Foi pelos ares!

Levo branco o seu sorriso tatuado em pontos escuros da cidade: entre o cinza opaco de construções incompletas e anúncios iluminados de arranha-céus, escuto acordes dissonantes nas alamedas das quais fui mais feliz. Ouço-te cantar uma sutil melodia. Durma enquanto o dia desperta para as rotineiras repetições de palavras e gestos. Garota, você conseguirá carregar este fardo por tanto tempo assim?

Em suas palavras, deixava transparecer algumas dúvidas que pairavam no ar. Como as rápidas cenas de um filme sem nexo, fragmentados sentimentos se desenham no quadro branco que tentava compor. Nesta tela triste, remotos relatos pincelavam a paisagem e o chão forrado de folhas decaídas da última estação. Não tenha medo, o vento sempre sopra com mais força para os que não são acostumados com o Inverno. Então, deixe a brisa molhar seus olhos e nos fazer acreditar que o sol voltará em breve. As árvores eram mais altas quanto tínhamos cinco anos. Vem iluminar o deserto que nos cerca enquanto o dia se extingue.

Eu nunca te dei meus sonhos mais perturbadores. No meio das celebrações tolas, apenas convidei para adentrar em meus devaneios. Sobre os ombros, pesa a ausência de algo ainda disforme, uma espécie de reconciliação com os pecados do passado. Eterno caminho das águas. Acompanhava o amanhecer de forma bucólica, como se fosse a primeira vez que via os raios solares surgindo para o novo dia. Sigo, mudo, pelos percalços deixados pela excessiva timidez. O silêncio de minha retórica guarda o significado de uma tormenta vindoura. Eu desabei.

No momento em que o mundo explode em milhares de manifestações desencontradas e eu apenas penso em seu sorriso como uma maneira de reencontrar o arco-íris antes que o dia termine. É uma dor que não se esconde com falsas demonstrações de aparente tranquilidade. Como uma espécie de despedida; a arte de desprender-se das falsas demonstrações de carinho repentino. Procuro seus olhos em uma forma de recriar, em doces lembranças, novas sensações. Certa vez, houve um caminho que nos levaria para casa. O que, afinal, foi feito com isso tudo? Foi pelos ares!

Insisto em escrever relatos em voltas e labirintos incompletos. A poesia não passa de uma forma de se exonerar aos poucos: antes do derradeiro pôr-do-sol, sei que vou reler por várias vezes a sua risada. É um conforto momentâneo diante de tanta imagem que explode. Para me abrigar da chuva ácida, quero me esconder por detrás de suas retinas, em um ponto em que possa ver o mundo cada vez menor. Uma pergunta martela minha cabeça: você estará em meus sonhos esta noite?

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1 Response to “Foi pelos ares!”


  1. 1 Tati outubro 14, 2009 às 1:01 am

    `Eu nunca te dei meus sonhos mais perturbadores. No meio das celebrações tolas, apenas convidei para adentrar em meus devaneios…`

    Maravilhoso, como o texto O Túnel!! E o livro, sai quando?


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