Arquivo de fevereiro \02\UTC 2010

Tudo perdeu o gosto

A música que ouvia há alguns meses não faz mais o menor sentido. São duas horas da manhã de uma madrugada cinza. Vejo vultos nos corredores. Carros apressados que não partem ou chegam a lugar nenhum. Uma dose ordinária de álcool vulgar para não me lembrar a dor que não me esquece. Peito aberto e ardendo; o frio é intenso, a magoa, fatal. Estou preste a cair do décimo andar. A queda é longa; a dor surda, inevitável. Imagino meu corpo estirado entre os transeuntes em suas pressas rotineiras. Penso em te ligar. Desisto no segundo seguinte. Sinto a ferrugem que alimenta a solidão a engasgar a garganta rouca de palavras insólitas. Sua voz ecoa em minha cabeça, dizendo que eu preciso de um banho e uma noite de sono. Enquanto a cidade devora as almas em cicatrizes escondidas nas confusões urbanas, estou à beira de um abismo prestes a despencar. Desabar ou deixar-se cair é só mais um passo. Vou quebrar os móveis, destruir a casa, acordar os vizinhos, discar seu número e falar que preciso dormir em seus braços. Depois, despedir-me da vida e deixar que um transe profundo me leve de volta ao começo. Bem vinda ao paraíso!

Eu vou me embriagar em suas retinas apenas para poder deixar partir, sem rumo, a transparência que sua alma reflete em meus passos contraditórios. Ouço alguns acordes dissonantes no vento que varre o mundo para longe das viciadas curvas de seu corpo. Vá, junte tudo o que você puder trocar: seus maços de cigarros, suas bijuterias ordinárias, suas malas recheadas de roupas e perfumes banais. O mundo é muito maior que seu quarto e seus amigos que cheiram ao falso brilho da juventude. Leve meus medos e pecados para longe; distante de minhas retinas cansadas… Seria acaso ou sorte? Um leão está solto nas galerias escuras da cidade. Viciados com as imagens que explodem, todos passam despercebidos pela fera. Não há fuga nem destino, apenas paisagens que passam ao esmo. Desatinos costumeiros e desencorajados dos que teimam seguir adiante sobre o vendaval. Os pensamentos perdidos não são páreos para atravessar o longo corredor da solidão e a dependência.

Olho as luzes que dançam sinfonicamente em minha frente enquanto me reinvento num silêncio sem fim. Você não entende meus berros desesperados quando grito; não me entende nos instantes que me calo. O tempo escoou pelos dedos cansados da alegria dispersa. Há muitos anos desisti de procurar a felicidade escondida em sua derme obscura. Deixo a rima no ar: sem amor, sem lágrimas, sem mágoas, sem nada. O resto da paixão que ficou vai servir para nós? Abandono todos os vícios sobre a mesa vazia. O gosto amargo da loucura tortura meus olhos doidos por ti. Madrugada longa. Na manhã seguinte, serei devorado pela angustia de um sonho ruim. Perturbador. Desacostumei a olhar nos lados, apenas para não perder a direção. Talvez o inverno demore mais para passar este ano.

Entre seus labirintos, apenas quis que me levasse para distante deste temporal. Agora, claramente, vejo que não passou de um devaneio em um momento de fragilidade. Suas palavras sutis e gestos carinhosos me prenderam em meu próprio destino. Dentro do peito, dorme um menino que se perdeu por não saber se desculpar. A paz latente tão próxima de um ponto de conversão. Nada restou sobre a empoeirada penteadeira: nem os vícios intrigantes, nem os relatos agonizantes, tampouco os frascos de comprimidos para fugir da realidade fria que nos cerca. Alma vazia, deixei tudo espalhado no chão do quarto para que pudesse perder a memória como quem esquece um papel importante. Em troca, de braços abertos, a solidão ronda meus passos que se abrem diante do firmamento sem luz ou esperança de uma clarividência. Só espero a hora que o sangue estanque, o dia amanheça e eu possa dormir enquanto o mundo explode em milhões de manifestações desencontradas. Estou no meio da estrada, fugindo de meus piores erros que vejo estampados em cores vivas em seu sorriso.


fevereiro 2010
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