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terceiro ato

 

Nada disse. Baixou a cabeça para esconder as lágrimas frias e lentas escorrendo pelos olhos inutilmente maquilados. Trabalho delicado, executado com destreza e típica cerimônia, uma espécie de martírio para agradar sua metade. Pensou em tudo que fez, dos conselhos não ouvidos, sonhos jamais realizados, dos planos desfeitos na primeira trovoada e feridas dormentes. Ah! Eram tantas.

Quase estremeceu de raiva com a teimosia tola, ingênua até, de como ele se entrega fácil, sem se impor ou deixar o dado rolar no pano. Nunca acreditou em sortes, embora azar fosse sempre sua aposta certeira. Fraco, sempre o foi. No começo, achava graça de seu jeito meigo e carente, comedido e indefeso, sincero e desesperançoso. Temia machucar alguém e, por isso, pisoteavam-no ferozmente sem que percebesse. Ilusões: tinha um quê de heroico ou nobre. Em vão.

Nada disse. Respirou fundo como a engolir o amor-próprio consumido pelos anos de omissão e o orgulho ferido. Os olhos fixos num ponto distante e o sorriso dissimulavam a paz ausente dos ombros cansados de o assistir definhar, imóvel diante de seu medo mais banal. Eram tantos. Algo se quebrava em tão minúsculos pedaços que sentia sua dor refletida numa espécie de caleidoscópio.

Na boca, o gosto ocre do sangue a mutilava com a mesma precisão das cordas e metais de uma orquestra sinfônica. A melodia crescente ardia como chaga em seu peito ainda inerte pelos sentimentos contraditórios. A angústia por rever antigas cenas sem poder mudar o desfecho e a revolta por ser tão letárgico condensadas numa lamúria profunda, que não haveria volta. Era fatal. Era o ponto final.

Refugiou-se num sorriso falso e trivialidades quaisquer para acalmar os ânimos e não o desertar por completo, como sempre desistia das situações fadadas a serem desprezadas. Entendeu naquele instante que era o fim. Não suportaria recomeçar uma vez mais e vê-lo cometer os mesmos erros banais nas primeiras voltas do relógio ou antes mesmo de a moeda tocar ao solo.

Ah!, como se acreditasse em azar ou sorte, coisas do acaso ou novas voltas dos ponteiros. Tão sonhador e ao mesmo tempo se caga de medo de tirar os pezinhos secos do chão enlameado desta podridão que tanto ironiza. Tão contraditório e irregular como são seus medos e traumas a atormentá-los nos momentos mais inoportunos. Despreza suas virtudes e cria limitações nos campos mais férteis. Teimosia e dedicação típica dos camicases.

Nada disse. Respirou fundo para readquirir uma espécie de torpor enquanto aguardava cartas melhores e apostas mais altas. Não era blefe. Mas sim um tiro certeiro por novos destinos, suaves caminhos. Sorriu para dissimular a dor que a dilacerava em milhares de fragmentos em technicolor. Dores do passado e feridas abertas ditariam os dados ainda rolando no ar. Pouco importava se fosse par ou ímpar; o destino estava selado antes mesmo de arremessá-los. Já viu e reviu essa cena tantas vezes, que sabia de cor o desfecho a seguir. Era questão de tempo.

Típica tragédia grega. Primeiro ato: o bom moço, educado e preocupado com tudo e todos. Narra seus sonhos e ideais utópicos com tanta ênfase que quase acreditava em suas mentiras. Emociona-se com alguns dos poucos bons gestos da humanidade e suspira dias esperançosos. Segundo ato: o soco no estômago e o choque de realidade. Metade do que sonhava era antiquado, a outra face, fantasias. A letargia e o medo misturados com um choro compulsivo, ao ponto de provocar pena aos mais desavisados. Terceiro ato: o desespero. Puro teatro de sombras protagonizado por um péssimo ator. O fim era inevitável e apoteótico…

Velho tigre de papel

Voavam pássaros perdidos pelas notas sujas da trilha a me acompanhar. Estúpidos sentidos desconexos a confundir as mazelas de outrem. Meus nervos cansados esperavam a magnitude de uma nova rodada dos ponteiros para quem sabe, assim, a sorte mudar o vento. Abrigo-me em palavras doces sussurradas por veladas vozes. As virtudes dos corrompidos pelas injúrias vagas dos copos vazios são passos desprovidos de sensações encobertas pelas dores passadas, que temo nunca mais recuperar.

A noite devora lentamente o pouco que nos resta. O escuro véu da madrugada nos encobre com as piores ações que fazemos. O vinho barato mancha as línguas cansadas de retóricas antigas. És o gosto amargo dos abusos comuns. Retos desfiladeiros sem volta. As sombras projetadas na parede e nossos medos mais remotos dispostos sobre a penteadeira. A bagunça do guarda-roupa a dissimular as sandices ditas na tarde anterior. Repetidamente, ouço ecos de um passo do passado; tempo que permanece a conduzir-me. Seguia sem reagir às parvas curvas que apareciam em minha frente.

Mas você continuava a repetir curtos trajetos sem voltas como a um disco riscado. Inebriante e previsível. Era você a falar sobre os mesmos acontecimentos diários que tanto te irritava mas nada faz para mudar. Esses eram seus vícios prediletos. Sempre as mesmas tintas a encobrir as fantasias. Um velho tigre de papel. Enquanto eu, jogava-me em um trapézio sem rede e aproveitava friamente a queda certa – minha devassidão querida. Restos de silêncios esquecidos. Eu fugia ao pegar-me distraído a riscar seu nome numa folha que tentava escrever algo para me livrar do amargo sonho da noite anterior. Afinal, quebramos-nos.

Eram milhões de pedaços que somente misturados serviam para nos completar: seus lábios silenciosos e os berros de minhas palavras não ditas. Neste labirinto tortuoso, encontrávamos a cada curva. Vi seu reflexo no fundo de meus olhos. Voavam os dias em pares. Era fatal. Era o final. Por onde nasce o sol, nosso insano sonho de voar? Sempre quis decifrar a dor que trazia tatuada na alma. Cite meu nome sempre que sentir sozinha, mas não disque meu número, posso ser surpreendido pela sua voz afável e suas segundas intenções. Deixe-me em paz nas histórias estranhas que crio. Embora tristes, no final há uma breve redenção a me fazer levantar na manhã seguinte.

Mesmo que não haja sol, mesmo que a lua se apague, outra página precisará ser escrita para tirar do meu peito cansado a dor incurável. Dias depois, lançar-me-ei de olhos vendados à nova tormenta. O final é previsível e necessário para me manter, ainda que por poucos dias, suspenso no espaço. Falsas utopias que fazem as velhas engrenagens do mundo andar. As notas musicais mais tristes preenchem sua falta. Traços obscuros, trajetos incertos: qualquer maneira de amar valeria o risco que se expõem em seu sorriso? Sei a resposta antes mesmo de nascer. Vou me questionar sobre isso novamente antes do sol se pôr.

Um voo solitário de um pássaro errante recupera-me de meus devaneios. Os mistérios que sonhava, pouco foram desvendados; muitos, esquecidos. Calo-me. Prefiro acompanhar o desdobrar dos acontecimentos que ser responsável pelo que virá. Amanhã, ao amanhecer, ainda vai me arder a fatal dor a consumir a calma. Difícil fechar os olhos e seguir em frente quando tudo anda para trás.

A exclamação era o ponto final

“O problema não é o vazio da dor, mas o que essa lacuna provoca. Temo pelos meus atos quando ninguém estiver por perto ou os pensamentos absurdos falarem mais alto. Pode ser o adeus definitivo”. Disse-me com expressão enigmática, os olhos vidrados na janela e entre um gole e outro do destilado ordinário mantido na trêmula mão esquerda. Aquelas palavras me feriram como um punhal sem corte, rangendo, demasiadamente, lento a pele nua. O avançado das horas não me fez ver o óbvio: aquela frase derradeira era minha sentença final.

Do gosto amargo na boca, veio-me à memória as linhas finais de Torquato Neto. Aliás, sempre que essa mancha escurece minha alma, as palavras do poeta piauiense me atordoam: “Pra mim chega!” ecoa como milhares de facas a penetrar a carne semi-inerte dos sentimentos contraditórios. A exclamação deixa claro o ponto final. Antes fosse mais um pesadelo denso e frio a perturbar a noite interminável. Eram as repetições dos atos contínuos, em inúmeras formas de desejar não mais ver o nascer do sol. A saída é sempre a porta lateral. Cai por completo na armadilha fatal.

A poesia me abandonou. E, aos poucos, eu abdico da vida sem poesia, sem cor ou esperanças. Apenas vago passos apressados pelos desfiladeiros de outrora ou labirintos criados para fugir da realidade. São essas fantasias a única (e fugaz) alegria perdida. A vida? Esta, sim, pode esperar até o novo sopro do destino – querelas essas que não mais me enganam (talvez, nunca enganaram). Não há mais metafísica no mundo senão as reinações debaixo de meu nariz.

Sem pretensão (e talento) para ser Iessiênin, Maiakóvski ou Rimbaud, não desejo matar o poeta que desafia a própria sorte por habitar minhas oblíquas retinas. Afinal, qual culpa teria por manter a teimosia, quase messiânica, de tentar traduzir em palavras estanques os sentimentos difusos? Palavras, palavra… A essência musical dos versos rotos são inúteis, como indiferentes são as maneiras tolas de edificá-los em linhas retas. Em vão, a poesia não mais importa perante a montanha-russa do lado de fora e as confusões contínuas. Balelas. Quem sabe?

Caminho entre bêbados e desesperados pelo ávido alívio momentâneo numa forma de suicidar o pouco da paz que me resta. Ainda? Apenas uma carta lançada à mesa para evitar a derrota certeira; um blefe fatal para a falta de ambição num jogo fadado a não ter vencedores. Prorrogar por alguns instantes do veredito. Um inevitável silêncio apoderou-se de meus lábios cansados. A exclamação era o ponto final.

Falando da Vida

Vai-se, novamente, baby blue. E pensei que seria apenas mais uma volta para depois regressar a meu peito cansado de esperar algo novo a cada instante. Ledo engano. Os ponteiros correm ao contrário quando não está. Novos problemas e sempre as mesmas soluções: um passo de cada vez, toda vez; siga em frente e adiante verás o novo amanhã. Balelas. Eu que choro feito fogo ao sol do meio-dia. Em vão. A cura tão longe. Como se existissem curas para poucas chagas.

Às vezes, acredito que sou capaz de mudar o mundo. No segundo seguinte, me pego a rir dos meus ingênuos devaneios; por que logo eu seria capaz de alterar aquilo que não quer ser transformado? Talvez nunca será. Noutras, desconfio se devo duvidar de meus instintos mais belos e passos contraditórios. Sempre me calo quando não está.

Ainda há pouco, era apenas uma imensa estrela prestes a mergulhar de cabeça no infinito instante entre nós. Agora, é uma gigante ira a devorar a grandeza do mundo. Vai, suje os pés na lama e alivie o peito. Tenha medo não; a barra sempre estará pesada demais àqueles que ousam desafiar o coro dos contentes. Somos tão poucos, mas ainda somos fortes. Até quando? Não sei! E quem é que sabe?

Enquanto você corria o mundo, eu sonhava. Preso em meus labirintos, não pude sorver seu veneno e nem te ver chorar quando mais precisou de meus conselhos inúteis. Não que eles eram válidos, mas afagavam sua alma nos instantes que se entregava à deriva na noite escura. É esta imensa oculta magia sobre suas retinas que me cativa. Uma força a me deixar inerte. O tempo passou. Sinto a introdução leve, uma guitarra distorcida e a bateria a carregar a harmonia surreal. Berro: “felicidade não serve ser não for com amor”. Não deu para segurar.

Eu me pego a pensar sobre o silêncio das estrelas e a morte de constelações. Você me acorda para a vida e cita a morte de crianças regimentadas para servir ao tráfico ou às grandes corporações. É esta sua sensatez que me deixa desorientado. Um sino toca forte em mim; Lennon canta em algum canto esquecido de meu subconsciente: “She’s not a girl who misses much”. Como ao refrão seguinte, concordo.

O azul de seus olhos traduz som e fúria. Nunca tive medo de partidas, mas também não deixo as malas prontas. Melhor achar que sempre haverá o amanhã para escolher um novo terno ou encarar uma fila interminável. Algo é certo, um dia não mais existirá. Que nesta data eu seja pego de roupas limpas e a barba feita, o que é raro. Não gosto de incomodar.

O seu mundo

As curvas do tempo seguem sem deixar que malas desfeitas renasçam em sonhos feitos das cinzas herdadas dos passos errantes. Ao acaso, as horas seguem sem uma ordem conexa, assim como o brilho dos seus olhos a me lembrar da jornada diária. O labor maquinal serve apenas para poder aproveitar cada instante da primavera vindoura. Por mais que as noites frias intermináveis pareçam permanentes, os primeiros raios de sol da nova estação virão para nos brindar o começar de um novo ciclo.

Vejo seu aceno e a estrada a engolir, em velocidade máxima, a lágrima de saudade. Arrumar as gavetas bagunçadas e tirar pó da prateleira é fácil àqueles acostumados a seguir em frente, apesar de tudo (ou por causa de nada). Mas como reorganizar o caos que se fez com a sua ausência. Às vezes vejo a vida como a um reflexo em um espelho: por mais que a imagem se conceba perfeita, sei que se trata uma representação próxima daquilo que acostumaram a chamar de realidade. Isso me deixar pensativo e triste.

No entanto, quando você sorri sinto uma paz invadir-me por completo. Tudo faz sentido e sei a explicação do que se passa pelos meus os olhos. É o único sentimento a me faz calar voz e refletir que há uma força maior a controlar os invisíveis fios a manter o silêncio das estrelas. Nestas ocasiões enigmáticas, a vida se mostra muito maior que minha pouca Inteligência imagina supor. Apesar de sempre querer ter opinião sobre tudo, ao seu lado nem me importo sobre a constante expansão do universo. Nem mesmo se um dia o manto azulado dos cosmos poderá suprimir ao ponto de não mais existir. Como eu, você e a eternidade um dia.

São estas imagens fragmentadas que alimentam meus labirintos internos. Antes fosse Borges para traduzi-los de uma forma exata, segura. Sou apenas um narrador de sonhos desconexos, que nem conseguiu despertar a fim de impedir que o último botão de rosa caísse. Não sei o que mais me assusta, se é a vertigem ou a virtude: ambas me deixam entorpecido. Nestas datas, tenho a impressão que enxergo o futuro como uma clarividência viva. Depois volto à realidade e compreendo o pesar de meus atos distraídos. Sem a precisão das datas, tento jogar-me de cabeça diante do desfiladeiro. Às vezes saio vivo.

Alguns passos tímidos e distantes são seguidos em linhas tortas. Fotografias borradas, lembranças de momentos vividos e a interminável sensação do novo alimentam um lado que não sei classificar. Seriam valentias ou fugas incompreendidas? Como se fosse possível ter saudade do futuro disforme. Num segredo abstrato, via de passagem uma aquarela de momentos passados. Pintado em tons de azul e amarelo, sua fragilidade bela derreteu o gélido satélite em mim. E seu nome gravou-se para sempre no céu aberto. Ninguém, nem mesmo as rosas, tem cores mais vivas que seu sorriso.

Do passado sei quase nada. E nem me preocupo em saber. Sigo como que novo a cada dia. Um beijo e um adeus… definitivo. Não mais! Partir, chegar: são partes de uma mesma estrada incompleta. Sinto que está ao meu lado, mesmo quando minhas retinas cansadas não a conseguem enxergar. Percebo seu aroma tatuado em mim, assim como vejo todo o seu futuro, que nunca me escapará das mãos. Tenho os sentidos dormentes, o corpo cansado, a blusa suja, os cabelos cada momento mais rarefeitos e os dedos calejados. Mas tenho o coração puro e o raro desejo de mudar o mundo. O seu mundo.

Marte alinhado em Virgem

Todos estavam aparentemente em paz no instante que ele avançou pela porta. Cabelos sem corte e barba de vários dias, sentiu pavor ao encarar as pessoas que dançavam ao som de rock’s e outros barulhos. Procurou, entre a solidão de cada participante da reunião, um canto para se esconder da tormenta que seguiria. Não percebeu, mas desde que invadiu o salão com a sua timidez foi notado de longe. Ela estava próxima à janela, vendo a lua cheia que iluminava a noite fria dos corações vazios. Acompanhando a movimentação dos automóveis a procura de bares e outras fugas de medos urbanos, divagava sobre as neuroses escondidas nas metrópoles. Tentava em vão se manter equilibrada e conservar suas pequenas loucuras. Unhas roídas pela ansiedade de algo disforme e o cabelo cuidadosamente despenteado para afugentar os traumas de outrora. Entre unhas e dentes, assobiava Caetano Veloso; na inútil esperança de controlar os impulsivos gestos e palavras contraditórias aos sentimentos.

Quem passasse pela avenida no instante em que ela se postava à janela poderia imaginar que se tratava de uma pintura de Guignard ou uma clássica cena eternizada pelas lentes de François Truffaut. Bela como as noites frias e solitárias de Inverno, permanecia, cintura para cima, braços apoiados no batente e mãos segurando o queixo e o olhar teimosamente mirando ao firmamento. Na confusão de fora, as pessoas que passavam apressadas para aproveitar mais uma noite da conturbada vida moderna não seguiriam os pensamentos incompletos que a redimiam de pecados e traumas repentinos. Com uma força que nunca teve, deixou a companhia de livros, chocolates, filmes e o telefone mudo, para se aventura em um mini-universo de gente ávida por consumo momentâneo e em busca de prazer imediato. Tinha pouca resistência para bebidas alcoólicas, mas, descansando no batente da janela, um copo de plástico com gim barato e água tônica ordinária. Girava com a ponta dos dedos o gelo e a rodela de limão, na inútil tentativa de diluir o álcool e sorver a água. Ria, como sempre ria em momento de apreensão. Imaginava arrumando as malas e fugindo da realidade, como costumeiramente fazia nestas ocasiões. Pegava-se distraída e não percebeu o instante que ele a olhou pela primeira vez. Ao mirá-la, pintura estática com os olhos castanhos mergulhados na confusão de fora, fantasiou-se ao seu lado, em uma história estranha. Rumo aos desconhecidos mistérios das almas em ebulição, palpitava ao imaginá-la sorrindo. Na cabeça do rapaz, que escondia sua beleza na barba por fazer e no cabelo sem corte, os ruídos oriundos dos rock´s e outros barulhos se transformam em harmonias compostas por Guerra-Peixe.

Arquitetou milhões de maneiras de se aproximar da moça de cabelos castanhos parada diante à janela. O pavor do novo o fez estancar antes mesmo de dar o primeiro passo. Por precaução, procurou abrigo ao lado oposto, em um ponto que seria difícil ser avistado pela retina da menina absorta ao mundo a rodar do lado de fora. Distraída com a lua, sentia uma vibração diferente no ar. Talvez por ser sábado à noite e ter espantado o telefone mudo, achava-se contente dentro no pequeno universo que rodeava aquele encontro repleto de pessoas estranhas, álcool e dissabores. Amores do passado e marcas invisíveis a teriam feito desistir da vida em milhares de ocasiões. Em noite como aquela, costumava deixar ser conduzida em labirintos criados pelo inconsciente desejo de se perder por completo. Mas, no entanto, talvez pelo gosto de gim na boca ou o frio do lado de fora do casaco, estava diferente. Como criança que apronta, sorria na tentativa de diminuir o castigo que viria. Seu rosto ficou levemente vermelho e os olhos se espremeram para deixar o sorriso escapar a face e ganhar o salão, enquanto todos estavam preocupados em fugir de seus próprios demônios.

Por ser sábado à noite e os temores menores, que lhe roubavam os melhores momentos, terem ficados sobre a penteadeira junto a um livro de Michel Foucault, deixou que o sorriso a iluminar a face ganhasse o salão. Em um instante, pegou-se distraída mirando os olhos castanhos do rapaz de barba e cabelos sem corte. Na fração de segundo em que encararam os olhos um do outro, o tempo faz uma curva na linha imaginária que nos conduz e parou por uma breve eternidade. Como se tivesse acordado de um transe profundo, ele pôs-se a remontar acontecimentos que não pôde controlar. Os olhos incandescentes da moça reacenderam um brilho até então escondido em sua timidez exagerada. Sobrevoaria sobre o campo se tivesse asas. Livre em seus passos imaginários, desejou o final da festa para voltar ao conforto de seu quarto vazio e desorganizado.

Dentre os temores do rapaz, amargavam os sonhos desfeitos e a imensa vontade de cura instantânea. Tropeçava em astros distraídos, na inútil agonia de viver a vida em uma única noite. Distante dos olhos comuns, dois perdidos a espera de um momento mágico, união de duas constelações em rotas opostas e destinos iguais. O choque celestial de dois cometas vagando a eternidade na solidão da estrelas em busca da metade decaída. No instante que o tempo deu um pulo para se avançar a eternidade parada, Marte se alinhou em Virgem. O pressagio de um novo capítulo se desenhara entre os corpos cansados de desatinos e esperanças dos dois libertos para a vida. Alguns dias foram necessários até que criasse coragem a encarar novamente os olhos castanhos da moça de cabelos lisos que sentia no ar o nascimento de uma energia cristalina. Duas músicas estranhas e cerca de nove minutos separavam a entrada ao salão e o instante que lutava contra suas limitações. No ar, a voz de Lennon enchia o ambiente berrando: “I want you. I want you so bad”. Embriagado com o som e o momento que se aproximava, encaminhou-se para o banheiro. Compreendeu os anos que se passara quando sentiu um toque em sua face.

– Sente algo novo no ar?
– Como a vinda de uma nova era?
– Semelhante a isso, mas um pouco mais restrito. Talvez apenas para mim. Quem sabe, para você? Ou entre nós dois?
– A lua está em um brilho raro. Sou eu ou o efeito do álcool?
– Quando criança, ouvia meu pai falar sobre a ida do homem à Lua. Ele contava sobre o mar da tranquilidade. Eu imaginava um domingo de sol com a praia deserta. Lá sempre foi meu cantinho para me abrigar quando estava com medo. Fechava os olhos e me imagina na Lua a me esconder dos perigos.
– Eu ia para uma pedra em um antigo bosque. De um tempo para cá, lotearam o local e hoje tem um bairro repleto de arranha-céus e automóveis de consumo excessivo de combustível. Pouco restou do que era antes.
– Por que o homem quis destruir a lua. Não basta a gente?
– Nós?
– Não, o mundo. Todo o mundo. O mundo todo. Como fizeram com o seu bosque. Não entendo o porquê de corremos contra o tempo para juntar dinheiro e não ter um pouco de paz para poder usá-lo. Além de não ter tempo, falta alguém que gostamos ao lado.
– Não sei, talvez por se sentir sozinho. Talvez por egoísmo…. Talvez por ser parte do ser humano destruir tudo que é belo e colocar em seu lugar alguma coisa cinza, construída de concreto e ferro armado. Sem o meu cantinho, ás vezes, me sinto tão sozinha.
– Estranho mundo que se vangloriam estadistas e generais de guerras? Em meu mundo ideal, poetas vadios governariam as pessoas de corações partidos.
– Me leve para seu mundo?
– É preciso?

Ela sorriu.
Silêncio.

– Já sentiu as marcas do tempo?
– Sinto apenas, não o vejo. Na verdade, não sei ver muito bem as coisas. Apenas sinto e de uma forma intensa, como se eu fizesse parte de tudo. O tempo todo.
– Carrego no rosto o gosto amargo do tempo. Mas não sinto como ele passa, apenas vejo.
– Tenho duas vidas. Uma eu morri. Ainda carrego as cicatrizes. Renasci hoje, quando sua timidez invadiu a solidão das pessoas mesquinhas.
– Tentei me matar tantas vezes; as inúmeras vontades, se transformaram em algo corriqueiro. Cada novo desejo, mergulho no dia seguinte em busca de alguma coisa ainda inclassificável. Estava a sua espera para me tirar deste labirinto sem nexo.
– Eu te vi em um sonho. Faz tanto tempo que seu rosto se perder dos meus olhos. Mas ainda carrego suas marcas, seus desejos em mim.
– Trago tatuado seu gosto, seu rosto, tudo que me deixa em paz e tira meu sossego nos raros momentos de calmaria.
– Vou te procurar em um porto seguro, em busca de algo que sempre esteve em mim, mas perdi por não enxergar as ondas que conduzem a maré.

Ele sorriu sem jeito, mas não percebeu que, na verdade, aquele sorriso era o dela. No céu, uma estrela mostrou o caminho em direção oposta que deveriam seguir. Marte e Virgem eram, agora, um único corpo celestial alinhado. A sombra de um iluminava a parte fria do outro. O sol, de longe, apontava seus primeiros raios de luz a iluminar o deserto breu que se seguia até em tão.

– Olha, está chovendo. Adoro noites de chuvas.
– Em um dia de chuva, minha mãe costumava colocar na vitrola o disco Elis e Tom. Desde então, não posso ouvir “Chovendo na Roseira” sem me lembrar das tardes que a música me fazia companhia. Minha única companheira na adolescência perdida.
– Eu costumava ver a chuva pela janela do meu quarto e a cantar baixinho: “Meu coração \ Não sei porquê \ Bate feliz, quando te vê”. Quando chove, sempre me lembro dessa imagem.
– Quando bem novinho, eu corria na chuva. Minha mãe sempre falava que ficaria gripado. E ficava mesmo. Ela fazia um chá e eu tomava, ainda enrolado em cobertas depois do banho quente, comendo bolinhos de chuva.
– Você é de peixes?
– Sim. Você de gêmeos?
– Como soube?
– Sempre soube. E você, como adivinhou?
– Não adivinhei, está escrito em seu olhar.

Silêncio.

Baixinho, para esconder a timidez, ele começou a cantar. “Agora eu era o rei \ Era o bedel e era também juiz \ E pela minha lei \ A gente era obrigado a ser feliz”. Ela sorriu, retribuindo a canção. Disse:

– Embora tentasse, nunca vi as sete cores que dizem ter em um arco-íris. Você já viu?
– Não, mas uma vez eu vi dois arco-íris. Não vou esquecer. Era uma tarde de outono ou primavera, não me recordo. Choveu e abriu sol. Voltou a chover e o sol, tímido, surgiu no céu. Estava em uma estrada, ao olhar o horizonte, dois arcos enfeitaram minhas vistas. Pensei ser algo único. Tentei contar, mas não eram catorze riscos.
– Tenho você comigo antes mesmo de nascer. Me leve para seu tempo?
– O tempo não existe.
– Existe e nos devora com uma voracidade incomensurável.
– O tempo faz o que somos.
– Somos apenas aquilo que fazemos em nosso tempo.
– Ar, Água, Fogo, Terra.
– Terra, Fogo, Água, Ar. Tudo misturado em nós.
– Quero que o vento nos varra para bem longe das maldades do mundo.
– Vou senti saudade deste instante. A ponto de a saudade virar dor; a dor um lamento; o lamento uma marca; a marca uma lembrança; a lembrança algo que não consigo indicar, mas machuca na alma. Da mesma forma que fere, me alimentará.
– Vou te esperar quando não tiver sol, mesmo quando não estiver chovendo.
– Vamos fugir?
– É necessário?

Silêncio.

No firmamento, nove luas mostraram suas faces. Sentia-se no ar uma sensação que mudariam as estações; todas de uma só vez. Forte rajada de vento tentou varrer em uma intensa tempestade a maldade do mundo. Um novo e belo pôr-do-sol iluminou a madrugada que se iniciava. Virgem alinhada em Marte consertava as estranhas armações que unem e separam as pessoas. O início dos novos tempos se pronunciou nos rostos sorridentes do casal, enquanto os astros distraídos tratavam de mapear as coordenadas que suspendem o universo. Uma estrela cadente iluminou o caminho do semibreu da noite perdida, mostrando os próximos passos. Cada uma carregava na palma da mão o futuro do outro tatuado em cores douradas.

Sob o travesseiro

O doce do afago tingiu-se com o sabor amargo da dor. O silêncio fez-se em forma de prece. Era necessário elevar a calma antes de a tempestade que se anunciava. Certas horas, a ausência das palavras diz mais alto. E deixamos que a falta de algo ainda desforme guiasse-nos por labirintos difusos. Em cada curva, uma saída desavisada: as imagens refletidas mostram quadros que tentamos abafar.

Há sentimentos que não se explicam, apenas cresce ao ponto de a pele não ser mais a fronteira, extravasa a alma e explode como uma bomba sobre os pés. Tira-nos o chão, a paz e algo mais. Vejo nos seus olhos o medo que tentei esconder. Não aguentei. Agarramo-nos em teias frágeis nas sutis armações suspensas que nos apoiava. Caímos no pior dos pesadelos. Sem forças, não pude arrancar-lhe do peito a mágoa contida. Culpo-me por te ver chorar e não ter nada em meu alcance para impedir-te de sofrer.

Nos cantos, o escuro do medo revela a face sombria. Seguíamos em desfiladeiros ao breve sussurro das frases vazias. Todas as frases tornaram-se vazias então. Os sentimentos misturaram em um choro uníssono. Somos operários de nossas próprias mágoas íntimas. Deixo transcorrer em versos perdidos as mágoas que não sei classificar. Medo, talvez; incapacidade de arrancar-lhe a dor, plenamente.

Escrevo sem nexo em parcas linhas desconexas a inexatidão deste emaranhado de sensações impróprias. Palavras não bastam, como não satisfazem apenas os abraços partidos e sinais de boa sorte. Nada pôde ser feito para acordar deste pesadelo que parece um labirinto borguiano; ou seria um inferno dantesco?. Melhor seria se soubesse como livrar o meu rosto magro da realidade desconexa que nos cerca. E esta tormenta suba a ternura de louco dentro de mim.

Uma hora, a tempestade vai passar, deixando para trás apenas o lastro de destruição que ajudamos a criar. Que os mistérios da vida voltem a trazer o afago sabor doce da surpresa vindoura. E nada mais importa, exceto enxugar suas lágrimas e cantar uma suave canção para fazer-te dormir em meu peito. E desta forma ficaremos até você e eu florescemos, à última flor, à última hora, aos céus. Assim, quando despertar, as dores tenham ficado veladas sob o travesseiro.


agosto 2017
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