Velho tigre de papel

Voavam pássaros perdidos pelas notas sujas da trilha a me acompanhar. Estúpidos sentidos desconexos a confundir as mazelas de outrem. Meus nervos cansados esperavam a magnitude de uma nova rodada dos ponteiros para quem sabe, assim, a sorte mudar o vento. Abrigo-me em palavras doces sussurradas por veladas vozes. As virtudes dos corrompidos pelas injúrias vagas dos copos vazios são passos desprovidos de sensações encobertas pelas dores passadas, que temo nunca mais recuperar.

A noite devora lentamente o pouco que nos resta. O escuro véu da madrugada nos encobre com as piores ações que fazemos. O vinho barato mancha as línguas cansadas de retóricas antigas. És o gosto amargo dos abusos comuns. Retos desfiladeiros sem volta. As sombras projetadas na parede e nossos medos mais remotos dispostos sobre a penteadeira. A bagunça do guarda-roupa a dissimular as sandices ditas na tarde anterior. Repetidamente, ouço ecos de um passo do passado; tempo que permanece a conduzir-me. Seguia sem reagir às parvas curvas que apareciam em minha frente.

Mas você continuava a repetir curtos trajetos sem voltas como a um disco riscado. Inebriante e previsível. Era você a falar sobre os mesmos acontecimentos diários que tanto te irritava mas nada faz para mudar. Esses eram seus vícios prediletos. Sempre as mesmas tintas a encobrir as fantasias. Um velho tigre de papel. Enquanto eu, jogava-me em um trapézio sem rede e aproveitava friamente a queda certa – minha devassidão querida. Restos de silêncios esquecidos. Eu fugia ao pegar-me distraído a riscar seu nome numa folha que tentava escrever algo para me livrar do amargo sonho da noite anterior. Afinal, quebramos-nos.

Eram milhões de pedaços que somente misturados serviam para nos completar: seus lábios silenciosos e os berros de minhas palavras não ditas. Neste labirinto tortuoso, encontrávamos a cada curva. Vi seu reflexo no fundo de meus olhos. Voavam os dias em pares. Era fatal. Era o final. Por onde nasce o sol, nosso insano sonho de voar? Sempre quis decifrar a dor que trazia tatuada na alma. Cite meu nome sempre que sentir sozinha, mas não disque meu número, posso ser surpreendido pela sua voz afável e suas segundas intenções. Deixe-me em paz nas histórias estranhas que crio. Embora tristes, no final há uma breve redenção a me fazer levantar na manhã seguinte.

Mesmo que não haja sol, mesmo que a lua se apague, outra página precisará ser escrita para tirar do meu peito cansado a dor incurável. Dias depois, lançar-me-ei de olhos vendados à nova tormenta. O final é previsível e necessário para me manter, ainda que por poucos dias, suspenso no espaço. Falsas utopias que fazem as velhas engrenagens do mundo andar. As notas musicais mais tristes preenchem sua falta. Traços obscuros, trajetos incertos: qualquer maneira de amar valeria o risco que se expõem em seu sorriso? Sei a resposta antes mesmo de nascer. Vou me questionar sobre isso novamente antes do sol se pôr.

Um voo solitário de um pássaro errante recupera-me de meus devaneios. Os mistérios que sonhava, pouco foram desvendados; muitos, esquecidos. Calo-me. Prefiro acompanhar o desdobrar dos acontecimentos que ser responsável pelo que virá. Amanhã, ao amanhecer, ainda vai me arder a fatal dor a consumir a calma. Difícil fechar os olhos e seguir em frente quando tudo anda para trás.

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