Arquivo de outubro \26\UTC 2009

Nem todos os sonhos se desmancham no ar

Leve-me para onde seus olhos possam me proteger deste amargo e escuro desfiladeiro que se aproxima de meus passos cansados e desamparados de proteção. Por algum motivo, insisto em reinventar histórias adormecidas sobre o travesseiro. Algo encheu meu coração de sentimentos incompletos; pediram-me para não chorar: foi inevitável. O mês voando e a velha chama a queimar a derme novamente.

Agora que envelheço anos a cada dia, procuro a paz roubada reinante em minhas fantasias mais secretas. Onde esteve o tempo que deixava minhas feridas expostas ao sol? Crianças, acordem antes que seus sonhos se tornem tão breve quanto uma chuva de verão. Sigam seus erros a provocar tempestades por causas justas. Não se prendam as horas mortas, que enferrujam as engrenagens de nossos corações a cada gesto bom.

Perdi-me em curvas provocadas pelo meu insano medo de errar. Voltas incompletas e repetições em mesmo tom sobre as poucas migalhas envelhecidas em cima da mesa. Na sala de jantar, estranhos conversam banalidades. Eu, com o correr dos olhos, sigo a movimentação de fora. Um dia será apenas um breve relato. Um corte profundo na carne. Arcos de fogo cruzam o céu em chamas. Em poucos instantes, o cinza tornou-se vivo em mim. Com minhas flechas e relâmpagos, posso ver como serei no futuro. O desenho que se cerra em minhas vistas não é nada animador.

Passos incertos e a improvável certeza de um novo amanhecer. Lúcido, sei que não há nenhuma saída para estes labirintos imaginários e regressos para o lar depois da madrugada morta. Então, deixo meu cabelo crescer e tento esquecer tudo que aprendemos a nos acostumar sem duvidar. Nem todos os sonhos se perdem no ar. Conforme a madrugada se aproxima do final, ouço sua voz a entoar uma sutil melodia dourada. É a canção que não me acompanhará na manhã seguinte. Nada mais está escondido diante de suas retinas.

Foi pelos ares!

Levo branco o seu sorriso tatuado em pontos escuros da cidade: entre o cinza opaco de construções incompletas e anúncios iluminados de arranha-céus, escuto acordes dissonantes nas alamedas das quais fui mais feliz. Ouço-te cantar uma sutil melodia. Durma enquanto o dia desperta para as rotineiras repetições de palavras e gestos. Garota, você conseguirá carregar este fardo por tanto tempo assim?

Em suas palavras, deixava transparecer algumas dúvidas que pairavam no ar. Como as rápidas cenas de um filme sem nexo, fragmentados sentimentos se desenham no quadro branco que tentava compor. Nesta tela triste, remotos relatos pincelavam a paisagem e o chão forrado de folhas decaídas da última estação. Não tenha medo, o vento sempre sopra com mais força para os que não são acostumados com o Inverno. Então, deixe a brisa molhar seus olhos e nos fazer acreditar que o sol voltará em breve. As árvores eram mais altas quanto tínhamos cinco anos. Vem iluminar o deserto que nos cerca enquanto o dia se extingue.

Eu nunca te dei meus sonhos mais perturbadores. No meio das celebrações tolas, apenas convidei para adentrar em meus devaneios. Sobre os ombros, pesa a ausência de algo ainda disforme, uma espécie de reconciliação com os pecados do passado. Eterno caminho das águas. Acompanhava o amanhecer de forma bucólica, como se fosse a primeira vez que via os raios solares surgindo para o novo dia. Sigo, mudo, pelos percalços deixados pela excessiva timidez. O silêncio de minha retórica guarda o significado de uma tormenta vindoura. Eu desabei.

No momento em que o mundo explode em milhares de manifestações desencontradas e eu apenas penso em seu sorriso como uma maneira de reencontrar o arco-íris antes que o dia termine. É uma dor que não se esconde com falsas demonstrações de aparente tranquilidade. Como uma espécie de despedida; a arte de desprender-se das falsas demonstrações de carinho repentino. Procuro seus olhos em uma forma de recriar, em doces lembranças, novas sensações. Certa vez, houve um caminho que nos levaria para casa. O que, afinal, foi feito com isso tudo? Foi pelos ares!

Insisto em escrever relatos em voltas e labirintos incompletos. A poesia não passa de uma forma de se exonerar aos poucos: antes do derradeiro pôr-do-sol, sei que vou reler por várias vezes a sua risada. É um conforto momentâneo diante de tanta imagem que explode. Para me abrigar da chuva ácida, quero me esconder por detrás de suas retinas, em um ponto em que possa ver o mundo cada vez menor. Uma pergunta martela minha cabeça: você estará em meus sonhos esta noite?

O túnel

Insistentemente o telefone toca. Atendo. Do outro lado da linha, uma voz sombriamente conhecida me diz entre soluço: alô!
Ainda atônito, olho para o rádio-relógio a me informar que ainda estamos no meio da madrugada fria de inverno. Respondo: oi!

– Tenho pensado em você de uma forma que não se limita ao que sou.

Ainda sem saber com quem estava a falar, contesto com frases soltas, como a me reencontrar depois de uma imensa tempestade vindoura.

Do outro lado da linha, aquela voz sombria e familiar relatava acontecimentos até então adormecidos.

– Estive fora uns dias. Estava fora de mim, de ti, de tudo que fizemos juntos. Do nada que nos separa. Onde esteve quando me perdi de você?

Ela me perguntava justamente o que eu procurei entender neste tempo todo. Longos dias frios e maquinais, a repetir exaustivamente os mesmos percursos. Cada dia era fatal.

– Não sei o porquê de você me diz isso – respondo. Justamente agora que não há mais a indagar por estas respostas. Neste tempo de exílio que me mantive longe de suas retinas, aprendi a representar uma felicidade que não tenho. Sorria para os outros como a alimentar uma alegria que nunca esteve estampada em meu sorriso lacônico. Sorria para disfarças as cicatrizes deixadas com a sua ida ou o seu regresso. Agora, você …

Ouço-a fungar, como a amparar uma lágrima que teima em rolar nas horas mais impróprias. Ela emenda:

– Nunca se arrependeu de algo que fez? Ou ainda continua com a sua soberba mania de achar que seus sentimentos são mais valiosos que os dos outros? – disse, aos berros, na remota tentativa de esconder a voz embargada pelas lágrimas.

Engulo a seco uma resposta atravessada, que normalmente falaria nestas ocasiões. Calo-me, em uma auto-análise das parvas insensatas atitudes que tive até então. Ela continua, agora com a voz aveludada e doce.

– Senti-me perdida, da mesma forma que se sentia e nunca o entendi. Agora compreendo a confusão que eram seus passos tortos. Por que se calava quando precisava se abrir? Por que relatava suas mágoas a quem nunca teve a sensatez de entender os labirintos de sua alma? Por que, afinal, nunca confiou em meus conselhos? Sempre tão auto-suficiente em seu egoísmo cético, que se esqueceu de ajudar a quem mais precisa: você.

Suspiro… queria encerrar aquela conversa insana e inoportuna. Falo:

– Está bêbada? Ligar a esta hora e para nada falar, a não ser para me derrubar em um mar comum que eu mesmo me joguei… O que quer afinal? Minha cabeça como sobremesa? Entre, sirva-se à vontade. Hoje o prato da casa é a minha dor. Experimente.

– Ironia sempre foi a sua arma mais apaixonante. Somente os inteligentes conseguem a usar de uma forma tênue, quase poética. Você é um dos poucos que me fez enxergar isso.

– Não exagere – como um tolo, respondo a única frase que me vem à mente, no instante que tento afastar o sono. Desperto para a vida!

Ela diz:

– Não estou bêbada, embora tenha motivo para me embriagar todos os dias, principalmente ao cair da noite. Nessas horas, a dor é mais forte e nos entregamos aos vícios. Da mesma forma que você fazia e eu não o compreendia. Para falar a verdade, eu nunca o compreendo. Talvez seja esse o grande mistério: o labirinto multicolor que me envolvi a ti. Sem nunca o entender plenamente, mergulhava de cabeça para saborear a queda livre até seus passos contraditórios. Eu acompanhava de uma janela com vistas ao mar o seu suicídio perante a vida banal… Renunciava-se sempre contra o senso-comum.

Silêncio.

Por um breve instante, vem à mente o momento de desespero que, sem alternativa, retirei meu cinto e tentei me enforcar. Na cena seguinte, vejo minha mãe ajoelhada e com o terço nas mãos, pedindo proteção aos seus santos católicos pela vida de seu filho errante. Ouço velhos cânticos, como sinos a badalar em minha cabeça e a me mostrar as iniquidades cometidas no passado. Passos incertos e uma vontade de deixar os caminhos livres fluírem as próximas jogadas.

– Andei em linhas tortas, quase em círculos concêntricos – respondo. Quando mais precisei de ti, não que devemos projetar nos outros as passagens mais amargar, você disse que precisava cuidar sozinha de seus passos. Passei por medos, momentos de inseguranças, solidão em ponto de dor. Você apenas sorriu e disse que precisava devorar o mundo. Nesse instante, o mundo todo desabou em minha cabeça. Mesmo assim, aprendi a deixar a ferida aberta e seguir em frente. Acumulando dores, medos, solidões, desamparos e desesperanças em um único turbilhão. Para amenizar estes sentimentos confusos, afogava-me em vícios rasos: trabalho excessivo, álcool, solidão dos amigos, noites de insônia em meio à cidade em combustão. Você apenas ria, enquanto eu tropeçava pelo chão com uma garrafa de rum vazia.

Naquela altura, remeto-me a lágrimas de minha avó em um momento de despedida, um abraço antes de colocar o carro na estrada de volta à confusão e para a solidão das grandes metrópoles. Em cenas repetidas, me vejo voltando para casa, em busca de um abraço materno. Uma redenção longe de um final feliz.

– Eu sempre me entreguei a remotas tormentas, como um marujo frente ao mar. Desesperada diante do abismo que nos cercava cada vez mais e amedrontada com as correntes que nos arrastavam, saltei enquanto dava tempo. Confesso, foi o medo de te perder aos poucos que me fez arrancar esse sentimento de uma só vez. Dor instantânea e ensurdecedora, mas que um dia cessa. Ainda guardo cicatrizes profundas que, acredito, nunca irão se curar. Por que não me perdoa e faz cicatrizar as marcas que me fizeram ser o que hoje sou?

– Quando minhas feridas estavam expostas, jogou sal para arder na carne a dor que trazia. Fez-me envelhecer anos a cada dia que esteve distante. Hoje, trago marcas amargas no rosto, na boca, na alma. Não durmo em paz. Esqueci a áurea que deixar se apaixonar por uma música, um poema, um filme… Não me recordo do gosto do amor. Não a culpo, desculpo-te em mim. Mas um forte medo ainda cintila nos meus olhos quando me vejo frente ao que poderia ser chamado de felicidade. E por quê? Pergunto na minha mais insana ignorância: por não ter que repetir as cenas de alegria que compartilhamos em outro rosto, exceto ao seu.

Limitou-se a me ouvir. Com a boca velada, como a assistir, bestificada, uma ópera no Municipal. Em seus trajes de gala para aparecer pertencente de uma pequena elite burramente dominante a viver, socialmente, de aparentes demonstrações de suas insignificâncias intelectualidades. Boçal como a maioria dos comensais, sorria com uma taça de vinho em mãos, sabor que não soube apreciar. Continuei…

– Em seu egoísmo homérico, esqueceu-se de perguntar como seria o amanhã. Quis a liberdade, mas ela não é aceita de braços abertos e sem cobrar pelos préstimos feitos. Tem seu preço sujo e implacável. Cobra caro pelos passos distraídos dos desventurados. A coroa da liberdade está salpicada com o sangue, a lágrima e o suor dos que desafiaram suas ardilosas regras. No final, somos todos reféns de um sistema falho. Presos pela eterna sensação de sermos livres… assim na terra como no céu.

– Eu te procurei no vento, eu te procurei em outros rostos, outros portos, outras rotas, outras voltas. Reencontrei-te em mim num dia escuro e úmido, depois de uma sessão de cinema ordinário, naquele cubículo que sempre adorou. Eu detestava ir naquele antro de cinéfilos babacas, que nunca entendiam os filmes que assistiam. – disse-me.

Ainda com raiva no tom da voz, continuou:

– Reclamava de minhas inúteis vaidades, mas seus vícios burgueses como cafés, cinemas europeus, culinária sofisticada e vinhos caros não te fazem uma pessoa melhor. Apenas mais interessante e, para certas mulheres, quase irresistível. Esta mistura de quem precisa de atenção com a docilidade de suas palavras, seus acalantos e confusões te fazem mais belo que o realmente é.

– E para quê? Para que me ligar em um dia em que eu não estou mais em mim. Quando se foi, senti-me sozinho e sem tem com quem confiar. Desacreditei do que seria capaz. Mesmo assim, a cada dia sorria para os vizinhos apenas para mostrar a eles que tudo estava bem. Para esconder meu rosto triste, recolhi-me em abraços momentâneos e desesperados. Encarei a morte na sua face mais cruel. Perdi cabelos, mas não a teimosia.

– Eu não sei viver, convivendo com a sua falta. Tenho pressa do novo, o imediato instante que seus passos seguiam em direção os meus sonhos mais secretos. Sua boca a relatar seus estranhos medos e seu toque em meu cabelo para me falar que tudo ficariam bem, quando eu me desesperava. Calado, engolia a seco as mágoas que habitavam seu espírito. Eu sempre me senti num labirinto imaginário, que me devorava aos poucos, nos raros momentos ao seu lado – ela disse.

– É fácil recontar o passado, pois sempre recriamos pela nossa ótica. Não vivíamos em labirintos. Andávamos em linha reta, cada um em um túnel com caminhos distintos. Nos encontramos no meio do trajeto. Breve momento eterno. Foi…

“Preciso desligar”, ela disse. O sombrio som de sua voz deu espaço ao tom da linha telefônica. Minha vontade era arremessar o aparelho contra a parede. Limitei-me a desligá-lo. Tentei reencontrar o sono, da mesma forma que, no passado, me esperancei em seguir nos trilhos certos instantes depois que ela se foi. Ecoava na cabeça suas frases rotas e o mantra que recitei apenas para me afastar dos perigos que me rodeiam por imaginá-la novamente em mim. Viver era perigoso. A cada curva, uma nova aventura nesta escura estrada rumo ao desconhecido nada.


outubro 2009
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