Arquivo para julho \20\UTC 2009

O castelo dos destinos

Longa noite sem sono; pesa sobre os ombros a ausência de algo ainda inclassificável. Uma espécie de saudade de acontecimentos que estão por vir. Na memória, pensamentos imperfeitos e incompletos. Fragmentos do passado misturados com os próximos passos em direções opostas. Contraditórios sempre foram meus devaneios mais interessantes. Creio que me acostumei a esquecer os sentimentos ainda em estado embrionário.

Ao senso comum, ilusórias sombras sem um espectro visível. Forma e conteúdo imprecisos ao passo que se escondem por detrás de cortinas concebidas pela imaginação fértil. Improvável, impossível, inalcançável aos olhos nus e sentimentos desencontrados. Ligações invisíveis, redes imagináveis. Suave tormenta e retorno ao lar. Sejam bem-vindos, mas regressem ao mar raso de sensações insólitas e momentâneas antes que a dor torne-se insuportável.

Sobre nove luas, gritei sem força seu nome em uma noite fria. Nada permanece inalterado sobre os trilhos de comedida tempestade. Calmaria provisória. Amanhã tudo voltará à velha rotina: morte e vida; encontros e desencontros; lua e sol. Bendita voz a sussurrar palavras doces e mentirosas aos meus ouvidos desacostumados com a realidade dura e imposta pelos padrões de consumo. Suas verdades inventadas me fazem acreditar que são respostas e manifestações do coração. Antes viver de esperança que perder a certeza de tudo.

Lavo as mãos e deixo sobre a alma o que não se pode interromper. O que nos aproxima, afasta-nos involuntariamente com a mesma intensidade, talvez com um pouco mais de força. Nesse vetor, o tempo dita as regras sujas. Polos magnéticos que se chocam em um espaço sem gravidade. Suspenso no ar. Reflexos de uma noite desprendida sobre vultos. Empilhada em cantos escuros da alma, a soberba reflexão incorreta sobre quem sou. Minhas abstrações se limitam a nada definir com profundidade. Nos destinos cruzados, castelos envelhecidos permeiam caminhos emaranhados pelo acaso. Por descaso, espero sua volta, da mesma forma que aguardo meu reencontro.

Do mais, estou indo embora do campo de sua visão, apenas para resguardar o que restou das velhas lembranças. Recordações de alguns abraços, fotos espalhadas e sua imagem cristalizada em minha retina. O que restou de vastas sensações que nos permearam por anos: a ausência, a dor, a saudade, seu retrato na estante e a redenção dos pecados não cometidos. Ficaram as palavras soltas no ar. Como bolhas de sabão, após breve elevação, esvaem com o vento.

O tempo diminui com a intensidade que os pensamentos incompletos controlam meus passos ao acaso. Com o cuidado necessário, preocupo-me com a saúde e equilibro uma dieta que não será cumprida. Tardios reflexos da consciência, por instantes tive a sensação nítida que estava ao meu lado. A sua presença se faz necessária em ocasiões em que não me encontro em mim. De exato, apologias deixadas de lado e outras utópicas revelações sobre as invisíveis teias que controlam o mundo. Feridas abertas pelo tempo e a vontade de cura instantânea.

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Ab(surdo)

Se o absurdo,
por um segundo
fizer-me sonhar
ou, quem sabe,
calar-me a voz
engasgada
e encher a face
com gosto de lágrimas.
Saberei que não
foi apenas um sonho
abstrato.

Se suas palavras
mudas forem visíveis
apenas aos meus olhos
insensatos,
desesperados,
incompreendidos.
O silêncio da noite
interminável
faz-me renovado
para um outro
amanhecer.

Improvável
perder a esperança.
Contra-senso seria
não mais ter
a presença
de sua voz suave
que me fazer calar
a boca, a mente
e o coração.

Depois da vertigem, a volta

Partes perdidas de uma calmaria desejada. Sobre o mundo, caminho vislumbrando seus suspiros esquecidos. A paz roubada tão perto de voltar ao princípio, quando tudo era utopia ou um lindo sonho inalcançável. Inexatos instantes a contemplar as horas mortas. Enquanto a roda-gigante que gerencia o universo gira, vagamos pelas lentes cristalizadas e olhares infantis. Meus olhos vermelhos e o medo de se entregar.

Perto do fogo, longe das lágrimas de um recinto de outrora. Mar e sol que se unem em um ponto perdido no universo. Volte do lado sombrio da lua e me encante com seus mistérios, que me devoram aos poucos. Um pouco de luz. Ar, por favor! Rascunhos de histórias inacabadas e imperfeitas transcorrem em passos lentos a me conduzir. Perigos e sinais de vida vindos de um passado opaco. Medo e desejo misturados. A saudade transmuta em sabedoria e dores solidificadas. Pelos reflexos do espelho, te vejo a dançar em um ritual. Mitologicamente, você a enfeitar meus pesadelos mais sombrios.

Aproximo meus anseios a suas mãos cândidas. Olhos e pele próximos a acontecimentos recentes e expectativas de ações vindouras. Pesa sobre os ombros, a necessidade quase que vital em alinhar seus impulsos a meus pulsos cansados. No momento de ir embora, resolvi voltar. Esqueço traumas, dores e sonhos sobre a penteadeira e parto para mais um dia sem flores, sem poesia. Como entregue a um amor remoto, sem conseguir um direcionamento aos meus passos, saio para salvar o mundo. Rostos e gestos trazidos pela maré. Depois da vertigem, a volta.


julho 2009
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