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O PASSADO

Senti como se saísse de um labirinto. Ou de um corredor escuro, irreal, sufocante. Como se tivesse sido encontrado, semi-morte, após perde-me no mar, à deriva. Esta angustia sem fim durou o tempo exato do filme “O Passado” (“El Passado“, Babenco, 2007). O filme, sutil nas filmagens e técnicas cinematográficas; pesado nos diálogos e tramas narradas, constrói e desconstrói vidas.

Após o término de 12 anos de um relacionamento, a tranqüila separação logo é apresentada em diabólicas tramóias, em forma maquiavélica, com o intuito de uma reconciliação. Como antes? Nada será como antes, como não foi. Semelhante à fotografia, em que a falta de memória nos abriga a escrever no verso a data, local e nomes. Semelhante e inútil.

Todos personagens, emergidos em seu mundo particular, são merecedores de tratamentos psicológicos. Aliás, quem não precisa? A realidade que nos cerca, em um mundo repleto de trajas-pretas para dormir, nos transforma em escravos de alguma ‘droga’ para fugir da realidade: amor; religião, futebol, ciúmes. “Um café, um cigarro, um trago, tudo isso não é vício. São companheiros da solidão”, berrava Lobão há quase vinte anos. Depressivos, possessivos, desvairados, angustiados, solitários… , irremediavelmente loucos. A fuga da realidade em fantasias. Imagens que explodem diante nossas retinas passivas. Resistimos a tudo? Até quando?

Os devaneios provocados pelo ciúmes, em uma das relações, esbarra no senso-comum estereotipado da fragilidade feminina. Assunto esgotado na literatura, cinema, teatro, tv… E, ao meu ver, ultrapassado. O corriqueiro cotidiano – opressivo pelos ponteiros dos relógios, fabricando tortura da mesma maneira de uma linha de produção – traz à tona a fragilidade da solidão humana. Homens e mulheres tornam-se mais ciumentos, ao passo que se tornam mais livres, ao mesmo tempo em que procuram a estabilidade de um relacionamento, mesmo que inventado, mesmo que fracionado, mesmo que incompleto, mesmo que baseado no sexo, mesmo que de aparências.

Citando Freud, o amar é transferir o sentimento para alguém. A temática principal do filme, atualíssima, vem ao encontro de recentes pesquisas sobre divórcios. O consumo de cocaína é esquecido pelo doentio – e cego – ciúmes. A solidão e angustia do dia-a-dia nos faz projetar no outro as nossas maiores frustrações. Não repartimos, não nos transferimos, não doamos nada a alguém. Cobramos e cada vez mais e mais. Sísifo da “pós-modernidade”. Responsabilizando a outros a nossa felicidade. Procurando em terceiros motivos, desculpas e justificativas para esconder nossos medos, traumas e fracassos.

Os sentimentos foram dando vazão a outras formas de sentir. Drogas sintéticas, consumismo, perda de ideologia, falta de esperança e a entrega exagerada ao hedonismo, fazem que os sentimentos mais puros dêem lugar a algo com gosto plástico. A virtualidade desprendida com os “tempos modernos” está acorrentando a humanidade à uma não-revolução sentimental. A solidão caracterizada nas grandes metrópoles está presente em nossos medos, ao ponto de nos amarrar em sentimentos sem sentidos, em relacionamentos fracionados, em vidas incompletas. À nada.

A alma humana nua, como mais um personagens do filme, explorando a nossa pequena alienação, personificada na busca, equivocada, de um prisioneiro fragmento amoroso, destituído de paz e alegria, sacrificada pelo dogmas pragmáticos dos falidas instituições sociais. A nudez censura pelos nosos olhos e intelecto tabulados nas antigas barbaridades institucionais, que nos condena à pressão limite. Como válvulas de escape, o amor torna-se um jogo. “Ao vencedor, as batatas”.

Mergulhados nesse universo, a película de Babenco mostram, em ângulos perfeitos, a solidão urbana mascarada em um relacionamentos vazios. Como uma tonel de pólvora prestes à explodir, essas relações remetem a caótica perda da valorização aos sentimentos necessários à humanidade. Como lobos solitários, vivemos. O sexo, mais de um século depois, ainda é um tabu, ao mesmo tempo é uma droga tranqüilizante da depressão dos caóticos centros urbanos. É a heroína do século XXI, o LSD dos novos hippies sem contracultura. ROLETA-RUSSA.

Resgatado do meu naufrágio particular ao término do filme, sai da sessão com a visão de uma dura realidade, encoberta pela minha visão “cor de rosa” de um mundo enfeitado por música, literatura, cinema e esperanças de um mundo “mais justo”. Utopias, que cada vez mais luto para não perder. Em um mundo fracionado, em quem milhões de imagens explorem, aprendemos a ter sentimentos mediados por efeitos midiáticos. O passado, cada vez mais presente, projeta a solidão acompanhada.

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“EU FIZ QUERÔ”

OU HISTÓRIAS DE CINEMA COMO ALMA. ALMAS QUE FAZEM CINEMA.

“Na minha comunidade, me chamavam de mentiroso”, diz, entre risos, o jovem ator Maxwell Nascimento, personagem central do longa Querô, baseado na obra do Plínio Marcos, (Carlos Cortez, 2007), que estréia nacionalmente dia 14 de setembro. Afinal, mais de dois anos separam os últimos dias de filmagens até os dias atuais. O bate-papo envolvendo o diretor do filme, Carlos Cortez, atores, produtores, aconteceu após a exibição do documentário “Eu fiz Querô” (Carlos Cortez, Eduardo Bezerra e Samuel de Castro, 2007), realizado no CCA da Unisantos.

O documentário aborda todo o processo de preparação do elenco do filme. Editado de um material bruto de mais de 700 horas, “Eu fiz Querô” nos brinda com os “argumentos do coração”. Desde o início do documentário, a sensibilidade à flor da pele nos embala. Primeira cena, a premiação do Maxwell Nascimento, como melhor ator, no festival de Brasília, que segundo Cortez é o festival mais crítico do país. “Lá, se o pessoal não gostou do filme, levanta e sai no meio da exibição”. Maxwell concorreu ao Quiquito com, entre outros, Caio Blat

Em seguida, a preparação do elenco, desde o processo de escolha, envolvendo mais de 1200 jovens das comunidades de Santos e Região. Cortez explica que destes 1200 jovens, 200 passaram para a segunda fase, e destes 40 foram para as oficinas. “O processo foi simples, na primeira seleção, com as câmeras ligadas, os que respondiam as perguntas feitas pela equipe com reflexão passariam. Na segunda, quem se entregasse de cabeça e coração nas dinâmicas chegariam às oficinas”. Os 40 selecionados ficaram sobre a tutela do talentosíssimo Luiz Mario Vicente e sua equipe.

Foram oito semanas de oficinas. Capoeira, dança, interpretação, aulas e palestras, com um único propósito, deixar floresce o sentimento nos corações acostumados com tanta dor. “Meu coração é um recheio, e eu sou por inteiro”, recitava Beto Áudio, professor de interpretação. Aos poucos, os jovens deixaram brotar as mais sutis demonstrações de sensibilidade. Nas aulas de dança, seus corpos bailavam ao som vindo do interior de cada um. “A música brotou de dentro do meu corpo”, comenta sorrindo um dos alunos.

Semana a semana, o documentário mostra a edificação de algo maior que as personagens, e sim, a construção de sentimentos e humanização dos 40 garotos. “Eu sempre acreditei neles, mesmo antes de conhecê-los. Nas periferias que surgiram os maiores gênios da cultura brasileira. Cartola, Pixinguinha, Nelson Cavaquinho, Geraldo Filmes”, comenta Cortez.

Fica latente no documentário que no decorrer das gravações o entusiasmo tomou conta de todos. Nos bastidores das filmagens, é nítida a amizade entre os atores. Tendo como plano de fundo o cais de Santos (não poderia ser diferente, tratando-se de uma obra de Plínio Marcos), boa parte das filmagens realizadas na região periférica, abandonada dos olhos da opinião pública, alguns garotos descobriam a magia do cinema, de dentro para fora, de forma visceral. “Eu nunca tinha ido ao cinema antes, além de ser longe, era caro. Pensava que ali não era o meu lugar”, analisa o ator Maxwell. Da amizade e da magia do cinema resultou as Oficinas Querô. Proposta vinda dos jovens em fazer arte e, assim, trazer um mundo melhor à comunidade. Infelizmente, nem sempre é assim, segundo o diretor do longa, alguns jovens voltaram ao tráfico. “Um deles me disse: Muito obrigado por tudo, aprendi muito com vocês, mas essa é a minha sina, e tenho que cumprir”, lamenta Cortez. Lamentamos com ele.

O filme Pixote – A lei do mais fraco (Hector Babenco, 1981), revelou o problema da fragilidade emocional do estrelato instantâneo. Desde então, todo o cineasta que se propôs em buscar talentos escondidos tem tomado cuidados especiais. Foi assim com o Walter Salles, no Central do Brasil (1998), ou no Cidade de Deus (Fernando Meireles, 2002). Em Querô não foi diferente, mesmo que a criação das oficinas, que levam o nome do filme, tenha acontecido por acidente. “Nada disso [a oficina] estava nos nossos planos. Não viemos fazer assistencialismo, viemos para fazer um filme e ponto. Foi um processo natural, vindo dele, nós apenas abraçamos a idéia”, comentou Cortez, ao passo que fumava tranquilamente seu cachimbo.

Simpatia e bom humor não faltam para o auto-intitulado tímido Carlos Cortez. Pacientemente atendeu à imprensa local (estudantes ávidos por entrevistas para seus blogs, ou para os veículos laboratoriais, além de TV e jornais da região). Cortez falou de quanto é efêmero o sucesso. “O Max (Maxwell Nascimento) ainda está deslumbrado com o sucesso, mas lentamente vai voltar à realidade. Vai ser duro. Uns garotos falaram que não querem mais voltar à comunidade, eles estão em um outro mundo e não tem com quem conversar. Eles estão em um outro universo. O choque cultural foi imenso”.

Em uma das mais belas cenas do documentário, e certamente do longa, a atriz Alessandra Santos (Lica), dona de uma linda voz, canta suavemente a belíssima canção do filme. A emoção toma conta de grande parte do público presente. Lágrimas rolaram, não apenas dos meus cansados olhos, mas também de outras pessoas ao meu lado. No telão, duas almas envoltas em tamanha sensibilidade. São estas imagens belas que me vêm à mente ao fechar os olho e lembrar do documentário.

As últimas cenas do documentário coincidem com a última cena filmada do longa. Lágrimas, despedidas e na cabeça a certeza de um trabalho bem feito. Acabou, lamentam alguns. Ecoa em minha mente as palavras de agradecimento que o professor de atuação, Beto Áudio, fez ao término de seus trabalhos. Depois de uma emocionada e linda oração, o “obrigado” com as lágrimas na garganta (de todos).

Para saber mais:

Oficinas Querô
Blog Oficinas Querô
Querô – O Filme
Trailer QUERÔ
A obra – Querô: Uma reportagem maldita
Plínio Marcos


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