Arquivo de maio \04\UTC 2010

O tempo e suas marcas

Sinto-me vazio. Não é fácil preencher uma alma imperfeita com sentimentos que deveriam durar para sempre. Nada é eterno diante da intensidade de seus olhos. Mesmo assim, insisto em relatos intermináveis e em frases sem nexos, apenas para tentar te impressionar com a minha literatura barata. Gestos vazios e utópicos para reencontrar o pote de ouro no final do arco-íris. A cada passo adiante, o precipício se aproxima ferozmente. Eu cai.

Quando mal, o que era sempre, costumava me consolar com palavras duras. Dançavam em minhas retinas suas expressões amargas sobre a vida cotidiana e a solidão das metrópoles. Seu sorriso enfeitava até mesmo o cinza concreto de suas frases. Sentia-me sozinho entre minha parca dor e os labirintos que criava para me distrair. Jogava-me em histórias absurdas que eu já sabia o final. Morto, dilacerado, tentava reerguer a cabeça e me jogar, como quem se precipita à lança, numa outra desaventura. Cada história era o final derradeiro.

Depois de uma certa idade, a maioria das pessoas passa a não acreditar mais em poemas, igualdade, fraternidade ou o no amor. Levo comigo estes lemas batidos dos corações ainda pulsantes de jovens apaixonados e temerosos diante do mar que se segue. Preso na baleia, seria tão mais fácil. O que pouco me tranquiliza, é saber que tudo existe por uma grande exatidão. Esta precisão absoluta cega as retinas cansadas a ponto de não enxergar os pequenos milagres que movem as roldanas capazes de nos manter suspensos no espaço. E eu flutuava próximo à sua gravidade… o tempo e suas marcas.

Tenho medo da barra pesar e despedir-me da vida pelas portas dos fundos. Penso nas dores que poderei deixar: meu egocentrismo é tão egoísta que me preocupo apenas com quem me rodeia. No ápice da dor, dizem-me que a vida vale a pena e o ponto de equilíbrio encontra-se num local qualquer em mim. Nem consigo me encontrar no meio do entulho deixado sobre os restos de sentimentos desconexos. Quero a paz reinante de seu sorriso puro. Deveria ter chorado a dor profunda de ter perdido seus passos. Tristes relatos em torno das horas mortas.

Lentamente, desce-se a luz e a magia encanta-nos. Até os mais céticos, desprendem-se de suas utopias perdidas e encantam-se com o cenário ilusórios descritos nos cantos sombrios do palco da vida. Num breve suspiro, as cortinas se fecham e o espetáculo reaparece diante das faces boquiabertas. A tinta desbotada que as lágrimas fizeram cair de suas pálpebras deixou-me confuso. O mesmo tempo que quero amparar suas dores, sou impedido pela soberba forma que reage aos sentimentos puros. Amanhã, o silêncio de minhas frases repetidas ecoará o nada que nos resta. Sonhos desfeitos ao abrir os olhos para o novo dia cinza. Sua falta tira um pedaço de mim.


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