Arquivo de janeiro \06\UTC 2010

Vinte e oito

Avanço à noite fria com versos que não se completam; vocábulos que não se encaixam. Em poucas palavras, perco-me nos mais horripilantes desfiladeiros criados pelos meus delírios. Confuso como as madrugadas intermináveis de solidão, entrego-me em histórias incompletas e lágrimas que escorrem facilmente nas ocasiões mais impróprias. Como se tudo devesse ter um ponto inicial e final: breve relato, triste fim. Com a mesma necessidade que vejo em aperfeiçoar meus passos errantes, busco inspiração para concluir os termos gastos em rimas velhas. Pego-me a pensar quão breve é a vida. Leve como pluma, efêmero quanto a um sopro de vento. Passa pelos olhos cansados e pela memória rarefeita da pós-modernidade que nos cobra prontidão, precisão, agilidade, rapidez, sem atrasos, no menor tempo possível, ao custo mais baixo e sem falhas. O vento que leva a vida passa tão veloz que o trem da saudade se rompe sem deixar marcas. Feridas profundas.

A tempestade desta noite quase acabou com tudo em nossa volta e sem deixar vestígios. Em meio ao furacão, pude vê-la caminhando sem medo, cabelos ao vento, em busca de algo que nunca compreendi muito bem. Porém, era a minha única e incessante procura. Será que você sabe perdoar meus gestos mais imprudentes em direção ao desconhecido medo? O tempo ruim passou e o dia quase amanheceu em paz nos lábios cansados que sorriram para esconder a lágrima perdida. Não sei quais as armas que eu usei para me ferir enquanto passeava distraída em meus sentimentos confusos. Por outro lado, compreendo o jogo ilógico que procurou se esconder do temporal que te esperava em meu abraço. Será que saberá redimir o amor que nos atingiu sem coerência? Foram tantas as feridas não cicatrizadas, mas saímos ilesos na madrugada cinza. O vento forte acalmou e quase conseguimos dormir em paz.

Tenaz quanto um menino com vontade de voar, encontro fragmentos de relatos esquecidos com o tempo em uma ligação telefônica banal. Uma voz solitária expõe a nuvem calma de sua passagem. Recordo-me de uma paz reinante e a calmaria de sua oratória pedindo para não ter pressa no conturbado centro caótico das desilusões perdidas. Breve como passarinho que foge de seu ninho em busca do paraíso do outro lado da estrada, seguiu pelos desfiladeiros esquecidos das almas consumidas. Deste lado do muro, o jogo é árduo e a oração não roga a raiva exposta. Novenas não pagam aos donos de pegue-e-pagues espalhados em cada esquina. O olho seco cega a inexata precisão das ordens estabelecidas pelas regras do consumo.

Levo a vida a pisar em campos minados. Relato em sonhos costurados meus medos expostos numa metalinguagem inexplicável. Pesadelos mutilados, acordo ensopado de um suor desesperador das imagens registradas em minha retina enquanto os olhos fechados buscavam o mundo multicolor do torpor. Cenários de papel ilustram a jornada que seguem os destemidos perante a existência inexata. Sei que deve partir antes do amanhecer, mas fique um pouco mais, se agarre ao meu peito despido e diga que não pode mais viver sem a minha confusão incontrolada. Depois, vá, junte tudo que puder levar e se esconda do meu discurso contra a vida. Vou estender a mesa vazia para os comensais famintos de relatos intermináveis e de conturbadas menções sem nexo, sem paz. As pessoas que correm apressadas pelas vias não se importam se choro ou se sofro. Apenas seguem, abafando as mágoas contidas em suas almas.

Certa manhã acordei com pensamentos imperfeitos. Ao meu lado, rascunho de um projeto se arrasta há anos sem fim. A saudade navega em águas mansas a remontar o que o tempo fez esquecer. Marujos ao mar raso diante da tempestade. Pede-me para me embalar em uma dança macabra: alguns balançam os corpos tímidos para esquecer; outros, embriagados, para lembrar seus raros momentos de glória. Segue longas milhas, mas não se perca no instante que deveras voltar para o lar. Os ventos mudam a direção, mas meus olhos afoitos teimam em registrar as cenas repetidas do passado sem paz. Onde estive quando mais precisou de meu ombro amigo e conselhos inexatos, que nem mesmo eu tenho coragem de os colocar em prática?

Luzes de mercúrio iluminam a face escura da madrugada. Do outro lado do mundo, sequer ouve meus suspiros desesperados. Você dizia que deveria libertar os prisioneiros em minha mente. Eu sorria, como o único ato desesperado de quando não encontrava alguma forma de responder. Corpos entregues ao momento esmo; nos dias seguintes, silêncio opaco. Seu retrato esquecido me faz lembrar o momento de sua partida. Volte e retome tudo que te faz falta nestes anos de exílio imaginário. Toque-me e prometa-me que não se afastará de meus braços cansados e medrosos perante o desfiladeiro que aos poucos me aproximo. Abrace-me e faça-me uma parte viva em ti; o que eu nunca fui e talvez nunca serei.


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