Arquivo para dezembro \30\UTC 2010

O sangue é sólido

O agudo grito abafado no peito não encontra eco para dar vazão a angustia que enfarta a inexistente quietação. Cercam-nos os olhos vermelhos e cansados de sangrar lágrimas. O gosto de sal me invade a boca… Tantas palavras, e nenhuma que caiba no vazio que se fez. O vazio me consome até o estado de torpor; é esta então a dor absoluta. São sensações que crescem, ao passo que diminuem. O sangue é sólido. Turvo tudo de azul, sombrio.

O problema das mentiras veladas é que, geralmente, elas são acompanhadas das bocas abertas. Adeus aos corações puros. Um salto no vazio e imaginário do escuro a acompanhar as angustiantes noites sem sono, sem brio, sem exatidão, sem esperanças… O mundo se curva sobre as pernas cansadas do amanhecer sem flores. Jamais se esqueça: do universo, eu espero apenas que as luzes iluminem os passos a te seguirem. E nada mais me importa.

Tolos temem a solidão. Sentimento, este, que tem medo de ser esquecido num forte e duradouro abraço. Vivemos apenas de esperanças que já nascem mortas e germinam pequenos pedaços de calafrios. A vertigem que nos cega; a tempestade que nos absorve: a queda e o ponto final. Aos poucos, o silêncio em nosso redor cresce ao ponto de se tornar ensurdecedor. Um vento anunciando infortúnios seca minhas lágrimas. Carece apenas esperar o sol se pôr definitivamente. Sobra o sal. A língua cansada e um adeus.

Nunca teremos a certeza clara destes emaranhados fios de desejos, emoções, desatinos e incertezas que acostumamos a chamar de futuro. Instintos que são apenas para acalmar a alma em ebulição. Num segundo de descuido, os frágeis pilares a sustentar os planos vindouros desmoronam por completo. Ruí eu. O pouco que me restou da fé se esvai em milhares de imagens a explodir diante das retinas atônitas. O silêncio dói mais que uma ferida.

De lixos e trapos, fazíamos viscosos vestidos a tatuar nossa pele nua. Desperdiçávamos os corpos saudáveis com a cansada mocidade a rodear os primeiros anos. No meio do caminho de um abraço, os olhos repousam sobre a outra alma. E você corria, corria, corria para tão longe de mim. Falam de uma revolução em marcha, dizem ser evolução; mas não se livram de velhos preceitos e vícios. Até chover, até se esquecer de lembrar. O mundo continuará a mover sem que possa desfazer-me desta chaga a me consumir de uma vez por todas. Apenas o gosto amargo do embate perdido irá permanecer quando o fim chegar, em breves momentos. O salto sem fim…


dezembro 2010
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