Meus fantasmas e eu

Anotado em um canto qualquer de alguns rascunhos perdidos, encontro uma frase de Hemingway que te dizia quando algo de ruim me acontecia. Sua letra trêmula, de quem registra a inspiração com pressa para não perdê-la, trouxe um pouco de alento aos dias confusos que atravesso. “O mundo quebra a cada um deles e eles ficam mais fortes nos lugares quebrados. Mas aos que não se deixam quebrar, o mundo mata-os. Mata os muito bons, os muito meigos, os muito bravos – imparcialmente”… Nunca soube em qual categoria me encaixava: se eu estava entre os que não se deixavam quebrar ou os meigos que são soterrados pelos sentimentos contraditórios e julgados pelos olhos atravessados dos que passam pelas avenidas apressados. Seu sorriso enigmático – seja por piedade ou por falta de inspiração maior – costumava conturbar-me. Talvez por acaso, talvez por insistência, você me dizia que um poeta não se faz só de versos. Eu respondia que conhecia diversos poetas que nunca escreveram uma rima sequer.

Você se foi. No local em que costumava repousar um vazo com flores, poemas e seu porta-retrato, jaz agora o vazio das palavras mortas e o silêncio abismal da solidão de outrora. O ranger das palavras incompletas. A sua falta é uma rima incerta que não encontro letras para encaixar os reversos soltos pelo sombrio ar. Em versos perdidos, suas anotações esquecidas na gaveta da penteadeira deixaram-me ambíguo entre cantos e recantos. Depois de certa idade, perde-se a esperança de que a vida seja justa. Restam os sonhos; mas devaneios não alimentam a alma em ebulição. Vocábulos duros em nuances angelicais e o mundo eclodindo em poemas desconexos… fragmentos de frases, silêncios opacos em milhões de demonstrações. Seu sorriso voou pelos cantos esquecidos da memória rarefeita. Usou contra meus passos errôneos as palavras que costumava utilizar a quem me atacasse. Arma letal para o conturbado pensamento. O que era saudade transformou-se em um dor sem fim.

São movimentos em que não posso mais controlar. Uma falha, uma palavra errada: nada, nada, nada basta; quase nada. Eu nem suporto do jeito em que fui esquecido nos cantos vazios, nos copos esvaziados, nas esquecidas movimentações dos ponteiros. O tempo morto e já não ecoam mais em minha cabeça suas frases sussurradas. O mundo e um adeus. Da maior importância? Tudo começou com você perguntando meu signo. Eu disse: sagitário, câncer, áries, touro, gêmeos ou escorpião: o que importa? Somos todos carentes nestas benditas noites tropicais. Na verdade, escondi minha constelação zodiacal. Viu em meus olhos que eu era de peixes. Mesmo assim, sorriu. Retribui. Foi o fim derradeiro. O apocalipse das paixões devastadoras e efêmeras. Um adeus e nada mais. Um pequeno momento, uma coisa assim, algo sem nexo, sem chama, sem vida e nem sinal.

Ouço de longe o gosto de lágrimas em seu rosto na madrugada em que a insônia fez-me companhia nas horas sem fim. Passado meu medo, consigo mascarar minha dor: agora, acho que já sei sofrer. Suas anotações remontam em minha cabeça um quebra-cabeça sem fim. Uma espécie de recomeço constante. Sísifo em seu labor. Preso em areias de uma ampulheta, somos soterrados pelas mágoas alimentadas… o tempo parou enquanto os dias passavam diante de nossos olhos cansados de lágrimas. Como se a vida fosse coroada de finais felizes. Sempre quis ver-te sorrir, agora que estás distante, vejo em câmera lenta os melhores momentos que vivemos. Quantas vezes tentei falar, mas parece que estamos surdos diante das imagens que explodem em nossas vistas anestesiadas pelas costumeiras repetições.

Entre um tango triste e um gole na taça de vinho, remonto seus derradeiros passos. Jogo em versos sombrios tudo o que me machuca. Quem não sente o drama de ser assim tão envolvente: olho no olho, dente no dente. Eu vejo o Arpoador arrebentando o sol nascente. Nunca segui em linha reta, tampouco parar a tempestade que se virá… deixo o barco seguir a maré, mesmo quando o precipício se aproxima. Nestas horas, sinto uma incontrolável vontade de permanecer vivo. Noutras, não faço tanta questão.

Depois da confusão de fora, suas parcas e trêmulas linhas, anotadas das palavras impróprias que eu as expurgava contra o vento brando, trouxeram-me um alento adormecido. Abraça-me forte com a minha poesia pequena esquecida. Rodopiaremos durante a madrugada fria. Para os muito bons, meigos e bravos soterrados por não de deixarem quebrar, o mundo os findam pelas suas próprias virtudes submergidas. Independente dos corações puros, após a hecatombe dos ternos, os astros continuaram em seus cursos naturais inalterados.

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