Archive for the 'Resenha' Category

Memórias de um tênis surrado

Um tênis surrado marca o ritmo da primeira melodia a encher de vida, luz e emoção o Teatro Coliseu, na noite de quinta-feira (6). Aos poucos, o sotaque mineiro e a música influenciada por Beatles, bossa nova e jazz se misturam em um universo paralelo criado por Lô Borges. Em quase duas horas de show, mesclando antigos e novos sucessos, três gerações de fãs se emocionaram ao cantar em coro as canções que marcaram sonhos, vidas e amores.

Com mais de três décadas de carreira, em plena forma, o cantor mineiro entra em turnê de seu último CD e primeiro DVD (Intimidade, Som Livre, 2008). No mini-documentário musical, os maiores sucessos do sócio-fundador do Clube da Esquina são interpretados de forma intimista para um seleto grupo de fãs. A vida e obra do compositor são expostas por meio de seu cotidiano, entrevistas e depoimentos em tons informais.

Da mesma forma, Lô entoou 19 sucessos presentes nos nove álbuns solos e três em parceria com outros artistas mineiros. Desde o antológico Clube da Esquina (EMI, 1972), divido com o Bituca, até o mais recente trabalho Bhanda (independente, 2007). Em tom mineiro, moderando entre “causos” ilustres e pedidos da platéia, Lô demonstra a simplicidade e a magia musical oriunda das montanhas das Gerais.

Foi justamente ao cantar uma parceria com a nova geração – Dois Rios (Lô Borges, Samuel Rosa e Nando Reis) – que um sol nasceu entre as montanhas mineiras, devidamente costuradas em retalhos, que enfeitavam o palco semi-iluminado do teatro santista. No refrão de seu último sucesso radiofônico, interpretada pelo eterno parceiro Milton Nascimento – Quem sabe isso quer dizer amor (Lô e Márcio Borges) – que as lágrimas correram a face do músico mineiro. No bis, aclamado, Lô marca com o pé o compasso para entoar, com a emoção da platéia, as frases “Porque se chamavam homens/ também se chamava sonhos / E os sonhos não envelhecem” – Clube da Esquina nº2 (Milton Nascimento, Lô e Márcio Borges).

Há 35 anos, um outro tênis surrado e cheio de lama – que ilustrou a capa de seu primeiro disco solo (Lô Borges, 1972) – marcou a passagem do garoto Salomão Borges Filho (de 17 anos) em um dos maiores compositores brasileiros. Na contra-capa do álbum, explicava que a escolha do calçado desprendia uma imensa vontade de “cair na estrada” e conhecer o mundo. Algumas voltas depois, Lô é capaz de recriar um universo por meio dos acordes de suas composições.

Set-list
Feira moderna
Quem sabe isso quer dizer amor
Tudo em cores para você
Clube da Esquina N.º2
Segundas mornas intenções
Dois rios
Clube da Esquina N.º1
Força do vento
Tudo que você podia ser
Qualquer lugar
Nuvem cigana
Um dia e meio
Equatorial (violão e guitarra)
Sonho Real (violão e guitarra)
Cordão de ouro (inédita)
Um girassol da cor de seu cabelo
Paisagem da janela
Trem azul
Para Lennon e McCartney
Clube da Esquina N.º2 (Bis)

Anúncios

A Bagaceira

A Bagaceira (José Américo de Almeida, 18º edição, Editora Livraria José Olympio, 1980), romance de 1928, a maior obra literária de José Américo de Almeida, é considerada por muitos críticos a como o marco inicial da segunda fase do Modernismo Brasileiro.
Escrito de maneira seca e direta, a obra relata, em discurso de denúncia, os horrores gerados pela estiagem no sertão do Nordeste. Além de ser o marco inicial da segunda fase do Modernismo, A Bagaceira inicia o ciclo de publicações que abordam a problemática da seca. Movimento que teria ligação com o Cinema Novo na década de 1960.
Nas páginas que antecedem a obra, o autor faz questão de apontar sobre a forma correta da escrita, mesmo em uma obra moderna e realista. “A língua nacional tem rr e ss finais… Deve ser utilizada sem os plebeísmos que lhe afeiam a formação […] A plebe fala errado; mas escrever é disciplinar e construir…”.
A narrativa, com o vocabulário mais simplório do sertanejo, e utilização gramatical correta do autor, traz à tona um dualismo literário, no mínimo, interessante. Como no trecho a seguir:
“Mas, ali não se brigava por mulher: o amor não valia uma facada. O ciúmes mal passava de ameaças:
– Olhe que eu te dou uns croques!…
– Quando chegar em casa, você chia no relho!…”
Lúcio despertou, ouvindo um vozear estranho. Um formidável clamor que uivava dentro da noite.
(Página 44)
O maior problema da obra é o exagero da reflexão sociológica que o autor imprime. A necessidade demasiada do autor em tudo explicar – em caráter sociológico, e algumas vezes, psicológicos – fez que a obra não tivesse maiores efeitos sugestivos na concepção de narrativa.
Como análise histórico-cultural, o romance aborda pontos chaves no processo evolutivo e cultural do Nordeste brasileiro. O choque entre o erudito (filho do proprietário da fazenda, e estudante de Direito na capital do Estado), o rústico (o sertanejo, o brejeiro, o simplório, o povo oprimido vítima da seca) e o poder ditatorial e patriarcal da oligarquia latifundiária.
Como plano de fundo, uma simples história de amor em que, devido ao medo do protagonista, e os desvios do destino – nesse caso o poder opressor –, acarretou em um trágico desfecho, quase uma tragédia grega. Mas, nesse ponto, que a obra ganha maior volúpia e êxtase. A forma que o estudante Lúcio conduz a fazenda – em seguida da morte de seu pai, Dagoberto, acusado de violentar sexualmente Soledade (apaixonada pelo Lúcio) que fora assassinato em nome da honra sertaneja (por um agregado da família, Pirunga) – e a moderniza, não apenas no que diz respeito à produção, mas também no âmbito social (alfabetização dos filhos dos trabalhadores, melhores condições de moradias e de trabalho), dá maior dinâmica e outro fluxo à leitura.
José Américo de Almeida dividiu-se entre a política e a literatura. Na vida política, chegou a ser ministro do Getúlio Vargas (nos dois mandatos) e candidato à Presidência a República, eleição que não ocorreu devido ao golpe do Estado Novo. Na literatura lançou, sem obter maiores êxitos, mais duas obras; Boqueirão, em 1935; e Colteiros, em 1936.

E a Cultura?

Enquanto as engrenagens de madeira, movidas pelo círculo marcado das pegadas dos bois, rodam e tiram da cana o mel, e esse, ao tacho, produz a rapadura, a tradição do sertão – os seus valores sociais, culinária e gostos – fica evidente. O processo de fabricação do melado é apenas uma delas.
Mas, nos momentos de descanso, e, geralmente, no maracatu, que fica nítido os principais aspectos sócio-culturais do sertanejo. A forma como tenta seduzir a “dama”, as conversas no ambiente, e principalmente na música e na dança, o sertanejo mostra as raízes de sua cultura.
O apego à terra natal, e a certa mácula ao deixá-la. A falta de identidade com o local transitório, e a espera pela chuva, para, enfim, voltar ao lar. Além da submissão perante ao proprietário das terras, demonstram outros traços característicos dos hábitos e costumes do retirante.
A relação da miséria com o sexo. A perda total de valores no limite mais baixos do ser humano, a fome. Mas, sem dúvidas, o maior fator de análise da obra é acerca da honra do sertanejo. A desonra da mulher (a perda da virgindade antes do casamento), oriunda de tradições seculares, anterior à chegada dos portugueses ao país, apontam principais características sócio-cultural do nordestino. Lavar a honra a sangue é vingar-se e uma tentativa de purificar a mulher “desonrada”.
No final obra, outro fator cultural vem à tona, os cuidados do Lúcio ao seu irmão bastardo.

O PASSADO

Senti como se saísse de um labirinto. Ou de um corredor escuro, irreal, sufocante. Como se tivesse sido encontrado, semi-morte, após perde-me no mar, à deriva. Esta angustia sem fim durou o tempo exato do filme “O Passado” (“El Passado“, Babenco, 2007). O filme, sutil nas filmagens e técnicas cinematográficas; pesado nos diálogos e tramas narradas, constrói e desconstrói vidas.

Após o término de 12 anos de um relacionamento, a tranqüila separação logo é apresentada em diabólicas tramóias, em forma maquiavélica, com o intuito de uma reconciliação. Como antes? Nada será como antes, como não foi. Semelhante à fotografia, em que a falta de memória nos abriga a escrever no verso a data, local e nomes. Semelhante e inútil.

Todos personagens, emergidos em seu mundo particular, são merecedores de tratamentos psicológicos. Aliás, quem não precisa? A realidade que nos cerca, em um mundo repleto de trajas-pretas para dormir, nos transforma em escravos de alguma ‘droga’ para fugir da realidade: amor; religião, futebol, ciúmes. “Um café, um cigarro, um trago, tudo isso não é vício. São companheiros da solidão”, berrava Lobão há quase vinte anos. Depressivos, possessivos, desvairados, angustiados, solitários… , irremediavelmente loucos. A fuga da realidade em fantasias. Imagens que explodem diante nossas retinas passivas. Resistimos a tudo? Até quando?

Os devaneios provocados pelo ciúmes, em uma das relações, esbarra no senso-comum estereotipado da fragilidade feminina. Assunto esgotado na literatura, cinema, teatro, tv… E, ao meu ver, ultrapassado. O corriqueiro cotidiano – opressivo pelos ponteiros dos relógios, fabricando tortura da mesma maneira de uma linha de produção – traz à tona a fragilidade da solidão humana. Homens e mulheres tornam-se mais ciumentos, ao passo que se tornam mais livres, ao mesmo tempo em que procuram a estabilidade de um relacionamento, mesmo que inventado, mesmo que fracionado, mesmo que incompleto, mesmo que baseado no sexo, mesmo que de aparências.

Citando Freud, o amar é transferir o sentimento para alguém. A temática principal do filme, atualíssima, vem ao encontro de recentes pesquisas sobre divórcios. O consumo de cocaína é esquecido pelo doentio – e cego – ciúmes. A solidão e angustia do dia-a-dia nos faz projetar no outro as nossas maiores frustrações. Não repartimos, não nos transferimos, não doamos nada a alguém. Cobramos e cada vez mais e mais. Sísifo da “pós-modernidade”. Responsabilizando a outros a nossa felicidade. Procurando em terceiros motivos, desculpas e justificativas para esconder nossos medos, traumas e fracassos.

Os sentimentos foram dando vazão a outras formas de sentir. Drogas sintéticas, consumismo, perda de ideologia, falta de esperança e a entrega exagerada ao hedonismo, fazem que os sentimentos mais puros dêem lugar a algo com gosto plástico. A virtualidade desprendida com os “tempos modernos” está acorrentando a humanidade à uma não-revolução sentimental. A solidão caracterizada nas grandes metrópoles está presente em nossos medos, ao ponto de nos amarrar em sentimentos sem sentidos, em relacionamentos fracionados, em vidas incompletas. À nada.

A alma humana nua, como mais um personagens do filme, explorando a nossa pequena alienação, personificada na busca, equivocada, de um prisioneiro fragmento amoroso, destituído de paz e alegria, sacrificada pelo dogmas pragmáticos dos falidas instituições sociais. A nudez censura pelos nosos olhos e intelecto tabulados nas antigas barbaridades institucionais, que nos condena à pressão limite. Como válvulas de escape, o amor torna-se um jogo. “Ao vencedor, as batatas”.

Mergulhados nesse universo, a película de Babenco mostram, em ângulos perfeitos, a solidão urbana mascarada em um relacionamentos vazios. Como uma tonel de pólvora prestes à explodir, essas relações remetem a caótica perda da valorização aos sentimentos necessários à humanidade. Como lobos solitários, vivemos. O sexo, mais de um século depois, ainda é um tabu, ao mesmo tempo é uma droga tranqüilizante da depressão dos caóticos centros urbanos. É a heroína do século XXI, o LSD dos novos hippies sem contracultura. ROLETA-RUSSA.

Resgatado do meu naufrágio particular ao término do filme, sai da sessão com a visão de uma dura realidade, encoberta pela minha visão “cor de rosa” de um mundo enfeitado por música, literatura, cinema e esperanças de um mundo “mais justo”. Utopias, que cada vez mais luto para não perder. Em um mundo fracionado, em quem milhões de imagens explorem, aprendemos a ter sentimentos mediados por efeitos midiáticos. O passado, cada vez mais presente, projeta a solidão acompanhada.

1968 – O ANO QUE NÃO TERMINOU: A AVENTURA DE UMA GERAÇÃO

O ano 1968 começou pela porta da frente. Escancarada. Querendo sorver o novo, o admirável mundo novo. Os ventos da mudança, que arrasariam pelas ruas das capitais européias, aportavam no Brasil nos passos dos estudantes. Para parte da juventude e intelectuais cariocas, o ano começou embalado em uma festa que parecia não ter fim. Pelas cabeças dos que rondavam o místico reveillon, na casa de Heloísa Buarque de Holanda, imaginava-se que aquele ano seria diferente. Porém, nem os mais otimistas dos otimistas – ou o pessimista dos pessimistas – ousariam idealizar o que 1968 viria a representar para o mundo e particularmente para o Brasil. Como poeticamente Zuenir Ventura definiu, foi o ano que não chegou ao fim.

Reconstruir os rumos que mudariam a história daquele ano, e conseqüentemente as trajetórias políticas e culturais do país, foi o primoroso relato do jornalista Zuenir Ventura, na obra 1968 – O ANO QUE NÃO TERMINOU: A AVENTURA DE UMA GERAÇÃO (Editora Nova Fronteira, 1988, 314 páginas). Testemunha das movimentações daquele período, Zuenir, vinte anos depois, faz uma análise riquíssima sobre o início dos anos de chumbo. Misturando entrevista com os envolvidos, documentos, até então, inéditos e suas memórias – além de um estilo literário desprendido de mágoas das vivências que sofrera quando preso -, o autor remonta um enorme quebra-cabeça de fatos que mudariam vidas e o destino da nação.

O ano em questão, marcado pela rebeldia dos estudantes na Europa – o famoso Maio de 1968 -, teve reflexo na juventude carioca e paulista (e em outras capitais brasileiras). As crescentes manifestações estudantis e o apoio dos populares desencadearam vários processos para tentar legitimar o uso da força por parte dos militares. Quatro anos depois do golpe – que fora apoiado pelos meios de comunicação e opinião pública –, inúmeras falhas administrativas desgastavam a imagem perante os populares. Descontentes com os rumos que o golpe culminava, as revoltas populares, arquitetadas pelos movimentos estudantis, tomavam às ruas. Ao mesmo tempo, a “Revolução Armada” ganhava corpo e força entre os jovens rebeldes com o sistema.

Retrato fidelíssimo do momento, evitando ao máximo tender para um dos lados, apontando falhas e exageros de todos os ângulos, Zuenir desprende das mágoas que poderiam o amofinar, para, em meio de bom humor e visão aguçada, relatar da ascensão à queda – por imposição de força superior, ou por fragmentação e erros da esquerda – das movimentações estudantis. E, por fim, ao desfecho do fatídico 13 de dezembro.

Nem a tentativa do então vice-presidente, Pedro Aleixo, foram suficiente para evitar o golpe dentro do golpe, nem a atitude digna de Pôncio Pilatos do então presidente, o General Costa e Silva, foi capaz de impedir o Ato Institucional número 5 (AI-5), que estava em com as horas contadas para ser instituído. Ao passo, que a esquerda estudantil, cada vez mais fragmentada, perdera força e a empatia da opinião pública ao misturar rebeldia e baderna, manifestação popular com atos de vandalismo desnecessários. Além da ingenuidade e ações de espionagem infiltradas entre os estudantes.

Aos artistas e intelectuais restaram apenas as mordaças que calariam as produções culturais. Esmagando como rolo compressor qualquer cisma, por mais estúpida que fosse, sobre a ideologia política dos produtores de arte. Assim, 13 de dezembro de 1968 encerrou o ano idealizado e sonhado pelos estudantes que bebiam dos filósofos e pensadores mais iluminados. A caça as bruxas, que dera início antes mesmo do pronunciamento oficial do ato, matou parcela da esperança que ainda florescia na mente inquieta dos jovens. Para quem foi alvo das perseguições na madrugada e os dias seguintes ao Golpe dentro do Golpe, 1968 deixou no ar a sensação incompleta do ano que não terminou.

Outras resenhas:

A aventura de Zuenir De Paulo Francis. Folha de S. Paulo, 27/10/88.

Para escapar da repetição De Leandro Konder. Jornal do Brasil, 8/10/88.

MORANGOS MOFADOS – CAIO FERNANDO ABREU

Morangos Mofados, Caio Fernando Abreu (Contos. Editora Brasiliense; São Paulo; 6º edição; 145 páginas, 1985). Como cenas rápidas de um trailer narrando histórias em busca de um sentido para o mundo. Ao fundo, músicas (rock, blues, tango, MPB) ajudam na composição do cenário, embalado em ritmo quase cinematográfico. Imagens explodem em palavras lapidadas, manifestadas em dores, angustias, fracassos, encontros e desencontros, esperanças, enfim, milhões de sentimentos misturados, costurados em pequenas teias a formar um enorme mosaico de emoções que marcou uma época. E ainda continua a identificar gerações e gerações que se sucedem após o lançamento apoteótico da obra.

Dividida em três partes, Morangos Mofados é, sem dúvida, a composição mais conhecida de Caio Fernando Abreu. A primeira parte, intitulada “O Mofo”, narra a queda de valores, dos amores, a solidão, a fragilidade humana, a embriagues, o consumo de drogas, o desespero, o desamor, a dor na forma mais fria e crua. Escrita de forma precisa, quase cirúrgica, Caio vai nos apresentando uma série de personagens anônimos, que ao final se personifica em uma única pessoa: o autor? Ou, quem sabe, até mesmo qualquer um de nós.

O gosto amargo da derrota, cheirando a mofo, a vômito, a vodca barata, a cigarros. Uma melodia sentimentalmente melancólica ao fundo. Escuridão e desencontros. O gosto da solidão esculpida em delírios da alma. Encravada em labirintos tortuosos e escuros de forma magistral. A sensação é idêntica à saída de uma montanha-russa.

“Os Morangos”. Aqui, uma paz tranqüilizadora invade de forma mágica a alma das personagens. Como se a existência de um final feliz fosse possível e breve, ou como se a vida fosse menos pesada. O doce levemente ácido do morango fundindo na língua, mostrando um belo dia de sol após uma tempestade. Mas o doce dá espaço para a acidez, transformando pedaços de magias em mágoas e solidão. Enquanto o dente fere o vermelho brilhoso do morango, na boca permanece o gosto azedo do preconceito, do medo, dos sonhos perdidos, das utopias transformadas em contas bancárias. O enjôo natural dos abusos. Dos delírios causados pelo excesso de cocaína

Histórias envolvendo vagabundos (giramundos), hippies sem destinos, loucos, comunistas, yupes desenfreados, compulsivos, sargentos, preconceitos, estupidez, falta de amor. Dos sonhos de uma geração apodrecendo na latrina comum. Das vidas apodrecendo em latrinas fétidas comuns. A paz tão perto e tão distante que os rápidos movimentos de nossos olhos não conseguem captar. Tampouco poderiam.

“Morangos Mofados”. A terceira parte. Com os olhos fechados, ouço “Let me take you down, ‘cause I’m going to Strawberry Fields. Nothing is real and nothing to get hungabout. Strawberry Fields forever.” Como se eu estivesse em um universo paralelo, um refúgio, um abrigo, uma morada longe, mas dentro, do caos urbano. Uma espécie de esconderijo para se abrigar da chuva tóxica, ou dos desatinos do coração. Enquanto imagens explodem diante de nossos olhos cansados, ao fundo, o som dos Beatles vai levemente aumentando, aumentando…

Caio nos deixa com a boca aberta, o livro nas mãos e o pensamento longe, imaginando: E se a vida fosse diferente? Para ler e reler sempre que a saudade – ou a dor – falar mais alto. Os morangos mofados, como estrangeiro em sua terra natal, ou girassóis no inverno enfeitando os pastos da Rússia, ou uma Guerra Santa… O cheiro e o gosto do mofo ultrapassam toda a simbologia poética do morango.

Mais de Caio Fernado Abreu:
Blog Sem Amor. Só a loucura
Wikipedia
Filme Aqueles Dois (Casa de Cinema, Porto Alegre)
Os contos do livro

DESFABRICANDO UM TOM DE ZÉ

“Tô te explicando
Prá te confundir
Tô te confundindo
Prá te esclarecer
Tô iluminando
Prá poder cegar
Tô ficando cego
Prá poder guiar “
Tô (Elton Medeiros – Tom Zé)

O documentário Fabricando Tom Zé (Décio Matos Júnior, 2007), que como plano de fundo registra a turnê na Europa, em 2005, veio para encaixar as peças que faltam para armar o complexo panorama do movimento cultural Tropicália. Visceral e poético, musical e anarquista, completo e fragmentado, o documentário narra, entre idas e vindas, as nuances da vida e obra de um dos maiores gênios da moderníssima música popular brasileira.

Confundindo para esclarecer, o documentário parece uma criação da mente genial do Tom Zé. Montado entre trechos de shows com entusiasmo ultra-excitado da platéia e o fracasso ao tentar cantar em francês em Paris, costurado com entrevistas, intimidade e depoimentos de pessoas ligadas ao personagem principal, o documentário é rico em música, irreverência e criatividade. De tom para Tom.

“Mas eu te espero
na porta das manhãs porque
o grito dos teus olhos
é mais e mais e mais
e depois que você partiu
o mel da vida apodreceu na minha boca
apodreceu na minha boca”

DOR E DOR (TOM ZÉ)

Enfim, o amor. O ponto alto do filme é a declaração de amor e dedicação à esposa, Neusa. E como ela anulou sua carreira para cuidar do Tom Zé. Em poesia pura, aos litros, pelos brilhos dos olhos, Tom e Neusa – ou Neusa e Tom – entendem cada particularidade e genialidade do outro. Amparando seus passos, antecipando seu caminhar, apoiando-o, Neusa dedica seus dias à sombra – ou à frente – do som metafísico, dos tons e zes do Tom Zé.

Mágoas à parte, e com razão, os comentários – analisados com frieza – sobre a “expulsão” do Tom Zé da Tropicália. Caetano assumiu uma meia culpa, Gilberto Gil atribuiu à juventude e “egos” dos dois lados. Tom Zé era tropicalista? Há quem afirma que ele foi fundamental para o movimento, mas estava muito além dos limites estéticos tropicalistas.
“Tento fazer o melhor porque sou péssimo músico”, assim Tom Zé se define. “Tenho que deixar estas sementes [as músicas], se não, quando os grandes gênios chegarem, o que eles tocarão?” lança ao ar, em tom profético. A singularidade do músico vanguardista que teve aula com lendas como Koellreuter, Smetak e Ernst Widmer. Com harmonias complexas, dissonantes, acordes e ritmos fora do comum, foi até natural entender a “não aceitação” do “mercado” para a música do Tom Zé. Porém, a década de 80, em que o artista esteve afasto da música, foi devastador para uma nova visão estética musical.

“Quando eu vi
que o Largo dos Aflitos
não era bastante largo
ora caber minha aflição,
eu fui morar na Estação da Luz,
porque estava tudo escuro
dentro do meu coração.”

AUGUSTA, ANGÉLICA E CONSOLAÇÃO (Tom Zé)

Tom Jobim dizia que o futuro da música brasileira estava no aeroporto. Tom Zé voltou aos holofotes musicais quando foi descoberto na Europa. Até então, largara a música e dedicava-se à jardinagem. Voltou ao “mercado” consagrado no exterior – como sempre –, em uma forma de colonização cultural, que nosso país ainda atravessa. Voltou para o lugar que nunca deveria ter partido.

Em mil tons fragmentados, em harmonias, compassos e descompassos, na modéstia e genialidade, Tom Zé explora por caminhos não trilhados. Fazendo música com a precisão de um alquimista. Por fim, a música não acabará, Tom plantou no “gene da gente” como a música tem vida própria. E, mesmo nas vitrines empoeiradas dos sebos dos centros da cidade, tocará em alguma vitrola antiga e sensibilizará a alma dos ouvidos e corações dos teimosos que não andam em caminhos traçados.

Fernando Gabeira – Hóspede da Utopia

Hóspede da UtopiaHóspede da Utopia, Fernando Gabeira (Editora Nova Fronteira; Rio de Janeiro; 2º edição; 216 páginas, 1981). Escritor, jornalista, político (atualmente deputado federal pelo estado do Rio de Janeiro),fotógrafo, iniciou sua carreira como jornalista no Jornal do Brasil (1964 – 1968). Ingressou na luta armada contra a ditadura militar, responsável, em 1969, pelo seqüestro do embaixador dos Estados Unidos, Charles Elbrick, posteriormente, preso, torturado e finalmente, exilado (em troca pelo embaixador alemão). Acompanhou de perto o golpe militar que derrubou Salvador Allende, no Chile, após, tal golpe, passou a viver na Europa (Suécia). No final dos anos 70, participou do tribunal Bertrand Russel, que investigou os crimes da ditadura brasileira.

Com a anistia política, voltou ao Brasil, e iniciou sua carreira de escritor, com o best-seller, “O que é isso companheiro” (1979, Cia. das Letras), que narrava o episódio do seqüestro do embaixador americano. Em seguida lançou “Crepúsculo do Macho” (1980, Guanabara), e “Entradas e Bandeiras” (1981, Codecri), relatando como vivera exilado, e sua volta ao Brasil.

Em Hóspede da Utopia, a cena central é o término de uma relação marcada pela rotina, em fragmentos de cartas, lembranças do passado, viagens, e ligações telefônicas, resumidamente, em retalhos de comunicação, vai se costurando todo o enredo, que da mesma forma que começa, termina, deixando uma sensação incompleta, ou até mesmo, um desejo em saber se tudo acabará bem. Quem já esta acostumado com a forma com que o Gabeira escreve poderá pensar que se trata de mais uma de suas histórias reais, embora o mesmo deixe bem claro, no início do livro, que este trata-se de uma obra de ficção. Impossível, ainda mais para quem conhece a figura pública do Fernando Gabeira, ao ler o livro não imagine que muitos fatos narrados possam ter sido vividos.

Após o término de uma relação, que julgavam ser para sempre, o narrador, um antropólogo, narra sua vida, como a um recomeço, tentando dar continuidade, assim que Luisa o deixou, partindo para Nova Iorque. Em várias cartas, telefonemas à ex-namorada, misturado ao presente (do narrador), e seus devaneios ao passado, e claro com Luisa, toda a trama é desenhada, horas como uma aventura, despertando desejo ao leitor em seguir estes passos, horas em solidão e saudades.

O livro, sem ter pretensão alguma, ocupa uma lacuna na literatura brasileira – literatura jovem. Sendo ou não uma ficção, “Hóspede da Utopia” remete a um período conturbado da juventude no Brasil, que acabara de descobrir a liberdade política, ainda perdidos com tantas ideologias, ou falta de uma. Assim, brutalmente Gabeira termina o livro, ensaiando para o futuro ainda incerto, e impresso em suas páginas a vontade de mudar, não apenas o mundo, ou o país, mas sim, mudar a mente e o coração, abrindo-os para o novo amanhecer.


outubro 2017
S T Q Q S S D
« fev    
 1
2345678
9101112131415
16171819202122
23242526272829
3031  

Categorias

Acesso número:

  • 125,011 Páginas vistas.