Arquivo de fevereiro \26\UTC 2015

A exclamação era o ponto final

“O problema não é o vazio da dor, mas o que essa lacuna provoca. Temo pelos meus atos quando ninguém estiver por perto ou os pensamentos absurdos falarem mais alto. Pode ser o adeus definitivo”. Disse-me com expressão enigmática, os olhos vidrados na janela e entre um gole e outro do destilado ordinário mantido na trêmula mão esquerda. Aquelas palavras me feriram como um punhal sem corte, rangendo, demasiadamente, lento a pele nua. O avançado das horas não me fez ver o óbvio: aquela frase derradeira era minha sentença final.

Do gosto amargo na boca, veio-me à memória as linhas finais de Torquato Neto. Aliás, sempre que essa mancha escurece minha alma, as palavras do poeta piauiense me atordoam: “Pra mim chega!” ecoa como milhares de facas a penetrar a carne semi-inerte dos sentimentos contraditórios. A exclamação deixa claro o ponto final. Antes fosse mais um pesadelo denso e frio a perturbar a noite interminável. Eram as repetições dos atos contínuos, em inúmeras formas de desejar não mais ver o nascer do sol. A saída é sempre a porta lateral. Cai por completo na armadilha fatal.

A poesia me abandonou. E, aos poucos, eu abdico da vida sem poesia, sem cor ou esperanças. Apenas vago passos apressados pelos desfiladeiros de outrora ou labirintos criados para fugir da realidade. São essas fantasias a única (e fugaz) alegria perdida. A vida? Esta, sim, pode esperar até o novo sopro do destino – querelas essas que não mais me enganam (talvez, nunca enganaram). Não há mais metafísica no mundo senão as reinações debaixo de meu nariz.

Sem pretensão (e talento) para ser Iessiênin, Maiakóvski ou Rimbaud, não desejo matar o poeta que desafia a própria sorte por habitar minhas oblíquas retinas. Afinal, qual culpa teria por manter a teimosia, quase messiânica, de tentar traduzir em palavras estanques os sentimentos difusos? Palavras, palavra… A essência musical dos versos rotos são inúteis, como indiferentes são as maneiras tolas de edificá-los em linhas retas. Em vão, a poesia não mais importa perante a montanha-russa do lado de fora e as confusões contínuas. Balelas. Quem sabe?

Caminho entre bêbados e desesperados pelo ávido alívio momentâneo numa forma de suicidar o pouco da paz que me resta. Ainda? Apenas uma carta lançada à mesa para evitar a derrota certeira; um blefe fatal para a falta de ambição num jogo fadado a não ter vencedores. Prorrogar por alguns instantes do veredito. Um inevitável silêncio apoderou-se de meus lábios cansados. A exclamação era o ponto final.


fevereiro 2015
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