Arquivo para julho \11\UTC 2010

Até o final de nossos dias

Atravessei apressado a avenida repleta de carros e dissabores. Sem saber ao certo que me esperava do outro lado do mundo, caminhava passos firmes e certeiros, destas caminhadas que fazem os que sabem exatamente onde irão. Eu não sabia a parte de sua estrada que se uniria ao meu destino. Quase nada. Poucos metros de distância, meu coração pulsava tão forte a ponto de imaginar que pararia. Parou por uma breve eternidade. Ao nosso redor, exceto seus cabelos que balançavam perfeitamente, tudo mais se estancou. O tempo fez uma curva nas emaranhadas teias do destino. Desconfiado, verifiquei ao redor temendo que algo acontecesse. Em qualquer história cinematográfica, alguma surpresa se daria neste instante. E ocorreu:

Foi o sorriso mais lindo que vi a me observar. Neste momento, toda minha vida, finalmente, teve sentido. As pequenas peças indefinidas e inexatas se encaixaram com a perfeição de seus encantos. Num segundo, todo o encanto a girar, como nossos corpos unidos num abraço sem fim a bailar sem gravidade no infinito opaco dos corações ritmados, agora, em um compasso único. Harmoniosamente. Uma espécie de refúgios das dores passadas me redimia dos erros cometidos até então. Em um novo capítulo, escreveríamos em cores vivas a felicidade que incendiávamos. Em seus olhos percebia uma onda de sentimentos complexos. Não em vão, eu era misturado em cada olhar.

A casa estava tão vaza sem você. Ou será que sem você tudo fica tão vazio. Horas completas de felicidade em seu estado mais puro. Nas estrelas que reluziam um brilho único, bailávamos sobre o tempo, numa destas curvas que ele fez quando você e eu nos encaramos frente a frente. As marcas cronológicas eram suspensas por uma linha tão tênue, que já não sabíamos mais o que era o real ou imaginário neste conto de fadas que penetrou a madrugada silenciosa. Quais os próximos passos a seguir?, perguntei em um segundo de distração. Com o indicador em meus lábios, disse “em frente, como é de se fazer”… Fizemos.

Mas o tempo cobra os momentos que se diferencia da percepção dos demais. Um preço alto para dos jovens pares de olhos assustados como novo. Precisou se ausentar. Baixamos nossas faces tristes com o medo de ver nos olhos do outro maior dor até então. Foi o sorriso mais lindo que revi, mas carregado da lágrima mais triste que me molhou o rosto. O seu choro derramado em meu corpo me deixou marcas profundas. Como se eu fosse batizado naquele instante com seu nome, sua história e seus planos… Não apenas isso, mas com tudo que fosse capaz te de fazer ser feliz e, assim, encontrar a minha felicidade refletida em seus braços seguros.

A vida é um misterioso labirinto: no instante que mais me sentia perdido, você apareceu com palavras mansas e jeito decidido de lidar com os desafios. Com o seu sorriso estampado em mim, pude acreditar que poderia reencontrar a felicidade adormecida e despertar a paz que buscava incessantemente. No silêncio da longa noite solitária, relembro cada segundo de seus primeiros suspiros. Um sorriso mágico que me desarmou profundamente. Refém sem hesitar, entrego-me aos seus encantos enquanto luz existir ou até mesmo se um dia o breu tomar conta do firmamento.

O amor é uma expressão forte demais para quem nunca saberá o que significa. Tudo tem um ponto de início. Nada fazia sentido antes de você chegar, mas eu sabia como caminhar em frente sem esperar grandes surpresar no entardecer. Depois que seu olhar me acalmou, não quero mais cruzar as vias deste labirinto da vida sem suas mãos a me conduzirem. Concentro-me e em minha mente imagens de você a desafinar a música que ouvíamos juntos. Com um fio de lágrima que escorre em meu rosto, peço que me dê as mãos, pois assim podemos nos entender até o final de nossos dias.

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Em cartaz, Cine Macalé

Jards Anet da Silva, 66 anos, vestido com uma camisa do Super-Homem, caminha tranquilamente sobre o palco do Sesc Santos, às 21 horas de 22 de agosto de 2009. Pega um violão, ameaça algumas notas. Para. Olha para o público, aponta o telão instalado atrás do compositor carioca e anuncia a exibição do primeiro trecho de um filme. Em preto e branco, cenas do enlatado Batman e Robin, sucesso televisivo dos anos 50. Na sequência, apresenta uma de suas primeiras composições: Gotham City, defendida em 1969 durante o 4º Festival Internacional da Canção, no Rio de Janeiro. Entoada, na ocasião, pelo grupo ‘Os Brazões’. Os comensais vão ao delírio. Era apenas o começo apoteótico.

Inspirado em músicos que se apresentavam em sessões de cinema mudo, no começo do século passado, o representante dos marginais da MPB estréia em cartaz com Cine Macalé. Espetáculo multimídia o qual o compositor carioca apresenta músicas e trechos de suas participações na sétima arte. Neste terreno, pouco importa se atuando ou compondo.

A trama do espetáculo, com duração aproximada de 80 minutos, segue os caminhos do violeiro cego do filme ‘Amuleto de Ogum’ (1974, Nelson Pereira dos Santos). Além de ser o protagonista do longa, Macalé assinou a trilha sonora da fita. “Se me der na veneta eu vou,\Se me der na veneta eu mato,\Se me der na veneta eu morro,\E volto pra curtir”, canta para um seleto grupo de aproximadamente 150 pessoas (cerca de 20% da lotação do local).

Um dos rebelados da indústria fonográfica, Macalé integra a lista dos compositores intitulados “malditos”. À margem dos sucessos repetitivos das ondas do rádio e televisão, o músico carioca também se aventurou nas telas do cinema em outros dois longas: O Demiurgo (1972, Jorge Mautner) e Tenda dos Milagres (1977, Nelson Pereira dos Santos). Trechos e causos são narrados e seguidos de execuções de parcerias do músico com o poeta Waly Salomão (1943 – 2003); “A voz do Morro”, de Zé Keti; “Acertei no Milhar”, de Moreira da Silva. Ainda há espaços para homenagens ao ator Grande Otello, com cenas da obra Macunaíma (1969, Joaquim Pedro de Andrade), baseado no romance de Mário de Andrade.

Em uma ode à Sétima Arte, trechos da fita Terra Estrangeira (1996, Walter Salles e Daniela Thomas) são intercaladas com imagens do humor clássico dos irmãos Marx. Próximo frame, a cena final do filme que é considerado a retomada do cinema nacional. Cantando “Vapor Barato”, Alex (interpretada por Fernanda Torres) leva Paco (Fernando Alves Pinto) baleado para o hospital. Pela estrada portuguesa o veículo se desloca em alta velocidade, lentamente a câmera se afasta… Ouvimos os soluços de Alex: “vou descendo por todas as ruas \ E vou tomar aquele velho navio…”. Lentamente o zoom da câmera desfoca o auto a rodar sem fim… o ‘road movie’ chega ao fim. A voz de Macalé e o show se vão à tomada seguinte, Faz-se luz, então:

Desce-se o pano do palco santista; da mesma forma que eram baixadas as cortinas após as exibições do cinema mudo, em uma época que teatros eram adaptados para as projeções. Sobre aplausos, e reclamando de uma tendinite na mão esquerda, Macalé, lentamente em seus trajes de super-herói, retorna a coxia. Não há humano que suporte dor nas mãos após conduzir sabiamente um instrumento musical. Respeitosos, nenhum dos fãs pede bis: no cinema, quando acabam os caracteres, não há mais ninguém na sala de exibição.


julho 2010
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