Arquivo para dezembro \04\UTC 2009

O legado

Partiu sem deixar rastros. Apenas um recado: em poucas linhas tortas, disse-me adeus e um abraço. Palavras parvas desprovidas de sentimentos e sensações decorridas. O derradeiro final antes mesmo do breve começo. Mudou a estação, mas em meus olhos algo perdeu o brilho. Talvez por ser um dia deserto ou apenas a saudade de qualquer coisa disforme. Sinto seu perfume em outros corpos como se tentasse, em vão, remontar um quebra-cabeça de paisagens que não vivemos. O sol nascerá amanhã? Quando acordo e não tenho seu sorriso aprumado enfeitando nas manhãs sombrias penso que algo sem conserto se partiu dentro de mim. Agora, seguimos em linhas opostas de volta para casa.

E você a me dizer que os sentimentos são mais valiosos que os gestos. Então, ainda acredita que o amor é tudo? Tudo bem, faça-me de tolo nas lerdas horas incertas das quais tento me reencontrar depois de uma tormenta. No final, suas boas intenções continuam a movimentar a roda-gigante que me mantém suspenso em sua gravidade. Ando passos incertos, rumo à confusão de seus olhos castanhos. Dias sem paz e folhas amareladas deixadas no travesseiro antes mesmo de abrir os olhos e ganhar mais um dia sem flores ou poesias. Sonhos coloridos foram deixados em um piscar de olhos, mesmo anteriormente de terem tempo suficiente para que fossem maturados. No local que deveria ritmar a compaixão, agora cicatriza uma lacuna interminável. O que faremos com tudo que ficou sobre os ombros cansados? Fingir que nada aconteceu e seguir em frente? Ou simplesmente culpar o desconhecido medo do outro? Como cegos, tateávamos no escuro que cultivamos com a nossa ausência. Dias incertos e a vontade de recomeçar antes de ser dada a largada do páreo principal.

Como um espelho ou mais uma manifestação de ironia, analisamos nossos maiores defeitos refletidos na face do outro. A palidez de suas retinas aflitas deixou-me marcas: sei que deves partir, mas peço que regresse antes o maremoto que se aproxima. Às vezes, pego distraído a pensar: por que sou assim? O único retorno que encontro é o silêncio assustador de quem sabe as respostas. De qual local caem as palavras? Na madrugada fria, um rosto desconhecido passa pelas minhas retinas carregando suas dores. Eu, passivo, apenas acompanho suas lágrimas ante ao fascínio do desespero. Calo, tentando controlar a minha loucura. Do que restou, ficou no ar um sorriso estampado de falsa alegria e a tentativa de rever a cor do céu em um dia de sol. A paz tão longe de um redenção. Amanheceu e nem notei que envelhecei anos a cada segundo sagrados sem seus abraços. Por que deixou sobre a mesa poucas palavras que em nada resumiu nossos dias confusos e desencontrados?

Carregamos cicatrizes deixadas pelo tempo. Cada marca era uma nova história. Você a me perguntar se ainda tinha medo do escuro. Fecho os olhos e segurando a sua mão finjo ter uma coragem que nunca tive. Embora esconda meus traumas mais sombrios, deixo aparente o temor à falta de luz. Mesmo tendo crescido um pouco, ainda carrego certa magia de criança. Um sorriso inocente esconde minha timidez, mas contesta a falta de maturidade que os anos não me trouxeram. Penso excessivamente em seu relato inacabado, transcrito com a mão trêmula e em poucas palavras desencontradas: amor, solidão, desespero, o mundo caindo sobre os pés cansados. Voltas completas; volte voando. Bem-vinda à vida real!

Em sua confusão, dizia que eu não rimava dor com amor. Meus passos me mostravam o oposto. Fazia de tormentas uma forma de manifestação de ternura. E de cada acalanto, um sofrimento sem tamanho. Há dias que tudo permanece em paz; em outros, faço da calmaria um campo de batalhas. Cansou-se dos temporais que eu provocava. Foi-se, pois deste lado do beco, só ter piedade não vale a pena. A voz que ecoa não é mais a mesma de quem grita. Repete seu berro em travessas escuras da cidade cinza. Valei-me de um amparo. Neste segundo, seu abraço faz-me necessário, no mesmo instante que seus olhos confusos trouxeram calmaria aos meus passos distraídos ao acaso em combustão. Metade de mim se foi quando fechou a porta e seguiu sem olhar para trás. O que restou, guia-se moribundo pelos percalços das alamedas mal iluminadas das falsas demonstrações de alegrias.

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