Foi o tempo de fechar os olhos e dormir. Breve pluma a voar pelo ar, com a mesma intensidade que veio, partiu sem deixar sinal. Varres esfinges em cruzadas épicas. Triste mundo em que se vangloriam estadistas e guerreiros. Em meu cenário ideal, artistas vadios e poetas boêmios governariam os corações solitários. O arremesso mortal da saudade que sentirei do amanhã.

Há ocasiões que o sol se esconde entre nuvens indefinidas e carregadas. Em outros momentos, é a chuva a molhar a roseira no jardim. O cheiro que exala e as cores ressaltadas fazem-me recordar as notas musicais de uma antiga canção que me acompanha desde os cinco anos de idade. Escrevo porque não sei compor músicas. Talvez nem saiba transpor em papel o que se passa em minha cabeça.

Mas, você teimava em ser essa menina distraída que vacila diante de tudo. Eu, enquanto isso, tentava equilibrar a insegurança com o medo do escuro. Espelhos multicoloridos refletiam em uma realidade criada a epopéia seguida pelo infindo espaço de nós dois. A diferença, como sempre, era a sua desconfiança cética de tudo e a minha falta de fé. Mentindo, seus olhos me confidenciaram que necessitava de uma nova dose do novo. Você, pela clarividência de meu rosto, percebeu que eu aguardava o derradeiro amanhecer.

Em bolhas de sabão sopradas por uma criança enquanto esperava o tempo passar até se tornar adulta – e fria como todos aos amadurecidos –, reflexos recriavam o que fui até então. Nuvens cobriam o céu em que o sol lutava friamente para raiar. Eu olhava as bolhas de sabão a desafiar a gravidade e pegava-me a pensar sobre a vida: sábias palavras não ditas e as expectativas deixadas sobre o travesseiro.

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