Sob o travesseiro

O doce do afago tingiu-se com o sabor amargo da dor. O silêncio fez-se em forma de prece. Era necessário elevar a calma antes de a tempestade que se anunciava. Certas horas, a ausência das palavras diz mais alto. E deixamos que a falta de algo ainda desforme guiasse-nos por labirintos difusos. Em cada curva, uma saída desavisada: as imagens refletidas mostram quadros que tentamos abafar.

Há sentimentos que não se explicam, apenas cresce ao ponto de a pele não ser mais a fronteira, extravasa a alma e explode como uma bomba sobre os pés. Tira-nos o chão, a paz e algo mais. Vejo nos seus olhos o medo que tentei esconder. Não aguentei. Agarramo-nos em teias frágeis nas sutis armações suspensas que nos apoiava. Caímos no pior dos pesadelos. Sem forças, não pude arrancar-lhe do peito a mágoa contida. Culpo-me por te ver chorar e não ter nada em meu alcance para impedir-te de sofrer.

Nos cantos, o escuro do medo revela a face sombria. Seguíamos em desfiladeiros ao breve sussurro das frases vazias. Todas as frases tornaram-se vazias então. Os sentimentos misturaram em um choro uníssono. Somos operários de nossas próprias mágoas íntimas. Deixo transcorrer em versos perdidos as mágoas que não sei classificar. Medo, talvez; incapacidade de arrancar-lhe a dor, plenamente.

Escrevo sem nexo em parcas linhas desconexas a inexatidão deste emaranhado de sensações impróprias. Palavras não bastam, como não satisfazem apenas os abraços partidos e sinais de boa sorte. Nada pôde ser feito para acordar deste pesadelo que parece um labirinto borguiano; ou seria um inferno dantesco?. Melhor seria se soubesse como livrar o meu rosto magro da realidade desconexa que nos cerca. E esta tormenta suba a ternura de louco dentro de mim.

Uma hora, a tempestade vai passar, deixando para trás apenas o lastro de destruição que ajudamos a criar. Que os mistérios da vida voltem a trazer o afago sabor doce da surpresa vindoura. E nada mais importa, exceto enxugar suas lágrimas e cantar uma suave canção para fazer-te dormir em meu peito. E desta forma ficaremos até você e eu florescemos, à última flor, à última hora, aos céus. Assim, quando despertar, as dores tenham ficado veladas sob o travesseiro.

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