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Até morrer solto no coração da liberdade

Certa manhã, o sonho intranquilo me despertou de um cataclismo desvairado. Alguma coisa não fazia mais sentido naquela orquestra estranha e familiar de cada dia. Não eram apenas as horas mortas, notas tortas ou a repetição de datas maquinais. Algo sem conserto e disforme se quebrou por completo. O fim de um ciclo que sequer havia dado as primeiras voltas. Não era como as armadilhas do passado, das quais jogava num verso sujo e seguia passos desconexos diante do escuro futuro incerto. Percebi que as harmonias, compassos e ritmos fugiram para nunca mais volta. Via em uma foto em preto e branco os melhores anos de minha vida consumidos pelo desespero banalizado. O que me restaria daqui para frente?

Tomei um café forte e amargo para seguir, mesmo sem saber ao certo para onde iria ou se forças teria para manter o coração tranquilo e a mente quieta. O gosto da cafeína sem açúcar tinha se tornado a única companhia dos momentos mais improváveis. E eram tantos. Quedas de desfiladeiros que insistia em me dependurar. Vejo embaixo um precipício. É ali que vou bater? Não quero ver cenas se repetirem em minhas retinas incrédulas. Medo? Quem sabe? Preciso rever meu discurso contra a vida. A casa e a cabeça bagunçadas me indicavam os passos do derradeiro fim. Uma triste canção lentamente enchia o coração vazio de uma espécie de esperança ainda sem forma. Sabia que acabaria antes mesmo do último acorde. Era fatal.

Não percebi naquele instante, mas descia para o mais tenebroso labirinto sem volta. Não se tratava de dor recente ou passada; chagas mal curadas ou qualquer sensação que não se mede pelos calendários ou fitas métricas. Faltavam medidas, regras, luz, cor; tudo. Tudo que um dia fora capaz de afagar a dor e dissimular aquilo que escondia em anos de porções desmedidas de serotonina. A conta chegou sem deixar sequer um aviso. Sentia um revólver permanentemente apontado contra meu peito prestes a ser disparado. E seria eu quem puxaria o gatilho. Era questão de tempo. E tempo era tudo que não queria mais.

Os dias passavam velozes. E, no fundo, comemorava a forma como Chronos me devorava; já que Kairós me deixava desamparado. As cores e sons sumiram de minha vista. Preparava a cada novo dia a mesa vazia e a cabeça repleta de dúvidas atrozes. Será o fim do desencontro? Algum sonho perdido por aí? Essa paz inventada me custou litros de sanidade, que nunca tive e, acho, nunca terei. Faria alguma diferença?

Um Neruda sobre a mesa tentava recobrar a consciência perdida. Versos sobre o inverso que habitava minha pele. Não existiriam Drummond, Pessoa, Leminski ou Meireles capazes de me despertar do transe profundo. Guardarei minha poesia pequena com trapos, restos e melancolia que não consigo me livrar. Fazer as malas ou a barba tanto importa. Tudo remete ao cheiro de uns 30 anos atrás. Único desejo que nutro é tornar-se um acrobata insano a bailar entre abismo e decotes até morrer solto no coração da liberdade. Por enquanto, apenas caminho sobre cordas como se portasse medalhas, títulos, vaidades ou qualquer coisa que assim os valha.

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terceiro ato

 

Nada disse. Baixou a cabeça para esconder as lágrimas frias e lentas escorrendo pelos olhos inutilmente maquilados. Trabalho delicado, executado com destreza e típica cerimônia, uma espécie de martírio para agradar sua metade. Pensou em tudo que fez, dos conselhos não ouvidos, sonhos jamais realizados, dos planos desfeitos na primeira trovoada e feridas dormentes. Ah! Eram tantas.

Quase estremeceu de raiva com a teimosia tola, ingênua até, de como ele se entrega fácil, sem se impor ou deixar o dado rolar no pano. Nunca acreditou em sortes, embora azar fosse sempre sua aposta certeira. Fraco, sempre o foi. No começo, achava graça de seu jeito meigo e carente, comedido e indefeso, sincero e desesperançoso. Temia machucar alguém e, por isso, pisoteavam-no ferozmente sem que percebesse. Ilusões: tinha um quê de heroico ou nobre. Em vão.

Nada disse. Respirou fundo como a engolir o amor-próprio consumido pelos anos de omissão e o orgulho ferido. Os olhos fixos num ponto distante e o sorriso dissimulavam a paz ausente dos ombros cansados de o assistir definhar, imóvel diante de seu medo mais banal. Eram tantos. Algo se quebrava em tão minúsculos pedaços que sentia sua dor refletida numa espécie de caleidoscópio.

Na boca, o gosto ocre do sangue a mutilava com a mesma precisão das cordas e metais de uma orquestra sinfônica. A melodia crescente ardia como chaga em seu peito ainda inerte pelos sentimentos contraditórios. A angústia por rever antigas cenas sem poder mudar o desfecho e a revolta por ser tão letárgico condensadas numa lamúria profunda, que não haveria volta. Era fatal. Era o ponto final.

Refugiou-se num sorriso falso e trivialidades quaisquer para acalmar os ânimos e não o desertar por completo, como sempre desistia das situações fadadas a serem desprezadas. Entendeu naquele instante que era o fim. Não suportaria recomeçar uma vez mais e vê-lo cometer os mesmos erros banais nas primeiras voltas do relógio ou antes mesmo de a moeda tocar ao solo.

Ah!, como se acreditasse em azar ou sorte, coisas do acaso ou novas voltas dos ponteiros. Tão sonhador e ao mesmo tempo se caga de medo de tirar os pezinhos secos do chão enlameado desta podridão que tanto ironiza. Tão contraditório e irregular como são seus medos e traumas a atormentá-los nos momentos mais inoportunos. Despreza suas virtudes e cria limitações nos campos mais férteis. Teimosia e dedicação típica dos camicases.

Nada disse. Respirou fundo para readquirir uma espécie de torpor enquanto aguardava cartas melhores e apostas mais altas. Não era blefe. Mas sim um tiro certeiro por novos destinos, suaves caminhos. Sorriu para dissimular a dor que a dilacerava em milhares de fragmentos em technicolor. Dores do passado e feridas abertas ditariam os dados ainda rolando no ar. Pouco importava se fosse par ou ímpar; o destino estava selado antes mesmo de arremessá-los. Já viu e reviu essa cena tantas vezes, que sabia de cor o desfecho a seguir. Era questão de tempo.

Típica tragédia grega. Primeiro ato: o bom moço, educado e preocupado com tudo e todos. Narra seus sonhos e ideais utópicos com tanta ênfase que quase acreditava em suas mentiras. Emociona-se com alguns dos poucos bons gestos da humanidade e suspira dias esperançosos. Segundo ato: o soco no estômago e o choque de realidade. Metade do que sonhava era antiquado, a outra face, fantasias. A letargia e o medo misturados com um choro compulsivo, ao ponto de provocar pena aos mais desavisados. Terceiro ato: o desespero. Puro teatro de sombras protagonizado por um péssimo ator. O fim era inevitável e apoteótico…

Dragões não mais existem

“Descansado estava eu,
porém ele me quebrantou;
e pegou-me pela cerviz,
e me despedaçou;
também me pôs por seu alvo.”
Jó 16:12

I

Um dragão dorme em meu quarto. Mentira, nem um dragão conseguiria dividir o espaço comigo. Mesmo assim, insisto em dizer que um animal inexistente e que expele fogo pelas ventas dorme a meu lado. Não que isso me torne melhor, apenas me faz esquecer as dores passadas e ainda não cicatrizadas. Ele, o dragão, veio morar comigo depois de um dia tedioso de janeiro. Manhã sem sol e repleta de desilusões adormecidas. Caia uma chuva fina a molhar a alma ainda inerte de sentimentos contraditórios. Pessoas andavam apressadas e sem rumos pelas ruas cheias de automóveis e desamores. Achei-o, meio sem jeito, entre o meu desespero a sua desconfiança. Tive pena. Uma espécie de reconhecimento mútuo, parecia que nos conhecíamos de outras vidas, outras longas madrugadas de insônia dividida. Tínhamos gostos semelhantes e nos emocionávamos nos mesmos filmes, livros e poesias sem cores. Nele, pude ver em um espelho refletido meus maiores medos e pecados; sonhos e ilusões; afetos e carências. Tudo misturado. A diferença entre nós – além dele não existir – é que cospe fogo; eu apenas afasto as pessoas.

Trouxe-o. Não recusou nem ofereceu resistência. Seguia meus passos, cabisbaixos, pelas ruas vazias de sentimentos e iluminadas por outdoors. Seus passos tímidos eram abafados, apenas, pelo som de veículos que nos acompanhava. Em alguns instantes, o perdia de vista. Em outros, ele seguia à frente, como a me mostra os caminhos rotos que deveria traçar. Meus planos contraditórios esperavam apenas cruzar com uma certa pessoa em um determinado local indefinido; tudo era disforme e confuso naquela época. Procurava a todo custo essas coisas que todos chamam de felicidade. Talvez a ilusão de um ser mitológico compartilhando meus devaneios mais secretos dar-me-ia forças para erguer a cabeça quando fosse forte a tormenta. Talvez, não…

Meses passaram na mais resoluta paz. Dias desses, ele estava sem ânimo, sem alegria. Apático, manteve-se semanas calado, em seu canto. Como a se aclimar no deserto que resumido no meu quarto, ou coração? Não sei. O medo da solidão rondou-me, novamente, às portas da percepção. Entreguei-me às remotas chagas que cicatrizam lentamente meu peito. Procurava respirar fundo, na inútil agonia de encarar as marcas de meu rosto no espelho.

Em um sábado em que voltava de lugar algum, meu dragão imaginário explodiu-se em cólera. O motivo, embora não soubesse, percebi ser comigo. Como era a única pessoa que me ouvia e fingia me compreender, procurei segurar suas patas e abraçar seu corpo desproporcionalmente maior que o meu. Recusou-me o corpo, virou-me a face. Disse que estava em um momento diferenciado e se recuperava de dores passadas. Pediu-me calma, paciência. Deu-me ordem para esquecer meus traumas, dores passadas e futuras. Aconselhou-me procurar analista, tomar calmantes ou antidepressivos. Não argumentei. Obedeci.

Como de costume, preferi o silêncio às palavras amargas. Em meu rosto alvo, tentei transmitir que acataria as ordens e daria um novo rumo aos passos contraditórios. Era minha insegurança novamente a governar o espírito confuso. Com os olhos perdidos no horizonte infinito entre nós, deixei-me levar pela falta de assunto. Passou a relatar, durante horas, seus planos do passado e anseios de um futuro vindouro. Frases vazias que se perdiam no espaço opaco. Senti-me estrangeiro em visita à terra natal. Palavras, emoções e o silêncio quebrados pela sua falsa retórica e antigas chagas. Com um punhal, cada verbo saído de sua boca me feria a alma.

Depois de me contar sobre seus amores, alegou que estava tarde e se despediu com um abraço sem graça, sem vontade, quase que maquinalmente. Foi. Eu iniciei uma caminhada sem rumo pela noite fria, perdido em labirintos sem cor, afeto ou esperança. Caos pelas alamedas escuras da vida. Olhava as pessoas que circulavam ao redor e ouvia suas conversas na vá esperança de um novo começo. Agia como se o que machucava em meu âmago era a mesma dor compartilhada nos quatro cantos do mundo. Egoísta nato, achava ser aquela a maior querela vivida. Bobagens. Apenas via as pessoas em suas rotinas maquinais: um branco liso e calmo. Aquilo me atormentava. Ninguém me perdoaria se visse o que meus olhos teimosamente captam. Era apenas um pedido de socorro.

Numa roda gigante, o mundo a girar dentro de mim. Escondia de meu inconsciente o medo da solidão. Ele se foi. Fiquei o fim de semana sozinho entre a autopiedade e o desespero. As horas que não passavam. Tudo era infinito e vazio sem sua companhia inexistente. Escrevia sem nexo ou ordem a caótica inexperiência de meus temores sombrios. No pensamento, via como um filme ou um sonho interminável sem final. Dragões desfilando em carros abertos com céu de brigadeiros e balões coloridos soltos no ar. Crianças sorrindo e saltando de euforia repentina. Seu sorriso que tanto me inspirava, agora, me dava calafrios. No trecho seguinte, estávamos em uma praia deserta, para se esconder da popularidade repentina. Refugia-se em um semi-anonimato dentro de mim. Diziam-me que ainda sou jovem para entender certas coisas: como a solidão medonha e o desespero em frente ao romance. Afinal, não queria ninguém a lhe esperar com os olhos fechados e a reclamar das tarefas diárias. Parei de sonhar com estrelas distantes. Não seria correto chamá-la de sonho esta forma sombria que se passou. No meio do lixo todo, procurei o verdadeiro amor que estava em mim. Não encontrei. O que os nossos sentidos captam não são legítimos? A dor é real?Ou  nada sabe e omite o sentir. A realidade inexiste? Ou sucumbe no porão da falta de memória. Como você me dói. Era a vida que seguia.

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II

Um dia desses, em que deviriam não existir, o dragão bateu bêbado à porta. Tropeçava entre as patas, que mal conseguiam seguir em linha reta. Jogou todas as roupas no chão, revirou os móveis, rasgou papéis. Ofendeu-me. Disse palavras desprovidas e dormiu em meu colo. Com medo, levei-o para o banheiro e lavei seu rosto na pia; joguei-o embaixo do chuveiro frio. Despertou de um transe profundo. Disse-me que andava tão triste que nem conseguia mais chorar. Entregou-se aos vícios mesquinhos e sombrios.

Entre soluções e lamentações, falou que contava nos dedos quem sentiria a sua falta se um dia morresse. Desejava a morte em um novo apogeu. Ri para disfarçar os sentimentos de pena que se apossaram em mim. Ele sorriu ao entender o que meus olhos expressavam. Tocou minha face, pela primeira vez, e recitou que eu sentiria a minha ausência. Achei graça, senti-me novamente especial e querido. Com fúria no olhar, pronunciou, enquanto tocava Beatles ao fundo, que continuaria a rodar a roda-gigante que o mantém vivo. Ali, senti meu coração partindo em milhões de fragmentos minúsculos. Poeiras sobre a eternidade.

Lágrimas escorreram pelos nossos rostos frios, enquanto tentava acalmá-lo. Dizia, sem convicção, que tudo ficaria bem. Sabíamos se tratar de uma ilusão passageira. Entre seus dentes cariados e o bafo de cachaça ordinária, ouvi de sua boca velada que eu temia mais o amor que a morte. Estava certo! Sem dúvida. Chorei, uníssono, entre o banho e o trajeto de volta à cama. Desta vez, dormi no chão para melhor velar a dor do dragão. No fundo, eu sabia que ele tinha razão e que a felicidade não encontra morada na solidão.

No dia seguinte, ele se foi. Vi-me livre: preso em correntes de lágrimas e saudade. Fazia frio abismal. Eu compreendi que teria que voltar ao que sempre fui todos os dias. Sozinho no quarto, longe do resto e da solidão de fora: retrocederia a uma criança assustada de antigamente. Aquele menino que nunca partiu  e ainda joga os dados do destino, em uma espécie de brincadeira sem graça. Teias do destino; tudo ilusão. Senti vontade de desistir, entregar os pontos e perder-me em estradas de poeira e trajetos irregulares. É difícil aprisionar os que têm asas e deseja devorar o mundo. Por quase um segundo, desejei o fim. Seguinte depois, senti a saudade devorar-me por dentro. Força estranha que move o contraditório instinto e escancara a dor no ponto mais sensível. Mapa ao acaso?  Caminhos que não levam a lugar algum? Às vezes assim; outras, indefinidamente: você?

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III

Os dragões detestam o que não é belo. Por isso, toda noite enfeitava-me na esperança bucólica de te ver voltar para meus braços cansados. Entre copos de bebidas e a solidão de amigos, fui, lentamente, desistindo de seu regresso. Na sombra do copo, no alto da noite, no frio das metrópoles, eu quis esquecer do que não saia de minha cabeça. Por que se foi? Não sabia o que te fez perde-se de mim. O que mais doía na alma era compreender o motivo de ter me escolhido, se entregado e dias depois, desistido. Quis perder as cores, os gostos, tudo que um dia me trazia sensação boa. Distrações que me trouxeram paz nestes últimos dias sagrados. Segurei-me o que pude. Explodi em choro compulsivo. Não via as semanas que passaram velozmente. Entreguei-me aos vícios pequenos e aos prazeres solitários. Raiava o sol ao horizonte, mas meus olhos corrompidos não enxergavam a clarividência. Via apenas seu leito vazio. Aquela falta me esgotava tanto.

Sem sono, rondando o quarto sombrio no avanço das horas, pegava-me a pensar em você. Perdi São Paulo, perdi Santo Antônio e os demais os santos católicos. Não me perdoo por perder São Paulo, Santo Antônio e os demais os santos; tampouco, a velhice de meus pais. O desespero matinal a atormentar na madrugada fria, interminável. Ouço nossas músicas e me dá uma saudade infernal de tudo que se foi com a sua ida. Onde está? Dentro de mim, uma vontade doentia de acabar com meus relatos e colocar um ponto final nessa dor insana que me alimentava. Deveria ter chorado a dor enorme de ter perdido São Paulo, Santo Antônio, os demais os santos e a velhice de meus pais. Recordo um último abraço quente entre a confusão de fora e dentro de meu casaco. Uma dança macabra, despedidas e adeus.

Duas da manhã e a ausência do dragão martela minha cabeça como a lembrar dos planos não concretizados e a incerteza do amanhã. Tudo passageiro aos olhos incertos e incrédulos. Recordo São Paulo, Santo Antônio, os demais os santos e a velhice de meus pais. Lembro-me de seu terço pendurado na pata dianteira esquerda, suas rezas e promessas não compridas. Sua vã filosofia barata e superstições tolas. Perdi tanto tempo, tanto plano, e talvez tenha perdido você. Deixei abafados os resquícios de palavras soltas no ar. A trajetória e velocidade da queda livre são incontroláveis. Enquanto você preparava o veneno mortal, temo com sofreguidão a taça fatal que me contempla. Sobre a mesa, o resumo imperfeito de nossos relatos. Cabeças ao vento e o destino que se despede sobre os mares.

Olho para o relógio no instante que encho meu copo com mais uma dose de um destilado ordinário. Pesa na cabeça o excessivo abuso de álcool comprado pelo menor preço. Encaro as minhas poucas fotos espalhadas pelo corredor que me conduz a outro copo; passam-me os anos aos pares em frações de segundos. Monto na memória os momentos em que não estivemos juntos: sua ausência apaga a última chama ainda vida em meu coração.

Camas repartidas, sentimentos confusos. Volto a sentir falta do que nunca possui. O gosto amargo do destilado ordinário fede em minha derme. Sinto uma violenta força empurrando meu corpo ao chão. Deitado, peço para reencontrar-me com São Paulo, Santo Antônio e os demais cristãos de devoção de minha mãe. Fé perdia a cada dessabor. Tento relembrar a velhice de meus pais e me acho perdido na solidão das grandes metrópoles. Por que partiu se permanece em mim? Como explicar as ondas que controlam os sentimentos impuros? Voltas completas de um círculo vicioso ilógico. Perdido sobre os trilhos do caótico medo, sinto envelhecendo com a mesma velocidade de meus pais. À porta, despedindo-se de mim, São Paulo e Santo Antônio apressam-se para não perderem o trem, que partirá em breve. Fiquei.

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IV

Ele voltou. Relatou seus dias de glória e aventuras. Abraçou-me como nunca, com lágrimas de sangue na boca, disse que sentiu saudade. Prometeu nunca mais partir. Sorri, virei a cabeça: sabia que era mais uma de suas peças diabólicas. Minha carência e insegurança fizeram que o recebesse de volta, com as portas abertas e o coração em prantos. Somente quem amou consegue entender a dor cicatrizante no peito e as marcas de outrora.

Em uma noite em que o vinho e a música conduziram o destino, o dragão me disse que era de Virgem e tinha a lua em Leão. Retribui falando que era de Peixes, ascendente em Sagitário e lua em Júpiter. Falamos de filmes, livros e poemas. Listamos os melhores discos da história, discutimos Sartre, Borges e Caio Fernando Abreu. Recitamos poemas, lembramos de cenas e filmes clássicos. Disse que sentia minha falta e gostava de meu abraço. Olhamos o nascer do sol em uma brecha ínfima entre a janela e o prédio ao lado. A luz raiava entre os pequenos espaços de nossos corpos nus. Para matar a saudade das datas esquecidas, o dragão pegou um violão e entoou algumas músicas. Leros e Boleros. Tangos e outras delícias. As harmonias trouxeram paz ao meu peito, que dias antes fora desfeito. Baixinho, ao fundo, o som da cidade acordando enquanto tratávamos de sonhar na manhã fria de inverno. A paz regressava ao peito cansado de esperar em vão. Era fatal.

De forma doce e angelical, perguntou se tentei me matar alguma vez. Desviei o olhar. Respirei fundo e tentei imaginar sua reação se soubesse a verdade. Cabisbaixo, neguei sem força ou convicção. Mantive os olhos fixos ao chão; lembrei de uma velha canção que minha avó cantava; e das novenas que minha mãe fazia; o cheiro de cigarro na camisa de meu pai, velhas brincadeiras da infância e as peças de meus irmãos mais velhos. Memórias que perderia se tivesse puxado o gatilho. Arrependi-me de meus pecados. Senti o gosto ocre de sangue na boca. O brilho do sol que entrava pela persiana semi-aberta iluminava minha compulsiva dor. Embora sombria, era uma cena de bela plástica.

Com uma de suas patas, levantou meu rosto, viu minhas lágrimas e compreendeu o porquê de mentira que lhe contara. A verdade fere mais que o amor. Calou-se. Vi em seus olhos o desgosto, a apatia e cólera de antigamente. Já provara seu gosto amargo. Naquele instante, compreendi que o perdera em definitivo. Ele sentenciou sua partida sem ao menos esboçar uma desculpa. Na parede, um retrato de minha mãe redobrava o silêncio abafado pelas suas asas. Talvez por medo, talvez por piedade, voou para longe. Olhei o horizonte perdido quando acordei na tarde seguinte. Sabia que nunca mais voltaria.

Rasguei cartas, bilhetes com telefones e nomes escrito em capas de livros e em versos e prosas. Joguei fora relatos intermináveis e quadros em branco. Desejei sua volta, seu perfume que me provocava alergia, sua cólera que me consumia e palavras vazias contando-me o tédio de seus dias…

Deixei a saudade consumir como chaga a queimar a imensa dor que se alastrava dentro do meu descompassado coração sem cor, credo e esperança. Fecho os olhos e ouço o leve som do bater de asas e a dor que me restou depois de sua partida. Como uma orquestra dodecafônica, o silêncio de meu quarto traz-me angustia, dor e incertezas jamais entendidas. Tentei livrar-me de meus pecados e expulsar as feridas da alma. Recomposição em estado bruto. Passei dias caminhando no escuro e com palavras sem sentimento na boca. Ideias confusas e interrogações. Pregava o fim da vida; o apocalipse repentino: a redenção de pecados não cometidos. Imaginei que o mundo deveria estar ao contrário. Lobo solitário e egoísta, acreditava ser o único na direção certa. Tolo engano dos descontentes.

As folhas do calendário continuavam a cair. As horas não tinham sabor, graça ou cor. Tudo disforme. Preenchia-me com a pequenez dos prazeres burgueses. Era um sábado à noite. Depois de sessão de cinema sem graça e café amargo, senti um velho perfume. Aquele aroma nunca passaria por mim sem trazer estragos profundos. A rinite me atacou novamente como nas melhores datas da memória seletiva quase amarelada, esquecida. Reconhecera aquele cheiro e aquela alergia de outras estações, outros carnavais, outras ilusões, outras fantasias não vividas. Um novo capítulo ou o epílogo? Encontrei um dragão sozinho. Sorri. Retribuiu. Talvez por ser inverno, levei-o comigo. Sabia desde o princípio do desfecho que se desenhara. Os dragões não mais existem.

Falando da Vida

Vai-se, novamente, baby blue. E pensei que seria apenas mais uma volta para depois regressar a meu peito cansado de esperar algo novo a cada instante. Ledo engano. Os ponteiros correm ao contrário quando não está. Novos problemas e sempre as mesmas soluções: um passo de cada vez, toda vez; siga em frente e adiante verás o novo amanhã. Balelas. Eu que choro feito fogo ao sol do meio-dia. Em vão. A cura tão longe. Como se existissem curas para poucas chagas.

Às vezes, acredito que sou capaz de mudar o mundo. No segundo seguinte, me pego a rir dos meus ingênuos devaneios; por que logo eu seria capaz de alterar aquilo que não quer ser transformado? Talvez nunca será. Noutras, desconfio se devo duvidar de meus instintos mais belos e passos contraditórios. Sempre me calo quando não está.

Ainda há pouco, era apenas uma imensa estrela prestes a mergulhar de cabeça no infinito instante entre nós. Agora, é uma gigante ira a devorar a grandeza do mundo. Vai, suje os pés na lama e alivie o peito. Tenha medo não; a barra sempre estará pesada demais àqueles que ousam desafiar o coro dos contentes. Somos tão poucos, mas ainda somos fortes. Até quando? Não sei! E quem é que sabe?

Enquanto você corria o mundo, eu sonhava. Preso em meus labirintos, não pude sorver seu veneno e nem te ver chorar quando mais precisou de meus conselhos inúteis. Não que eles eram válidos, mas afagavam sua alma nos instantes que se entregava à deriva na noite escura. É esta imensa oculta magia sobre suas retinas que me cativa. Uma força a me deixar inerte. O tempo passou. Sinto a introdução leve, uma guitarra distorcida e a bateria a carregar a harmonia surreal. Berro: “felicidade não serve ser não for com amor”. Não deu para segurar.

Eu me pego a pensar sobre o silêncio das estrelas e a morte de constelações. Você me acorda para a vida e cita a morte de crianças regimentadas para servir ao tráfico ou às grandes corporações. É esta sua sensatez que me deixa desorientado. Um sino toca forte em mim; Lennon canta em algum canto esquecido de meu subconsciente: “She’s not a girl who misses much”. Como ao refrão seguinte, concordo.

O azul de seus olhos traduz som e fúria. Nunca tive medo de partidas, mas também não deixo as malas prontas. Melhor achar que sempre haverá o amanhã para escolher um novo terno ou encarar uma fila interminável. Algo é certo, um dia não mais existirá. Que nesta data eu seja pego de roupas limpas e a barba feita, o que é raro. Não gosto de incomodar.

O seu mundo

As curvas do tempo seguem sem deixar que malas desfeitas renasçam em sonhos feitos das cinzas herdadas dos passos errantes. Ao acaso, as horas seguem sem uma ordem conexa, assim como o brilho dos seus olhos a me lembrar da jornada diária. O labor maquinal serve apenas para poder aproveitar cada instante da primavera vindoura. Por mais que as noites frias intermináveis pareçam permanentes, os primeiros raios de sol da nova estação virão para nos brindar o começar de um novo ciclo.

Vejo seu aceno e a estrada a engolir, em velocidade máxima, a lágrima de saudade. Arrumar as gavetas bagunçadas e tirar pó da prateleira é fácil àqueles acostumados a seguir em frente, apesar de tudo (ou por causa de nada). Mas como reorganizar o caos que se fez com a sua ausência. Às vezes vejo a vida como a um reflexo em um espelho: por mais que a imagem se conceba perfeita, sei que se trata uma representação próxima daquilo que acostumaram a chamar de realidade. Isso me deixar pensativo e triste.

No entanto, quando você sorri sinto uma paz invadir-me por completo. Tudo faz sentido e sei a explicação do que se passa pelos meus os olhos. É o único sentimento a me faz calar voz e refletir que há uma força maior a controlar os invisíveis fios a manter o silêncio das estrelas. Nestas ocasiões enigmáticas, a vida se mostra muito maior que minha pouca Inteligência imagina supor. Apesar de sempre querer ter opinião sobre tudo, ao seu lado nem me importo sobre a constante expansão do universo. Nem mesmo se um dia o manto azulado dos cosmos poderá suprimir ao ponto de não mais existir. Como eu, você e a eternidade um dia.

São estas imagens fragmentadas que alimentam meus labirintos internos. Antes fosse Borges para traduzi-los de uma forma exata, segura. Sou apenas um narrador de sonhos desconexos, que nem conseguiu despertar a fim de impedir que o último botão de rosa caísse. Não sei o que mais me assusta, se é a vertigem ou a virtude: ambas me deixam entorpecido. Nestas datas, tenho a impressão que enxergo o futuro como uma clarividência viva. Depois volto à realidade e compreendo o pesar de meus atos distraídos. Sem a precisão das datas, tento jogar-me de cabeça diante do desfiladeiro. Às vezes saio vivo.

Alguns passos tímidos e distantes são seguidos em linhas tortas. Fotografias borradas, lembranças de momentos vividos e a interminável sensação do novo alimentam um lado que não sei classificar. Seriam valentias ou fugas incompreendidas? Como se fosse possível ter saudade do futuro disforme. Num segredo abstrato, via de passagem uma aquarela de momentos passados. Pintado em tons de azul e amarelo, sua fragilidade bela derreteu o gélido satélite em mim. E seu nome gravou-se para sempre no céu aberto. Ninguém, nem mesmo as rosas, tem cores mais vivas que seu sorriso.

Do passado sei quase nada. E nem me preocupo em saber. Sigo como que novo a cada dia. Um beijo e um adeus… definitivo. Não mais! Partir, chegar: são partes de uma mesma estrada incompleta. Sinto que está ao meu lado, mesmo quando minhas retinas cansadas não a conseguem enxergar. Percebo seu aroma tatuado em mim, assim como vejo todo o seu futuro, que nunca me escapará das mãos. Tenho os sentidos dormentes, o corpo cansado, a blusa suja, os cabelos cada momento mais rarefeitos e os dedos calejados. Mas tenho o coração puro e o raro desejo de mudar o mundo. O seu mundo.

Marte alinhado em Virgem

Todos estavam aparentemente em paz no instante que ele avançou pela porta. Cabelos sem corte e barba de vários dias, sentiu pavor ao encarar as pessoas que dançavam ao som de rock’s e outros barulhos. Procurou, entre a solidão de cada participante da reunião, um canto para se esconder da tormenta que seguiria. Não percebeu, mas desde que invadiu o salão com a sua timidez foi notado de longe. Ela estava próxima à janela, vendo a lua cheia que iluminava a noite fria dos corações vazios. Acompanhando a movimentação dos automóveis a procura de bares e outras fugas de medos urbanos, divagava sobre as neuroses escondidas nas metrópoles. Tentava em vão se manter equilibrada e conservar suas pequenas loucuras. Unhas roídas pela ansiedade de algo disforme e o cabelo cuidadosamente despenteado para afugentar os traumas de outrora. Entre unhas e dentes, assobiava Caetano Veloso; na inútil esperança de controlar os impulsivos gestos e palavras contraditórias aos sentimentos.

Quem passasse pela avenida no instante em que ela se postava à janela poderia imaginar que se tratava de uma pintura de Guignard ou uma clássica cena eternizada pelas lentes de François Truffaut. Bela como as noites frias e solitárias de Inverno, permanecia, cintura para cima, braços apoiados no batente e mãos segurando o queixo e o olhar teimosamente mirando ao firmamento. Na confusão de fora, as pessoas que passavam apressadas para aproveitar mais uma noite da conturbada vida moderna não seguiriam os pensamentos incompletos que a redimiam de pecados e traumas repentinos. Com uma força que nunca teve, deixou a companhia de livros, chocolates, filmes e o telefone mudo, para se aventura em um mini-universo de gente ávida por consumo momentâneo e em busca de prazer imediato. Tinha pouca resistência para bebidas alcoólicas, mas, descansando no batente da janela, um copo de plástico com gim barato e água tônica ordinária. Girava com a ponta dos dedos o gelo e a rodela de limão, na inútil tentativa de diluir o álcool e sorver a água. Ria, como sempre ria em momento de apreensão. Imaginava arrumando as malas e fugindo da realidade, como costumeiramente fazia nestas ocasiões. Pegava-se distraída e não percebeu o instante que ele a olhou pela primeira vez. Ao mirá-la, pintura estática com os olhos castanhos mergulhados na confusão de fora, fantasiou-se ao seu lado, em uma história estranha. Rumo aos desconhecidos mistérios das almas em ebulição, palpitava ao imaginá-la sorrindo. Na cabeça do rapaz, que escondia sua beleza na barba por fazer e no cabelo sem corte, os ruídos oriundos dos rock´s e outros barulhos se transformam em harmonias compostas por Guerra-Peixe.

Arquitetou milhões de maneiras de se aproximar da moça de cabelos castanhos parada diante à janela. O pavor do novo o fez estancar antes mesmo de dar o primeiro passo. Por precaução, procurou abrigo ao lado oposto, em um ponto que seria difícil ser avistado pela retina da menina absorta ao mundo a rodar do lado de fora. Distraída com a lua, sentia uma vibração diferente no ar. Talvez por ser sábado à noite e ter espantado o telefone mudo, achava-se contente dentro no pequeno universo que rodeava aquele encontro repleto de pessoas estranhas, álcool e dissabores. Amores do passado e marcas invisíveis a teriam feito desistir da vida em milhares de ocasiões. Em noite como aquela, costumava deixar ser conduzida em labirintos criados pelo inconsciente desejo de se perder por completo. Mas, no entanto, talvez pelo gosto de gim na boca ou o frio do lado de fora do casaco, estava diferente. Como criança que apronta, sorria na tentativa de diminuir o castigo que viria. Seu rosto ficou levemente vermelho e os olhos se espremeram para deixar o sorriso escapar a face e ganhar o salão, enquanto todos estavam preocupados em fugir de seus próprios demônios.

Por ser sábado à noite e os temores menores, que lhe roubavam os melhores momentos, terem ficados sobre a penteadeira junto a um livro de Michel Foucault, deixou que o sorriso a iluminar a face ganhasse o salão. Em um instante, pegou-se distraída mirando os olhos castanhos do rapaz de barba e cabelos sem corte. Na fração de segundo em que encararam os olhos um do outro, o tempo faz uma curva na linha imaginária que nos conduz e parou por uma breve eternidade. Como se tivesse acordado de um transe profundo, ele pôs-se a remontar acontecimentos que não pôde controlar. Os olhos incandescentes da moça reacenderam um brilho até então escondido em sua timidez exagerada. Sobrevoaria sobre o campo se tivesse asas. Livre em seus passos imaginários, desejou o final da festa para voltar ao conforto de seu quarto vazio e desorganizado.

Dentre os temores do rapaz, amargavam os sonhos desfeitos e a imensa vontade de cura instantânea. Tropeçava em astros distraídos, na inútil agonia de viver a vida em uma única noite. Distante dos olhos comuns, dois perdidos a espera de um momento mágico, união de duas constelações em rotas opostas e destinos iguais. O choque celestial de dois cometas vagando a eternidade na solidão da estrelas em busca da metade decaída. No instante que o tempo deu um pulo para se avançar a eternidade parada, Marte se alinhou em Virgem. O pressagio de um novo capítulo se desenhara entre os corpos cansados de desatinos e esperanças dos dois libertos para a vida. Alguns dias foram necessários até que criasse coragem a encarar novamente os olhos castanhos da moça de cabelos lisos que sentia no ar o nascimento de uma energia cristalina. Duas músicas estranhas e cerca de nove minutos separavam a entrada ao salão e o instante que lutava contra suas limitações. No ar, a voz de Lennon enchia o ambiente berrando: “I want you. I want you so bad”. Embriagado com o som e o momento que se aproximava, encaminhou-se para o banheiro. Compreendeu os anos que se passara quando sentiu um toque em sua face.

– Sente algo novo no ar?
– Como a vinda de uma nova era?
– Semelhante a isso, mas um pouco mais restrito. Talvez apenas para mim. Quem sabe, para você? Ou entre nós dois?
– A lua está em um brilho raro. Sou eu ou o efeito do álcool?
– Quando criança, ouvia meu pai falar sobre a ida do homem à Lua. Ele contava sobre o mar da tranquilidade. Eu imaginava um domingo de sol com a praia deserta. Lá sempre foi meu cantinho para me abrigar quando estava com medo. Fechava os olhos e me imagina na Lua a me esconder dos perigos.
– Eu ia para uma pedra em um antigo bosque. De um tempo para cá, lotearam o local e hoje tem um bairro repleto de arranha-céus e automóveis de consumo excessivo de combustível. Pouco restou do que era antes.
– Por que o homem quis destruir a lua. Não basta a gente?
– Nós?
– Não, o mundo. Todo o mundo. O mundo todo. Como fizeram com o seu bosque. Não entendo o porquê de corremos contra o tempo para juntar dinheiro e não ter um pouco de paz para poder usá-lo. Além de não ter tempo, falta alguém que gostamos ao lado.
– Não sei, talvez por se sentir sozinho. Talvez por egoísmo…. Talvez por ser parte do ser humano destruir tudo que é belo e colocar em seu lugar alguma coisa cinza, construída de concreto e ferro armado. Sem o meu cantinho, ás vezes, me sinto tão sozinha.
– Estranho mundo que se vangloriam estadistas e generais de guerras? Em meu mundo ideal, poetas vadios governariam as pessoas de corações partidos.
– Me leve para seu mundo?
– É preciso?

Ela sorriu.
Silêncio.

– Já sentiu as marcas do tempo?
– Sinto apenas, não o vejo. Na verdade, não sei ver muito bem as coisas. Apenas sinto e de uma forma intensa, como se eu fizesse parte de tudo. O tempo todo.
– Carrego no rosto o gosto amargo do tempo. Mas não sinto como ele passa, apenas vejo.
– Tenho duas vidas. Uma eu morri. Ainda carrego as cicatrizes. Renasci hoje, quando sua timidez invadiu a solidão das pessoas mesquinhas.
– Tentei me matar tantas vezes; as inúmeras vontades, se transformaram em algo corriqueiro. Cada novo desejo, mergulho no dia seguinte em busca de alguma coisa ainda inclassificável. Estava a sua espera para me tirar deste labirinto sem nexo.
– Eu te vi em um sonho. Faz tanto tempo que seu rosto se perder dos meus olhos. Mas ainda carrego suas marcas, seus desejos em mim.
– Trago tatuado seu gosto, seu rosto, tudo que me deixa em paz e tira meu sossego nos raros momentos de calmaria.
– Vou te procurar em um porto seguro, em busca de algo que sempre esteve em mim, mas perdi por não enxergar as ondas que conduzem a maré.

Ele sorriu sem jeito, mas não percebeu que, na verdade, aquele sorriso era o dela. No céu, uma estrela mostrou o caminho em direção oposta que deveriam seguir. Marte e Virgem eram, agora, um único corpo celestial alinhado. A sombra de um iluminava a parte fria do outro. O sol, de longe, apontava seus primeiros raios de luz a iluminar o deserto breu que se seguia até em tão.

– Olha, está chovendo. Adoro noites de chuvas.
– Em um dia de chuva, minha mãe costumava colocar na vitrola o disco Elis e Tom. Desde então, não posso ouvir “Chovendo na Roseira” sem me lembrar das tardes que a música me fazia companhia. Minha única companheira na adolescência perdida.
– Eu costumava ver a chuva pela janela do meu quarto e a cantar baixinho: “Meu coração \ Não sei porquê \ Bate feliz, quando te vê”. Quando chove, sempre me lembro dessa imagem.
– Quando bem novinho, eu corria na chuva. Minha mãe sempre falava que ficaria gripado. E ficava mesmo. Ela fazia um chá e eu tomava, ainda enrolado em cobertas depois do banho quente, comendo bolinhos de chuva.
– Você é de peixes?
– Sim. Você de gêmeos?
– Como soube?
– Sempre soube. E você, como adivinhou?
– Não adivinhei, está escrito em seu olhar.

Silêncio.

Baixinho, para esconder a timidez, ele começou a cantar. “Agora eu era o rei \ Era o bedel e era também juiz \ E pela minha lei \ A gente era obrigado a ser feliz”. Ela sorriu, retribuindo a canção. Disse:

– Embora tentasse, nunca vi as sete cores que dizem ter em um arco-íris. Você já viu?
– Não, mas uma vez eu vi dois arco-íris. Não vou esquecer. Era uma tarde de outono ou primavera, não me recordo. Choveu e abriu sol. Voltou a chover e o sol, tímido, surgiu no céu. Estava em uma estrada, ao olhar o horizonte, dois arcos enfeitaram minhas vistas. Pensei ser algo único. Tentei contar, mas não eram catorze riscos.
– Tenho você comigo antes mesmo de nascer. Me leve para seu tempo?
– O tempo não existe.
– Existe e nos devora com uma voracidade incomensurável.
– O tempo faz o que somos.
– Somos apenas aquilo que fazemos em nosso tempo.
– Ar, Água, Fogo, Terra.
– Terra, Fogo, Água, Ar. Tudo misturado em nós.
– Quero que o vento nos varra para bem longe das maldades do mundo.
– Vou senti saudade deste instante. A ponto de a saudade virar dor; a dor um lamento; o lamento uma marca; a marca uma lembrança; a lembrança algo que não consigo indicar, mas machuca na alma. Da mesma forma que fere, me alimentará.
– Vou te esperar quando não tiver sol, mesmo quando não estiver chovendo.
– Vamos fugir?
– É necessário?

Silêncio.

No firmamento, nove luas mostraram suas faces. Sentia-se no ar uma sensação que mudariam as estações; todas de uma só vez. Forte rajada de vento tentou varrer em uma intensa tempestade a maldade do mundo. Um novo e belo pôr-do-sol iluminou a madrugada que se iniciava. Virgem alinhada em Marte consertava as estranhas armações que unem e separam as pessoas. O início dos novos tempos se pronunciou nos rostos sorridentes do casal, enquanto os astros distraídos tratavam de mapear as coordenadas que suspendem o universo. Uma estrela cadente iluminou o caminho do semibreu da noite perdida, mostrando os próximos passos. Cada uma carregava na palma da mão o futuro do outro tatuado em cores douradas.

Francielle

Dança o jardim ao sabor do final de verão. Em cenas repetidas, pede para que tudo volte aos bons tempos em que a infância ainda dominava as preocupações corriqueiras. A vida e seus mistérios: um segundo antes, a paz reinava entre os sorrisos encantadores. Um volta incompleta dos ponteiros, e o que era calmaria transformou-se numa engraçada tormenta. Meus velhos e inesquecíveis dias… Dá-los-ia apenas para ver-te sorrir, em câmera lenta, quadro-a-quadro, em plano aberto, amplo, infinito. Cinematograficamente.

O percurso das águas e seus afluentes. Se soubesse antes o quanto seria suscetível cada passo, teria antecipado o encontro derradeiro uns 300 anos antes. Ou mais, se possível fosse. Ah, seria sim. Tenho a certeza convicta dos visionários ou dos desmiolados. Uma clarividência autêntica, que me assegura seguir em frente mesmo diante da maior das tormentas. O acaso já se foi, restam-nos agora os melhores dias de nossa vida.

Dói-me tanto, e na alma, a sua mesmo que mínima ausência. Parte-me em milhares de pedaços infinitos a lacuna que se abre sem você. Falta tanta coisa quando não está por perto; nem olhar seu sorriso no porta-retrato satisfaz a sensação inebriante de ter sua voz a completar-se com o toque, seu olhar e seus mais despertos encantos.

Começo, meio que ingênuo, a entender que nem tudo que é sólido derrete. O ar que te vê flutuar não pode ser tão pesado ao ponto de deixar morrer a poesia, o encanto e a alegria plena. Tudo é infinito dentro de seus olhos azuis. O mundo e a vida têm a obrigação de serem assim, como seu sorriso: fácil e de infinitos encantos. A cada giro planetário, como suas ilimitadas graças, uma manifestação. Aquela saudade boa que nos leva aos tempos imemoriais. A memória seletiva a pregas as melhores surpresas.

Abrem-se as caixas de Pandora: vejo em alto-relevo seu nome em cada momento bom. Pode ser que amanhã você dance de olhos fechados sobre o vendaval ou cante a nossa canção e algumas lágrimas quentes rolem pelo seu rosto. Pode ser que sonhe colorido e antecipe o futuro ou me leve para o paraíso junto aos seus passos. Pode ser… E será. Com um sorriso nos lábios, fecho os olhos e as palavras de Vinícius de Moraes vêem-me à mente. “Não há você sem mim, eu não existo sem você”.


outubro 2017
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