Arquivo para novembro \17\UTC 2015

terceiro ato

 

Nada disse. Baixou a cabeça para esconder as lágrimas frias e lentas escorrendo pelos olhos inutilmente maquilados. Trabalho delicado, executado com destreza e típica cerimônia, uma espécie de martírio para agradar sua metade. Pensou em tudo que fez, dos conselhos não ouvidos, sonhos jamais realizados, dos planos desfeitos na primeira trovoada e feridas dormentes. Ah! Eram tantas.

Quase estremeceu de raiva com a teimosia tola, ingênua até, de como ele se entrega fácil, sem se impor ou deixar o dado rolar no pano. Nunca acreditou em sortes, embora azar fosse sempre sua aposta certeira. Fraco, sempre o foi. No começo, achava graça de seu jeito meigo e carente, comedido e indefeso, sincero e desesperançoso. Temia machucar alguém e, por isso, pisoteavam-no ferozmente sem que percebesse. Ilusões: tinha um quê de heroico ou nobre. Em vão.

Nada disse. Respirou fundo como a engolir o amor-próprio consumido pelos anos de omissão e o orgulho ferido. Os olhos fixos num ponto distante e o sorriso dissimulavam a paz ausente dos ombros cansados de o assistir definhar, imóvel diante de seu medo mais banal. Eram tantos. Algo se quebrava em tão minúsculos pedaços que sentia sua dor refletida numa espécie de caleidoscópio.

Na boca, o gosto ocre do sangue a mutilava com a mesma precisão das cordas e metais de uma orquestra sinfônica. A melodia crescente ardia como chaga em seu peito ainda inerte pelos sentimentos contraditórios. A angústia por rever antigas cenas sem poder mudar o desfecho e a revolta por ser tão letárgico condensadas numa lamúria profunda, que não haveria volta. Era fatal. Era o ponto final.

Refugiou-se num sorriso falso e trivialidades quaisquer para acalmar os ânimos e não o desertar por completo, como sempre desistia das situações fadadas a serem desprezadas. Entendeu naquele instante que era o fim. Não suportaria recomeçar uma vez mais e vê-lo cometer os mesmos erros banais nas primeiras voltas do relógio ou antes mesmo de a moeda tocar ao solo.

Ah!, como se acreditasse em azar ou sorte, coisas do acaso ou novas voltas dos ponteiros. Tão sonhador e ao mesmo tempo se caga de medo de tirar os pezinhos secos do chão enlameado desta podridão que tanto ironiza. Tão contraditório e irregular como são seus medos e traumas a atormentá-los nos momentos mais inoportunos. Despreza suas virtudes e cria limitações nos campos mais férteis. Teimosia e dedicação típica dos camicases.

Nada disse. Respirou fundo para readquirir uma espécie de torpor enquanto aguardava cartas melhores e apostas mais altas. Não era blefe. Mas sim um tiro certeiro por novos destinos, suaves caminhos. Sorriu para dissimular a dor que a dilacerava em milhares de fragmentos em technicolor. Dores do passado e feridas abertas ditariam os dados ainda rolando no ar. Pouco importava se fosse par ou ímpar; o destino estava selado antes mesmo de arremessá-los. Já viu e reviu essa cena tantas vezes, que sabia de cor o desfecho a seguir. Era questão de tempo.

Típica tragédia grega. Primeiro ato: o bom moço, educado e preocupado com tudo e todos. Narra seus sonhos e ideais utópicos com tanta ênfase que quase acreditava em suas mentiras. Emociona-se com alguns dos poucos bons gestos da humanidade e suspira dias esperançosos. Segundo ato: o soco no estômago e o choque de realidade. Metade do que sonhava era antiquado, a outra face, fantasias. A letargia e o medo misturados com um choro compulsivo, ao ponto de provocar pena aos mais desavisados. Terceiro ato: o desespero. Puro teatro de sombras protagonizado por um péssimo ator. O fim era inevitável e apoteótico…


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