Céu de baunilha

Seus suspiros confusos e eu a desejar o fim do mundo nas próximas horas para poder deitar em seus braços cândidos. Abraços sinceros de quem está cansada de buscar uma resposta imediata às dores que lhe tiram a calma nos momentos mais impróprios do dia. Passam-se semanas e o ritmo natural das horas mortas causa-te desespero imediato. Nada sobre a mesa poderá te trazer conforto enquanto a alma está vazia de afeto. Um fardo indescritível pesa em suas costas marcadas pelas dores de gerações passadas. Cinco da manhã: teimosas lágrimas insistem em remontar a dor que não sai de sua cabeça. As paredes giram em sinfonia ao redor de seus torturantes relatos tatuados na derme. Um dia tudo esta tormenta passará em nós? Pesará em nós? Isto bastará para te salvar do apuro que segue em linha reta? Pactos marcados pelos erros e anseios.

As palavras excedem quando a dor fala mais alto ao coração. Você acreditaria se ele te disser que poderia andar na lua? Certas palavras doem mais na pessoa que as falam do que em quem as ouvem. Tudo faz sentido no silêncio do quarto, no vazio da noite, na última gota do copo. Em pedaços, seu coração ainda batia com a teimosa esperança descompassada de reinventar o futuro tardio. Olhos pintados para dissimular a solidão que restava e com um sorriso falso nos lábios artificialmente vermelhos esperava a volta dos velhos tempos que a paz reinava seus passos confusos. Certa vez, você me disse que não era possível ser feliz o tempo todo. Para evitar a dor latente, deveríamos enganar a nossa consciência. A questão é em que ponto nos tornamos reféns desta mentira? Você acreditaria nas frases de quem, para se mantém em paz, se engana? Como quem pede desculpas aos mais velhos, sorriu e disse-me que queria ser livre. Nunca encontrou a felicidade.

Na tentativa de se manter ébria, entregava-se ao cinema como quem confia ao carrasco: três, quatro sessões seguidas. Depois partia, achando que a vida era como o roteiro do filme de amor: o ápice na hora certa, a orquestra aumentando o volume, o zoom da lente, o beijo do mocinho… Ledo engano dos contentes. A vida segue reto entre tortos desfiladeiros de sentimentos insólitos e sensações imperfeitas. Adeus, aos comensais déspotas e a boa educação ensinada. Adeus ao que não presta mais às retinas cansadas do corriqueiro medo ao acaso. Até breve, desejado com a voz engasgada dos que ainda acreditam em algo maior que os passos desesperados. Segue em círculos concêntrico até se encontrar totalmente perdido. Um drinque antes da despedida; abraços e beijos tardios.

Com seu charme enigmático, costumava me dizer que o doce não existiria se o amargo deixasse de ser sentido em nossas línguas cansadas. Suas palavras duras sussurradas em voz de veludo rasgavam meu coração em mil pedaços. Muitas destas porções nunca mais foram cicatrizadas de seu golpe certeiro. A infância se foi, mas não chores; o sopro da vida continua a ter conduzir por percalços inimagináveis. Vá a busca de seu sonho dourado que repousa num céu de baunilha projetado pelas suas retinas.

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2 Responses to “Céu de baunilha”


  1. 1 Marii março 11, 2010 às 11:55 pm

    Nossa, eu já tava na “bad” hoje, fiquei mais ainda (eu quis fazer um elogio haha).

    Queria ter essa sua sensibilidade. Belo texto Edu. bjinho.

  2. 2 Líria março 18, 2010 às 2:48 am

    Nossa, adorei seu texto… Isso que você diz sobre algumas palavras doerem mais em quem diz do que em quem ouve, pra mim é bom verdade… Certas coisas que eu faço parecem doerem mais em mim do que na outra pessoa… Isso meio que se torna uma sinfonia de torturantes relatos, como vc disse aí no início…
    Continuo adorando seus textos.
    Té mais.


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