Arquivo para novembro \05\UTC 2011

Marte alinhado em Virgem

Todos estavam aparentemente em paz no instante que ele avançou pela porta. Cabelos sem corte e barba de vários dias, sentiu pavor ao encarar as pessoas que dançavam ao som de rock’s e outros barulhos. Procurou, entre a solidão de cada participante da reunião, um canto para se esconder da tormenta que seguiria. Não percebeu, mas desde que invadiu o salão com a sua timidez foi notado de longe. Ela estava próxima à janela, vendo a lua cheia que iluminava a noite fria dos corações vazios. Acompanhando a movimentação dos automóveis a procura de bares e outras fugas de medos urbanos, divagava sobre as neuroses escondidas nas metrópoles. Tentava em vão se manter equilibrada e conservar suas pequenas loucuras. Unhas roídas pela ansiedade de algo disforme e o cabelo cuidadosamente despenteado para afugentar os traumas de outrora. Entre unhas e dentes, assobiava Caetano Veloso; na inútil esperança de controlar os impulsivos gestos e palavras contraditórias aos sentimentos.

Quem passasse pela avenida no instante em que ela se postava à janela poderia imaginar que se tratava de uma pintura de Guignard ou uma clássica cena eternizada pelas lentes de François Truffaut. Bela como as noites frias e solitárias de Inverno, permanecia, cintura para cima, braços apoiados no batente e mãos segurando o queixo e o olhar teimosamente mirando ao firmamento. Na confusão de fora, as pessoas que passavam apressadas para aproveitar mais uma noite da conturbada vida moderna não seguiriam os pensamentos incompletos que a redimiam de pecados e traumas repentinos. Com uma força que nunca teve, deixou a companhia de livros, chocolates, filmes e o telefone mudo, para se aventura em um mini-universo de gente ávida por consumo momentâneo e em busca de prazer imediato. Tinha pouca resistência para bebidas alcoólicas, mas, descansando no batente da janela, um copo de plástico com gim barato e água tônica ordinária. Girava com a ponta dos dedos o gelo e a rodela de limão, na inútil tentativa de diluir o álcool e sorver a água. Ria, como sempre ria em momento de apreensão. Imaginava arrumando as malas e fugindo da realidade, como costumeiramente fazia nestas ocasiões. Pegava-se distraída e não percebeu o instante que ele a olhou pela primeira vez. Ao mirá-la, pintura estática com os olhos castanhos mergulhados na confusão de fora, fantasiou-se ao seu lado, em uma história estranha. Rumo aos desconhecidos mistérios das almas em ebulição, palpitava ao imaginá-la sorrindo. Na cabeça do rapaz, que escondia sua beleza na barba por fazer e no cabelo sem corte, os ruídos oriundos dos rock´s e outros barulhos se transformam em harmonias compostas por Guerra-Peixe.

Arquitetou milhões de maneiras de se aproximar da moça de cabelos castanhos parada diante à janela. O pavor do novo o fez estancar antes mesmo de dar o primeiro passo. Por precaução, procurou abrigo ao lado oposto, em um ponto que seria difícil ser avistado pela retina da menina absorta ao mundo a rodar do lado de fora. Distraída com a lua, sentia uma vibração diferente no ar. Talvez por ser sábado à noite e ter espantado o telefone mudo, achava-se contente dentro no pequeno universo que rodeava aquele encontro repleto de pessoas estranhas, álcool e dissabores. Amores do passado e marcas invisíveis a teriam feito desistir da vida em milhares de ocasiões. Em noite como aquela, costumava deixar ser conduzida em labirintos criados pelo inconsciente desejo de se perder por completo. Mas, no entanto, talvez pelo gosto de gim na boca ou o frio do lado de fora do casaco, estava diferente. Como criança que apronta, sorria na tentativa de diminuir o castigo que viria. Seu rosto ficou levemente vermelho e os olhos se espremeram para deixar o sorriso escapar a face e ganhar o salão, enquanto todos estavam preocupados em fugir de seus próprios demônios.

Por ser sábado à noite e os temores menores, que lhe roubavam os melhores momentos, terem ficados sobre a penteadeira junto a um livro de Michel Foucault, deixou que o sorriso a iluminar a face ganhasse o salão. Em um instante, pegou-se distraída mirando os olhos castanhos do rapaz de barba e cabelos sem corte. Na fração de segundo em que encararam os olhos um do outro, o tempo faz uma curva na linha imaginária que nos conduz e parou por uma breve eternidade. Como se tivesse acordado de um transe profundo, ele pôs-se a remontar acontecimentos que não pôde controlar. Os olhos incandescentes da moça reacenderam um brilho até então escondido em sua timidez exagerada. Sobrevoaria sobre o campo se tivesse asas. Livre em seus passos imaginários, desejou o final da festa para voltar ao conforto de seu quarto vazio e desorganizado.

Dentre os temores do rapaz, amargavam os sonhos desfeitos e a imensa vontade de cura instantânea. Tropeçava em astros distraídos, na inútil agonia de viver a vida em uma única noite. Distante dos olhos comuns, dois perdidos a espera de um momento mágico, união de duas constelações em rotas opostas e destinos iguais. O choque celestial de dois cometas vagando a eternidade na solidão da estrelas em busca da metade decaída. No instante que o tempo deu um pulo para se avançar a eternidade parada, Marte se alinhou em Virgem. O pressagio de um novo capítulo se desenhara entre os corpos cansados de desatinos e esperanças dos dois libertos para a vida. Alguns dias foram necessários até que criasse coragem a encarar novamente os olhos castanhos da moça de cabelos lisos que sentia no ar o nascimento de uma energia cristalina. Duas músicas estranhas e cerca de nove minutos separavam a entrada ao salão e o instante que lutava contra suas limitações. No ar, a voz de Lennon enchia o ambiente berrando: “I want you. I want you so bad”. Embriagado com o som e o momento que se aproximava, encaminhou-se para o banheiro. Compreendeu os anos que se passara quando sentiu um toque em sua face.

– Sente algo novo no ar?
– Como a vinda de uma nova era?
– Semelhante a isso, mas um pouco mais restrito. Talvez apenas para mim. Quem sabe, para você? Ou entre nós dois?
– A lua está em um brilho raro. Sou eu ou o efeito do álcool?
– Quando criança, ouvia meu pai falar sobre a ida do homem à Lua. Ele contava sobre o mar da tranquilidade. Eu imaginava um domingo de sol com a praia deserta. Lá sempre foi meu cantinho para me abrigar quando estava com medo. Fechava os olhos e me imagina na Lua a me esconder dos perigos.
– Eu ia para uma pedra em um antigo bosque. De um tempo para cá, lotearam o local e hoje tem um bairro repleto de arranha-céus e automóveis de consumo excessivo de combustível. Pouco restou do que era antes.
– Por que o homem quis destruir a lua. Não basta a gente?
– Nós?
– Não, o mundo. Todo o mundo. O mundo todo. Como fizeram com o seu bosque. Não entendo o porquê de corremos contra o tempo para juntar dinheiro e não ter um pouco de paz para poder usá-lo. Além de não ter tempo, falta alguém que gostamos ao lado.
– Não sei, talvez por se sentir sozinho. Talvez por egoísmo…. Talvez por ser parte do ser humano destruir tudo que é belo e colocar em seu lugar alguma coisa cinza, construída de concreto e ferro armado. Sem o meu cantinho, ás vezes, me sinto tão sozinha.
– Estranho mundo que se vangloriam estadistas e generais de guerras? Em meu mundo ideal, poetas vadios governariam as pessoas de corações partidos.
– Me leve para seu mundo?
– É preciso?

Ela sorriu.
Silêncio.

– Já sentiu as marcas do tempo?
– Sinto apenas, não o vejo. Na verdade, não sei ver muito bem as coisas. Apenas sinto e de uma forma intensa, como se eu fizesse parte de tudo. O tempo todo.
– Carrego no rosto o gosto amargo do tempo. Mas não sinto como ele passa, apenas vejo.
– Tenho duas vidas. Uma eu morri. Ainda carrego as cicatrizes. Renasci hoje, quando sua timidez invadiu a solidão das pessoas mesquinhas.
– Tentei me matar tantas vezes; as inúmeras vontades, se transformaram em algo corriqueiro. Cada novo desejo, mergulho no dia seguinte em busca de alguma coisa ainda inclassificável. Estava a sua espera para me tirar deste labirinto sem nexo.
– Eu te vi em um sonho. Faz tanto tempo que seu rosto se perder dos meus olhos. Mas ainda carrego suas marcas, seus desejos em mim.
– Trago tatuado seu gosto, seu rosto, tudo que me deixa em paz e tira meu sossego nos raros momentos de calmaria.
– Vou te procurar em um porto seguro, em busca de algo que sempre esteve em mim, mas perdi por não enxergar as ondas que conduzem a maré.

Ele sorriu sem jeito, mas não percebeu que, na verdade, aquele sorriso era o dela. No céu, uma estrela mostrou o caminho em direção oposta que deveriam seguir. Marte e Virgem eram, agora, um único corpo celestial alinhado. A sombra de um iluminava a parte fria do outro. O sol, de longe, apontava seus primeiros raios de luz a iluminar o deserto breu que se seguia até em tão.

– Olha, está chovendo. Adoro noites de chuvas.
– Em um dia de chuva, minha mãe costumava colocar na vitrola o disco Elis e Tom. Desde então, não posso ouvir “Chovendo na Roseira” sem me lembrar das tardes que a música me fazia companhia. Minha única companheira na adolescência perdida.
– Eu costumava ver a chuva pela janela do meu quarto e a cantar baixinho: “Meu coração \ Não sei porquê \ Bate feliz, quando te vê”. Quando chove, sempre me lembro dessa imagem.
– Quando bem novinho, eu corria na chuva. Minha mãe sempre falava que ficaria gripado. E ficava mesmo. Ela fazia um chá e eu tomava, ainda enrolado em cobertas depois do banho quente, comendo bolinhos de chuva.
– Você é de peixes?
– Sim. Você de gêmeos?
– Como soube?
– Sempre soube. E você, como adivinhou?
– Não adivinhei, está escrito em seu olhar.

Silêncio.

Baixinho, para esconder a timidez, ele começou a cantar. “Agora eu era o rei \ Era o bedel e era também juiz \ E pela minha lei \ A gente era obrigado a ser feliz”. Ela sorriu, retribuindo a canção. Disse:

– Embora tentasse, nunca vi as sete cores que dizem ter em um arco-íris. Você já viu?
– Não, mas uma vez eu vi dois arco-íris. Não vou esquecer. Era uma tarde de outono ou primavera, não me recordo. Choveu e abriu sol. Voltou a chover e o sol, tímido, surgiu no céu. Estava em uma estrada, ao olhar o horizonte, dois arcos enfeitaram minhas vistas. Pensei ser algo único. Tentei contar, mas não eram catorze riscos.
– Tenho você comigo antes mesmo de nascer. Me leve para seu tempo?
– O tempo não existe.
– Existe e nos devora com uma voracidade incomensurável.
– O tempo faz o que somos.
– Somos apenas aquilo que fazemos em nosso tempo.
– Ar, Água, Fogo, Terra.
– Terra, Fogo, Água, Ar. Tudo misturado em nós.
– Quero que o vento nos varra para bem longe das maldades do mundo.
– Vou senti saudade deste instante. A ponto de a saudade virar dor; a dor um lamento; o lamento uma marca; a marca uma lembrança; a lembrança algo que não consigo indicar, mas machuca na alma. Da mesma forma que fere, me alimentará.
– Vou te esperar quando não tiver sol, mesmo quando não estiver chovendo.
– Vamos fugir?
– É necessário?

Silêncio.

No firmamento, nove luas mostraram suas faces. Sentia-se no ar uma sensação que mudariam as estações; todas de uma só vez. Forte rajada de vento tentou varrer em uma intensa tempestade a maldade do mundo. Um novo e belo pôr-do-sol iluminou a madrugada que se iniciava. Virgem alinhada em Marte consertava as estranhas armações que unem e separam as pessoas. O início dos novos tempos se pronunciou nos rostos sorridentes do casal, enquanto os astros distraídos tratavam de mapear as coordenadas que suspendem o universo. Uma estrela cadente iluminou o caminho do semibreu da noite perdida, mostrando os próximos passos. Cada uma carregava na palma da mão o futuro do outro tatuado em cores douradas.


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