Arquivo para agosto \25\UTC 2009

Ecos de um mundo em silêncio

Tateávamos no escuro os nossos reflexos repetidos na alma do outro. A falta de palavras nos fazia companhia, da mesma forma que nossos corpos se enlaçavam no frio da madrugada interminável. A paz roubada tão longe de uma redenção sem fim. Dias passavam e o vazio consumia as vistas cansadas de cenas repetidas dos corriqueiros passos no escuro. Fechava os olhos para não encarar as verdades expostas em sua boca velada. Esquivava de seus olhos suplicantes por repostas, que não poderia explicar com palavra vazias, repetidas, sem embasamento teórico… Frios vocábulos, inúteis passagens.

Procuro em meus restos algo que nunca esteve presente em mim. A vontade de conquistar o mundo pelas portas dos fundos deixou-me vícios indecifráveis: partida e despedia; o regresso antes mesmo da viagem; o sonho derretido em horas incertas. Pego-me a reler devaneios imprecisos enquanto acompanho as cenas repetidas dos próximos acontecimentos. Sei que caminhará dias em dúvidas; na sequência de diferentes naipes, apostará ambiciosamente contra a sorte comum. Depois, pedirá a conta e abandonará o salão principal em salto alto e ar esnobe. Na manhã do outro dia, se despedirá dos comensais.

Persigo seu rosto sobre escombros da fragmentada memória: uma noite e tudo volta ao mar insólito das sensações imperfeitas. Esqueço as horas mortas, os segundos sagrados que fecho os olhos e tento dormir novamente. Um pouco de ar, por favor! Em poucas palavras murmuradas, um silêncio ensurdecedor estrangulava o resto dos sonhos esquecidos, que nunca mais voltarão. Pesa sobre a penteadeira um retrato em cores apagadas a modurar seu sorisso irônico. Como a uma película, águas calmas em um dia de sol contrastavam a taciturnidade de seus olhos cândidos e desesperados. Você gargalhava em momentos de desespero, repetia sem fé ou esperanças frases rotas e cantava para esquecer as dores. Sorria na hora errada no inútil tentativa de disfarçar o desespero repentino. Unhas roídas e esmalte borrado. Seguia. Eu fiquei na contramão dos acontecimentos que nos uniam. Parti, para nunca mais me reencontrar.

As luzes da cidade demarcam as ruas sem saídas que teimosamente tentei desafinar o coro dos contentes. O paradoxo das despedidas intermináveis. O tempo deixou marcas em nossos corpos, como as quentes armas disfarçadas da alegria mediada. Escrevo nas paredes do mundo com letras garrafais e em poucas palavras o silêncio anacrônico que atravessamos nos últimos tempos. Sobram vozes, mas falta conteúdo. O infinito abre seus braços perversos com vista para o mar.


agosto 2009
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