Voltas de um relógio ilógico

Tormentas e outros problemas tiram-me o pouco da paz reinante. Não que houvesse muita, apenas a tímida calmaria para poder dormir e acordar no dia seguinte com o gosto amargo provocados pelo exagero de álcool. Tudo lembra as nossas longas noites de insônia: as palavras mortas, os dias longos, as poucas fotos que enfeitam as paredes desnudas de artes. Nossas respirações ofegantes pelas longas frases e o efeito do vinho. Tudo parece perdido. O encanto de outrora, as falsas demonstrações de carinhos descartáveis. A dor em seu estado bruto. Tudo é ilusão neste parque de diversões ilógicos, distante da tonalidade que enfeitava seu olhar belo. Estas verdades inventadas se fazem necessárias para me manter vivo. Metade é calmaria, a outra, precisão. A vida e seus misteriosos desfiladeiros. Em cada esquina, uma nova história: o final nem sempre previsível.

Você cismava em reinventar o futuro a cada instante. Presa à imprecisão das datas, algumas lágrimas davam vazão aos seus puros gestos. Nestas ocasiões, eu enxergava com a clarividência viva a impudência de meus atos. Em frente ao desfiladeiro, corria para me jogar de cabeça. A vertigem sempre me deixou entorpecido. Seus planos inacabados com meus passos errados. Era a união perfeita dos cosmos. As sombras da madrugada faziam companhia às conversas ilógicas e absurdas. Seus abraços me fazem falta, como o seu sorriso a enfeitar as terças-feiras cinzas de outono. Um grito no escuro pegou-me de assalto: tudo em volta está em chamas. Solitário e errante, chamava seu nome como quem procura proteção materna. Na escuridão que atravessava, uma estrela sombria iluminou o caminho. Vi, do outro lado da estrada, seus lábios redentores ao arco-íris vindouro. A paz reinou por um breve instantes enquanto durou seu sorriso.

Em preto e branco, a retina mergulhava em sua fotografia deixada ao acaso sobre a bagunça da mesa. Na sala de estar, numa repetição do passado, ouço o eco da porta as se abrir e seus passos abafados pelo corredor. Como a acordar de um transe, reanimo-me à parca realidade que me cerca. Garrafas vazias e a alma repleta pela fúria cega dos devaneios incompletos. Voltas de um relógio ilógico. São movimentos que não posso mais conter. De um lado, a saudade que me consome aos litros de um destilado ordinário; do outro, a verdade que me arde o rosto e tento esconder do coração em frangalhos. Os fragmentos esquecidos do passado voltam a atacar em meu ponto fraco. Justo agora que me achava seguro demais para caminhar em linha reta. Feriu-me com palavras tão mortais quando lanças de prata.

É triste perder a essência, ainda mais quando se luta para mantê-la. Mais trágico é arruinar-se pelos sonhos e utopias adormecidas. Velhos corações desfeitos pelos mecanismos sistêmicos que regem as gastas roldanas do mundo. Impossível mudar as antigas marcar que não querem ser alteradas. Esqueci cânticos de outrora e testamentos amarelados pelo tempo. Desfilam diante das retinas cansadas a herança do sangue na madrugada infinita. Perdemos a palavra fria. Perdemos a paz. Perdemos-nos. Por favor, visite-me em meus sonhos. O que será que virá nos próximos dias? O vazio perturbador ou a maluquice dos dias maquinais? As cartas sobre a mesa. O inverno que se aproxima lento… quente dentro de meus labirintos esquecidos. Desejo o fim dos dias que as marcas deixadas impressas em lentes digitais. Valerá para toda a vida te levar em mim?

Sinto falta de vento em seus cabelos e a liberdade que aspiramos desde o princípio. A vida e os interessantes mistérios. Em cada volta, uma história sem fim. São estas palavras perdidas que em encantam. Fragmentos molduram o mosaico que somos. Numa madrugada cinza, seus vocábulos desiludidos trouxeram-me um breve alento. Será que amanhã estarão ainda estampados em meus olhos cansados da imprecisa necessidade de seguir adiante sobre o temporal? Quando mais ódio, mais o sentimento de identificação com o outro. As sensações são rarefeitas quando está distante. Um passo para a eternidade; apenas mais um dia… Uma noite e nada mais? Falta-me o incessante desejo de ter quem a me esperar de braços abertos após o pôr do sol, como o desesperado almeja uma luz no final do túnel. As armadilhas do destino. Você tenta se esconder das mágoas que te fizeram ser a pessoa de hoje. Perca o medo de se arriscar e nade contra a maré comum. Desta forma, todos os dias que eu sigo em frente.

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