terceiro ato

 

Nada disse. Baixou a cabeça para esconder as lágrimas frias e lentas escorrendo pelos olhos inutilmente maquilados. Trabalho delicado, executado com destreza e típica cerimônia, uma espécie de martírio para agradar sua metade. Pensou em tudo que fez, dos conselhos não ouvidos, sonhos jamais realizados, dos planos desfeitos na primeira trovoada e feridas dormentes. Ah! Eram tantas.

Quase estremeceu de raiva com a teimosia tola, ingênua até, de como ele se entrega fácil, sem se impor ou deixar o dado rolar no pano. Nunca acreditou em sortes, embora azar fosse sempre sua aposta certeira. Fraco, sempre o foi. No começo, achava graça de seu jeito meigo e carente, comedido e indefeso, sincero e desesperançoso. Temia machucar alguém e, por isso, pisoteavam-no ferozmente sem que percebesse. Ilusões: tinha um quê de heroico ou nobre. Em vão.

Nada disse. Respirou fundo como a engolir o amor-próprio consumido pelos anos de omissão e o orgulho ferido. Os olhos fixos num ponto distante e o sorriso dissimulavam a paz ausente dos ombros cansados de o assistir definhar, imóvel diante de seu medo mais banal. Eram tantos. Algo se quebrava em tão minúsculos pedaços que sentia sua dor refletida numa espécie de caleidoscópio.

Na boca, o gosto ocre do sangue a mutilava com a mesma precisão das cordas e metais de uma orquestra sinfônica. A melodia crescente ardia como chaga em seu peito ainda inerte pelos sentimentos contraditórios. A angústia por rever antigas cenas sem poder mudar o desfecho e a revolta por ser tão letárgico condensadas numa lamúria profunda, que não haveria volta. Era fatal. Era o ponto final.

Refugiou-se num sorriso falso e trivialidades quaisquer para acalmar os ânimos e não o desertar por completo, como sempre desistia das situações fadadas a serem desprezadas. Entendeu naquele instante que era o fim. Não suportaria recomeçar uma vez mais e vê-lo cometer os mesmos erros banais nas primeiras voltas do relógio ou antes mesmo de a moeda tocar ao solo.

Ah!, como se acreditasse em azar ou sorte, coisas do acaso ou novas voltas dos ponteiros. Tão sonhador e ao mesmo tempo se caga de medo de tirar os pezinhos secos do chão enlameado desta podridão que tanto ironiza. Tão contraditório e irregular como são seus medos e traumas a atormentá-los nos momentos mais inoportunos. Despreza suas virtudes e cria limitações nos campos mais férteis. Teimosia e dedicação típica dos camicases.

Nada disse. Respirou fundo para readquirir uma espécie de torpor enquanto aguardava cartas melhores e apostas mais altas. Não era blefe. Mas sim um tiro certeiro por novos destinos, suaves caminhos. Sorriu para dissimular a dor que a dilacerava em milhares de fragmentos em technicolor. Dores do passado e feridas abertas ditariam os dados ainda rolando no ar. Pouco importava se fosse par ou ímpar; o destino estava selado antes mesmo de arremessá-los. Já viu e reviu essa cena tantas vezes, que sabia de cor o desfecho a seguir. Era questão de tempo.

Típica tragédia grega. Primeiro ato: o bom moço, educado e preocupado com tudo e todos. Narra seus sonhos e ideais utópicos com tanta ênfase que quase acreditava em suas mentiras. Emociona-se com alguns dos poucos bons gestos da humanidade e suspira dias esperançosos. Segundo ato: o soco no estômago e o choque de realidade. Metade do que sonhava era antiquado, a outra face, fantasias. A letargia e o medo misturados com um choro compulsivo, ao ponto de provocar pena aos mais desavisados. Terceiro ato: o desespero. Puro teatro de sombras protagonizado por um péssimo ator. O fim era inevitável e apoteótico…

Anúncios

1 Response to “terceiro ato”


  1. 1 André Hottër novembro 24, 2015 às 12:02 pm

    Entrei no ‘Blogs Recomendados do WordPress’ e lá estava o seu, Edu!
    Que bacana que entrei! 🙂
    Parabéns pelo espaço. Super clean e ótimos posts. Sempre gosto de conhecer novos colegas de blog assim vou aumentando minha rede e claro, conhecendo sobre diversos assuntos e até mesmo cultura.
    Bom, já estou seguindo para não perder as novidades. Sucesso.

    Estendo aqui o convite para conhecer o meu blog… Ficarei contente com sua visita! 🙂
    HuG!
    http://www.andrehotter.com
    👻 Snapchat: andrehotter
    Instagram: @AndreHotter


Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s




novembro 2015
S T Q Q S S D
« jun   fev »
 1
2345678
9101112131415
16171819202122
23242526272829
30  

Categorias

Acesso número:

  • 125,011 Páginas vistas.

%d blogueiros gostam disto: