Em cartaz, Cine Macalé

Jards Anet da Silva, 66 anos, vestido com uma camisa do Super-Homem, caminha tranquilamente sobre o palco do Sesc Santos, às 21 horas de 22 de agosto de 2009. Pega um violão, ameaça algumas notas. Para. Olha para o público, aponta o telão instalado atrás do compositor carioca e anuncia a exibição do primeiro trecho de um filme. Em preto e branco, cenas do enlatado Batman e Robin, sucesso televisivo dos anos 50. Na sequência, apresenta uma de suas primeiras composições: Gotham City, defendida em 1969 durante o 4º Festival Internacional da Canção, no Rio de Janeiro. Entoada, na ocasião, pelo grupo ‘Os Brazões’. Os comensais vão ao delírio. Era apenas o começo apoteótico.

Inspirado em músicos que se apresentavam em sessões de cinema mudo, no começo do século passado, o representante dos marginais da MPB estréia em cartaz com Cine Macalé. Espetáculo multimídia o qual o compositor carioca apresenta músicas e trechos de suas participações na sétima arte. Neste terreno, pouco importa se atuando ou compondo.

A trama do espetáculo, com duração aproximada de 80 minutos, segue os caminhos do violeiro cego do filme ‘Amuleto de Ogum’ (1974, Nelson Pereira dos Santos). Além de ser o protagonista do longa, Macalé assinou a trilha sonora da fita. “Se me der na veneta eu vou,\Se me der na veneta eu mato,\Se me der na veneta eu morro,\E volto pra curtir”, canta para um seleto grupo de aproximadamente 150 pessoas (cerca de 20% da lotação do local).

Um dos rebelados da indústria fonográfica, Macalé integra a lista dos compositores intitulados “malditos”. À margem dos sucessos repetitivos das ondas do rádio e televisão, o músico carioca também se aventurou nas telas do cinema em outros dois longas: O Demiurgo (1972, Jorge Mautner) e Tenda dos Milagres (1977, Nelson Pereira dos Santos). Trechos e causos são narrados e seguidos de execuções de parcerias do músico com o poeta Waly Salomão (1943 – 2003); “A voz do Morro”, de Zé Keti; “Acertei no Milhar”, de Moreira da Silva. Ainda há espaços para homenagens ao ator Grande Otello, com cenas da obra Macunaíma (1969, Joaquim Pedro de Andrade), baseado no romance de Mário de Andrade.

Em uma ode à Sétima Arte, trechos da fita Terra Estrangeira (1996, Walter Salles e Daniela Thomas) são intercaladas com imagens do humor clássico dos irmãos Marx. Próximo frame, a cena final do filme que é considerado a retomada do cinema nacional. Cantando “Vapor Barato”, Alex (interpretada por Fernanda Torres) leva Paco (Fernando Alves Pinto) baleado para o hospital. Pela estrada portuguesa o veículo se desloca em alta velocidade, lentamente a câmera se afasta… Ouvimos os soluços de Alex: “vou descendo por todas as ruas \ E vou tomar aquele velho navio…”. Lentamente o zoom da câmera desfoca o auto a rodar sem fim… o ‘road movie’ chega ao fim. A voz de Macalé e o show se vão à tomada seguinte, Faz-se luz, então:

Desce-se o pano do palco santista; da mesma forma que eram baixadas as cortinas após as exibições do cinema mudo, em uma época que teatros eram adaptados para as projeções. Sobre aplausos, e reclamando de uma tendinite na mão esquerda, Macalé, lentamente em seus trajes de super-herói, retorna a coxia. Não há humano que suporte dor nas mãos após conduzir sabiamente um instrumento musical. Respeitosos, nenhum dos fãs pede bis: no cinema, quando acabam os caracteres, não há mais ninguém na sala de exibição.

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