Antes do sol nascer

Em meio aos cacos deixados sobre a pia imunda, tentei procurar aquilo que ninguém jamais teve coragem. Juntei fragmentos de utopias esquecidas e versos escritos ao acaso, que, por descaso, deixei em cima das roupas sujas. O amor distante a brilhar em nossos olhos a ponto de nos deixar com medo de voar. Disse-me, a maior dor que passou foi perder a inocência: eu também sei, o mundo é cruel e não foi feito para nós. Ainda busco a pureza em cada gesto perdido, a cada palavra não dita. No silêncio é que encontramos nossa melhor retórica. Seus olhos me mostram que está se despedindo da vida. Mesmo assim, você é tão especial. Não pertencemos a este lugar.

Como quem pedia desculpas pelos atos a serem cometidos, sussurrou em meu ouvido aquilo que me martelava a cabeça: escrever é mais difícil que morrer. Eu me suicidava a cada linha torta. E caminhamos rumo ao derradeiro fim a todo instante. Corra. Fuja de seus demônios. Qualquer trajeto que seguir, sempre terá a sensação que não é deste lugar. Respirávamos fundo e mergulhávamos de cabeça num ávido universo sem cor. O sangue amargo escorria pela garganta abaixo. O gosto agro dos derrotados. Corra… Corra… Mas nunca poderá se esconder de si mesmo.

A angústia se torna mais forte ao cair da noite, ao terminar o último copo, no apagar as luzes e fechar os olhos. Ajudas são desnecessárias e o orgulho fere a única bondade que ainda restou nos atos puros. Dentro de mim habitava um menino que morreu quando parei de sonhar. As tonalidades são sempre opacas distantes das retinas claras de sua áurea. Nossas aspirações são tão vazias? Atravessamos o contrário do mundo sem sair do chão. Como mergulhar de cabeça num mar raso sem se ferir? Afinal, somos apenas peças num tabuleiro sem nexo e prestes a serem devoradas no próximo lance de sorte.

Temia mais o medo de sua falta que a chuva do outro lado da esquina. Pedi com os olhos para me levar para casa. Com um sorriso, ordenou que ficasse entre seus braços e traumas. Minutos depois, levantou-se e, com a boca em copas, disse que minha casa estava em qualquer lugar que quisesse fazer moradia. Levantei assas e voei para perto de seu peito ferido. Enquanto ouvia o seu coração ainda desritmado, entregou-se num breve alento. Como entender as armas do amor? Por um instante, fechou-se em uma redoma de vidro impermeável. Percebi que o melhor a fazer era deixar que o opaco da noite conduzisse o cinza que viria. Deixei a casa vazia e partir sem rumo para algum lugar que pudesse rever o nascer do sol. Neste momento, perdemos-nos…. parecia que para sempre.

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1 Response to “Antes do sol nascer”


  1. 1 Thalita julho 9, 2010 às 10:48 pm

    Oi Eduardo .. como sempre seus posts são lindos.. parabéns =)


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