Tangos e outras delícias

(*) Réquiem para Sérgio Sampaio

Então o mar destruiu os castelos de areia que fez com seus sonhos inacabados? Descia a rua tropeçando entre corpos mutilados e a paz não mais existente em seus olhos. Berrava velhos cânticos de guerra ao tentar desviar do pôr-do-sol que se forma diante de seu sorriso jocoso. Sem graça, debochava dos comensais apenas para demonstrar que continuava novo e livre das convenções antiquadas. Estava acabado para os novos ventos. Um ataque surpresa roubou seus melhores momentos de sono. Daquele jovem de coração franzino, nada mais resta: nem as lembranças; tampouco os tímidos lábios.

Para fugir de seu círculo vicioso e autoritário, inventava histórias de amor tão insanas e sinceras quando um sonho tranquilo. Acordava ensopado de suor e angustia ao deparar no espelho a verdade estampa em meus olhos vermelhos. Ouvia passos no corredor, mas fechava a porta apressadamente. Poderia ser alguém? Não queria ser pego fazendo as coisas das quais se arrependeria antes do sol nascer. Com pedras a rolarem insistentemente em uma realidade não imaginada, via-se suspenso no ar em antenas de TV não sintonizadas. Veja o fogo que escorrem com as minhas lágrimas? Não pôde enxergar a tempestade que se aproximada dos rostos úmidos e exaustos pela costumeira repetição do relógio. Tudo parece cinza quando os olhos fecham e o silêncio da noite me ensurdece a alma.

Seu modo incontrolável faz com que o mundo o deteste. Os cabelos cuidadosamente pintados de um modo provocante são, apenas, para se esconder das dores que remontam o passado sombrio. Veludo tudo. Foge dos sentimentos puros por temor de não controlá-los. Repetia no espelho do banheiro imundo todas as manhãs que é uma pessoa independente, forte e que não se deixa dominar com emoções ordinárias como o amor, a paixão e a dor. À exaustão, ecoa velhos mantras batidos sobre a necessidade de se manter firme em um mundo eclodindo em cacos. Seu reflexo revelava a verdade inconveniente que, inutilmente, tentava esconder das vistas comuns: sua maior virtude está no ponto que encobriu ao alegar defeito mortal. Não passa de alguém assustado em busca de um abraço de redenção e um ponto seguro.

O volume exagerado vindo do stereo da sala de estar te faz mergulhar num mini-universo ávido: tudo é ilusório diante os olhos cansados e entorpecidos. Baila seu corpo pelo ar, para desfazer uma mágoa profunda. Os acordes dissonantes se misturavam com o álcool em excesso e as seletivas memórias que nos atacam nas horas mais inimagináveis. O brilho de prata reluzente em as lágrimas o trouxe à vida comum. Por alguns segundos, a tonalidade dos cabelos em chamas remeteu à criança perdida na praia numa tarde de domingo. Desamparado, o choro foi a única alternativa para voltar ao seguro abrigo dos braços paterno. Agora, anos distante daquele garoto tímido e com pintas no rosto, luta para se desvincular destas imagens. O tempo pune com o ressentimento. Porém, ser levado para casa ainda era seu desejo mais intimo.

Mais que tente, nunca conseguirá se esconder de você. Esta e outras verdades nos acompanharão mesmo quando não mais houve sol ou a lua não iluminar no firmamento. Sempre existirá um falso profeta nos centros da cidade pregando o fim do mundo próximo. Mais perto que imaginamos. Na próxima esquina, a cura milagrosa para os problemas comuns é anunciada em um megafone a chiar ruídos indecifráveis. Acreditar em algo que possa reverter os desatinos cotidianos da solidão pode ser uma redenção; ou é a falta de luz que entristece e nos cega. Sem paz e sem calma. Cobrou-me hombridade, mas cadê a sua coragem?

Incansável, buscamos resposta para tudo: água, terra, céu, sol a girar. Abria, por direito, a felicidade estampada no peito e um sorriso sem graça. Esta necessidade de explicar o porquê de tudo que nos torna presas fácies aos emaranhados desfiladeiros do acaso. Mais breve que o tempo passa, vem a galope a culpa que nos consome. A alegria e dor ficam dormentes antes mesmo de ganhar as ruas frias. Cadê a ousadia quando estamos hipnotizados pelas pobres palavras desconexas? Foi-se pelo ar? Está bailando um tango triste pelas alamedas escuras de Buenos Aires? As remotas lembranças seguem pela poesia pequena; toda mágoa que acompanha sob os pés cansados. Vá sem pressa, e não penses que terá a vida toda para se equilibrar sobre os desfiladeiros remotos da consciência.

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