O castelo dos destinos

Longa noite sem sono; pesa sobre os ombros a ausência de algo ainda inclassificável. Uma espécie de saudade de acontecimentos que estão por vir. Na memória, pensamentos imperfeitos e incompletos. Fragmentos do passado misturados com os próximos passos em direções opostas. Contraditórios sempre foram meus devaneios mais interessantes. Creio que me acostumei a esquecer os sentimentos ainda em estado embrionário.

Ao senso comum, ilusórias sombras sem um espectro visível. Forma e conteúdo imprecisos ao passo que se escondem por detrás de cortinas concebidas pela imaginação fértil. Improvável, impossível, inalcançável aos olhos nus e sentimentos desencontrados. Ligações invisíveis, redes imagináveis. Suave tormenta e retorno ao lar. Sejam bem-vindos, mas regressem ao mar raso de sensações insólitas e momentâneas antes que a dor torne-se insuportável.

Sobre nove luas, gritei sem força seu nome em uma noite fria. Nada permanece inalterado sobre os trilhos de comedida tempestade. Calmaria provisória. Amanhã tudo voltará à velha rotina: morte e vida; encontros e desencontros; lua e sol. Bendita voz a sussurrar palavras doces e mentirosas aos meus ouvidos desacostumados com a realidade dura e imposta pelos padrões de consumo. Suas verdades inventadas me fazem acreditar que são respostas e manifestações do coração. Antes viver de esperança que perder a certeza de tudo.

Lavo as mãos e deixo sobre a alma o que não se pode interromper. O que nos aproxima, afasta-nos involuntariamente com a mesma intensidade, talvez com um pouco mais de força. Nesse vetor, o tempo dita as regras sujas. Polos magnéticos que se chocam em um espaço sem gravidade. Suspenso no ar. Reflexos de uma noite desprendida sobre vultos. Empilhada em cantos escuros da alma, a soberba reflexão incorreta sobre quem sou. Minhas abstrações se limitam a nada definir com profundidade. Nos destinos cruzados, castelos envelhecidos permeiam caminhos emaranhados pelo acaso. Por descaso, espero sua volta, da mesma forma que aguardo meu reencontro.

Do mais, estou indo embora do campo de sua visão, apenas para resguardar o que restou das velhas lembranças. Recordações de alguns abraços, fotos espalhadas e sua imagem cristalizada em minha retina. O que restou de vastas sensações que nos permearam por anos: a ausência, a dor, a saudade, seu retrato na estante e a redenção dos pecados não cometidos. Ficaram as palavras soltas no ar. Como bolhas de sabão, após breve elevação, esvaem com o vento.

O tempo diminui com a intensidade que os pensamentos incompletos controlam meus passos ao acaso. Com o cuidado necessário, preocupo-me com a saúde e equilibro uma dieta que não será cumprida. Tardios reflexos da consciência, por instantes tive a sensação nítida que estava ao meu lado. A sua presença se faz necessária em ocasiões em que não me encontro em mim. De exato, apologias deixadas de lado e outras utópicas revelações sobre as invisíveis teias que controlam o mundo. Feridas abertas pelo tempo e a vontade de cura instantânea.

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3 Responses to “O castelo dos destinos”


  1. 1 adificilarte julho 24, 2009 às 11:04 am

    Perfeito.
    Adoro mesmo o que você escreve.
    E obrigada pela visita.
    😉
    bjus

    Dri.

  2. 2 jhn. agosto 4, 2009 às 1:11 am

    cara.. q massa !! o seu jeito de lidar com as palavras .. e o modo como trata cada acontecido, versando-o.. eh totalmente incrível !! parabens ..

  3. 3 Líria Jade agosto 13, 2009 às 1:28 am

    Olá, gostaria de te parabenizar pelo blog. Passei por aqui para saber mais sobre Caio Fernando Abreu, um amigo havia me indicado esse autor e pesquisei no google… Assim cheguei ao seu blog, fiquei curiosa a respeito dos seus textos. Comecei a ler e confesso que estou lendo sem parar. Este seu último texto tem um lirismo incrível. Você tem uma maneira muito poética de escrever, gostei. É impressionante como essas indefinições não nos deixam nos aprofundar no que somos, queremos, sentimos, vemos… E como essa premeditação, essa premonição do que virá acaba nos tomando o tempo necessário para nos conhecermos, tirarmos as máscaras e vivermos uma história mais profunda, gostei muito do seu texto. E mesmo assim ficam coisas que nos marcam… Parabéns.

    L.J


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